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31ª Mostra > 15/02/2008
Redação: Leon Cakoff, de Berlim, para o ‘Jornal da Mostra’
O MESTRE WAJDA FINALMENTE FAZ ‘KATYN’
O 58º Festival de Berlim permitiu-nos um encontro histórico com o cinema resistente e sempre perturbador do mestre polonês Andrzej Wajda. O grande mestre sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e ao terror nazista, onde viu seu pai desaparecer para sempre e, depois, à invasão soviética e ao stalinismo que espalhou tentáculos pelo seu devastado país. Em Berlim, Wajda mostrou KATYN, em apresentação especial, um filme que já nasce um clássico e que ganha impulso internacional também graças à sua indicação como um dos cinco filmes concorrentes ao Oscar de língua estrangeira. Em 2000 Andrzej Wajda recebeu Oscar honorário em respeito à sua longa carreira de filmes marcantes e pontuais que clamaram por humanismo e liberdade de expressão.
Andrzej Wajda, 82 anos, só agora consegue total liberdade para expressar a dor da sua Polônia sobre um dos mais terríveis massacres perpetuados durante a Segunda Guerra Mundial. “Precisei esperar o colapso do comunismo para revelar a verdade”, disse Wajda no seu encontro com a imprensa em Berlim. Os soviéticos planejaram friamente o massacre de 22 mil de oficiais poloneses, mortos um a um com um tiro na cabeça, na floresta de Katyn, perto de Smolensk, na Rússia. Mas até o fim do seu império fizeram propaganda enganosa e lavagem cerebral para atribuir a responsabilidade do genocídio de toda uma geração de intelectuais e técnicos poloneses aos nazistas.
“Faço o meu cinema como sempre fiz há 50 anos”, reagiu Wajda para afirmar que não se trata de um filme político. “Este é um primeiro filme sobre um tema tabu, mas é também sobre as minhas memórias. Meu pai foi uma das vítimas do massacre de Katyn e está viva na memória a imagem da minha mãe que nunca perdeu a esperança de tê-lo de volta da guerra. Minha mãe e eu líamos todos os dias as listas de nomes no jornal para ver se aparecia o do meu pai. O que o serviço secreto soviético fez foi destruir de uma só vez toda uma geração de intelectuais, que foi para ceifar o potencial criativo e de resistência de uma nação. Isto é sempre repetido através da história em várias épocas. Até hoje a Polônia sofre as conseqüências destas perdas irreparáveis”.
O episódio lembra que o plano de eliminar os intelectuais poloneses ofereceu uma oportunidade única aos nazistas e stalinistas. Em 1º de setembro de 1939 o exército alemão ocupa o leste da Polônia. Algumas semanas depois é a vez do Exército Vermelho invadir o país graças ao pacto Hitler-Stalin. Ato seguinte o Exército Vermelho, com o cinismo amigo da proteção, oferece custódia a todos os reservistas, militares graduados e intelectuais para logo deportá-los à URSS.
“Meu avô também foi executado nesta guerra”, completou a atriz Maja Ostaszewska, a principal no filme, que interpreta a esperançosa Anna, que busca desesperada o paradeiro do marido oficial. Wajda lembra ainda que “não só poloneses foram mortos em Katyn. O terror soviético massacrou mais um incontável número de pessoas no mesmo lugar, ucranianos e de muitos outros perseguidos pelo terror stalinista, que igualmente precisam ter suas histórias reveladas”.
O massacre de Katyn é conseqüência do pacto de Hitler e Stalin, cada lado com seus planos secretos de supremacia e dominação mundial. Do lado alemão da invasão polonesa também houve um massacre implacável – contra a geração de intelectuais mais idosos, professores universitários em Cracóvia, como mostra o filme. “O cinema sempre retratou as crueldades da guerra, mas só falou das atrocidades cometidas pelos alemães. A escola polonesa de cinema pelo menos sempre fez seus filmes com esta visão. Quem sabe agora”, diz Wajda, “isto também seja uma lição de cinema para seguir adiante para mais revelações”. E o mestre Wajda completa: “Este filme completa a minha carreira. Se fizer um novo filme talvez trate de um flagelo contemporâneo. Estou observando que mais de dois milhões de poloneses deixaram o país nos últimos anos em buscar de melhores oportunidades no estrangeiro. Este êxodo pode ser um bom argumento para o meu próximo filme”.
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