- Assine o jornal
- Receba novidades
sobre a Mostra
- Central da Mostra
- Saiba mais sobre a Central da Mostra
Filmes
Jornal da Mostra
Assine aqui o 'Jornal da Mostra'
31ª Mostra > 17/02/2008
Redação: Leon Cakoff, de Berlim, para o ‘Jornal da Mostra’
PRÊMIO A PADILHA CALA DETRATORES
Com o militante humanista Costa-Gavras na presidência do júri internacional do 58º Festival de Berlim não poderia ser diferente. Gavras marcou o cinema com denúncias à falta de liberdade de expressão e injustiças. Seus filmes eram censurados e proibidos em várias partes do mundo sem liberdade de expressão, inclusive no Brasil. Costa-Gavras deu o Urso de Ouro ao filme brasileiro de José Padilha TROPA DE ELITE/ THE ELITE SQUAD. O presidente do júri deve sentir-se vingado das perseguições que indiretamente sofreu também no Brasil, quando seus filmes Z e ESTÁDIO DE SÍTIO/ STATE OF SIEGE e DESAPARECIDO/ MISSING estavam no índex da ditadura militar.
Mas o que o júri de Berlim consagrou foi mesmo o bom cinema de ação com forte poder crítico e conteúdo político. O prêmio foi um ótimo cala-boca a uma crítica obtusa que enxergou no filme de Padilha mensagens de extrema direita. E a uma crítica especialmente maldosa, de Jay Weissberg, que saiu no Variety durante o festival, acusando o filme de fascista, que os irmãos Weinstein tinham entrado na produção do filme apenas na leitura do roteiro sendo depois tudo mudado pelo diretor, e que a sua narrativa em off manipulava os espectadores inteligentes.
José Padilha, como disse na entrevista final do festival, filma documentando, como se ainda estivesse nos documentários, pois este é a sua estréia em filmes de ficção. Portanto, ao vermos em seu filme tropas militares de elite executando traficantes de drogas nos morros do Rio de Janeiro ele não está inventando nada e nem maquiando seus personagens no estilo Rambo, como também diz a critica preconceituosa do ‘Variety’. Literalmente a critica usa a palavra “elevated”, elevando seus personagens de combate ao nível dos heróis tipo Rambo. Primeiro que personagem algum de um cinema instigante como TROPA DE ELITE pode ser elevado a esta comparação. Seria é rebaixado. Segundo, personagem tipicamente fascista é Rambo. Mas isso não cabe a ‘Variety’ apontar. O seu negócio é proteger o cinema americano e reduzir o cinema de todo o resto do mundo a um destino “limitado a apenas um circuito de festivais”, como sempre ‘ordena’ nas resenhas que publica.
Tive oportunidade de conversar longamente com Padilha nas gravações do programa Roda Viva na TV Cultura, em novembro passado. Disse-lhe que foi bom não nos termos precipitado em indicar TROPA DE ELITE como filme brasileiro candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Eu estava na comissão. E acertei em prever que a sua carreira internacional ainda estava para começar e que o filme iria longe, muito longe. Já está.
O grande prêmio do júri (Urso de Prata) foi justamente para um documentário americano – STANDART OPERATING PROCEDURE, de Errol Morris – de denúncia aos métodos nazi-fascistas das tropas americanas de ocupação no Iraque e onde presumíveis Rambos nada têm de heróico. Errol Morris fez SOB A NÉVOA DA GUERRA/ THE FOG OF WAR, estudando à distância as opiniões do super-secretário de defesa americano Robert McNamara (1961-1968) que teve ação desde os bombardeios de 67 cidades japonesas no fim da 2ª Guerra, até a crise dos mísseis em Cuba e a terrível Guerra do Vietnã.
Errol Morris usa o mesmo método distanciado para entrevistas pessoalmente a todos os envolvidos nas humilhantes torturas de prisioneiros iraquianos em Abu Ghraib, cujas fotos correram e chocaram o mundo. Temos depoimentos frios e cínicos, principalmente de Lynndie England, a que mais aparece nas fotos ao lado do namorado com quem engravidou, Charles Graner. Esse, o mentor intelectual das torturas, um dos. Ele não fala no filme por estar cumprindo pena de 10 anos. Estranho que militares mais graduados nunca foram condenados a nada.
Ainda mais chocante do que as fotos revistas no filme é o próprio título dado a elas por um dos depoentes: Operação Padrão ou Standart Operating Procedure é como ele qualifica a maioria das fotos de tortura. Morris aumenta o espectro dos seus sapos de guerra/ frogs of war (Fog of War). Que sangue frio tem esses soldados do império americano.
E o favorito da imprensa estrangeira e alemã, que era o ótimo filme de Paul Thomas Anderson ( SANGUE NEGRO/ THERE WILL BE BLOOD – Jornal da Mostra nº 556) ficou com dois prêmios: Urso de Prata pela melhor direção e Urso de Prata a Jonny Greenwood pela música.
A inglesa Sally Hawkins como professora primária no sensível e divertido HAPPY-GO-LUCKY, de Mike Leigh teve o prêmio previsível de melhor atriz. E a surpresa foi o prêmio de melhor ator dado ao iraniano Reza Najie em AVAZE GONJESHK-HÁ/ THE SONG OF SPARROWS, de Majid Majidi. Com o elemento criança ainda bem aplicado, o filme trata dos sortilégios de um pai desempregado depois de perder o seu trabalho ordinário em uma granja de criação de avestruzes. Não vê quem não quer...
LAKE TAHOE, do mexicano Fernando Eimbcke (Jornal da Mostra nº 557) recebeu o merecido prêmio Alfred Bear (fundador do Festival de Berlim), pelo seu especial caráter inventivo.
Finalmente o destaque do júri como ‘melhor roteiro’ foi para o chinês Wang Xiaoshuai por ZUO YOU/ IN LOVE WE TRUST. A China moderna no filme de Xiaoshuai (de BICICLETAS DE PEQUIM/ BEIJING BICYCLES) entra na intimidade de dois casais. Mulher em segundo casamento tem de salvar a vida da filha com leucemia. O procedimento mais provável é engravidar de novo com o seu ex-marido para o transplante de medula com o futuro bebê. O que você faria no lugar. Esta questão está na medula de todos estes bons filmes que nos enchem de emoções e reflexões.
Mais Festival de Berlim em http://www.berlinale.de
