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Jean Paul Civeyrac

Com uma produção de dez filmes, entre longas e curtas-metragens, oito dos quais presentes na 31ª Mostra, o diretor francês Jean Paul Civeyrac, 42 anos, construiu um universo particular e dos mais originais dentro de sua geração. Temas como a impossibilidade de amar (O Doce Amor dos Homens, 2001), a perda de amantes e familiares (Todas as Belas Promessas, 2003, anteriormente já exibido na 27ª Mostra) e os fantasmas destes que literalmente voltam para apaziguar os que sofrem (Os Solitários, 2000, e Fantasmas, 2001) entrelaçam-se em narrativas nada convencionais. É o mundo espiritual e suas conexões eventuais com o mundo dos vivos, nem sempre em delimitações precisas, que interessa a Civeyrac. Sua formação em Filosofia pela Universidade de Lyon III claramente o inspira e fornece a matéria-prima necessária para representar a natureza e o estado de alma dos personagens. Estes são quase sempre flagrados no limbo ou num momento delicado da vida, pressuposto básico para que as manifestações do que mais se deseja tornem-se reais e ganhem forma física.

O curta-metragem de estréia, A Vida Segundo Luc (1991), realizado como conclusão de curso na Escola Nacional Superior de Imagem e de Som, a La Fémis, onde Civeyrac dá aulas, aponta pouco desses princípios, evidentes apenas mais tarde.
A história do garoto de programa que hesita em aceitar um trabalho para pagar uma dívida ainda está atrelada à realidade da qual o cineasta irá se distanciar aos poucos. A partir de
Nem de Eva, nem de Adão (1996), o longa de estréia, o cinema de Civeyrac apresenta as primeiras pistas de que vem para inverter o sentido racional. A trama do adolescente típico de subúrbio, problemático e irascível, guarda semelhanças com seu similar em Os Incompreendidos, de François Truffaut. Mas nem sempre suas atitudes rebeldes se explicam, por exemplo, por uma deformação na vida familiar. É com Os Solitários e a aparição do primeiro fantasma que a razão no cinema de Civeyrac começa a sucumbir frente à dor da perda.

Na prática, o diretor põe em andamento sua visão filosófica das relações humanas filmando com câmera digital, muitas vezes num só ambiente fechado e escuro, com movimentos sutis e a presença de atores não-profissionais nos primeiros filmes. Interessado em ópera, que relacionou com cinema em sua tese final de graduação, o cineasta dá especial valor à música clássica e moderna em seus filmes, de Felix Mendelssohn a
John Cage. Cabe à trilha sonora, antes que um complemento, conferir dramaticidade tanto quanto os diálogos. Esse processo cinematográfico sofisticado levou o artista multimídia Grégory Chatonsky, responsável por uma coletânea em DVD do diretor, a comparar seu cinema com a música de câmara. Nos filmes do francês, poucos instrumentos são tocados e não há orquestração para que os temas assim se evidenciem.