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31ª Mostra > 15/05/2008
Redação: Leon Cakoff, de Cannes, para o ‘Jornal da Mostra’
ANIMAÇÃO DE ISRAEL RECRIA MASSACRES DE PALESTINOS
Depois de BLINDNESS, de Fernando Meirelles, os filmes reservados em todas as seleções de Cannes para o primeiro dia tingiram o festival com o peso de cores sombrias. O grande choque ficou por conta de WALTZ WITH BASHIR/ VALSANDO COM BASHIR, do israelense Ari Folman. É uma animação com linguagem de documentário, o que parece inédito nas infinitas combinações do cinema.
O próprio cineasta faz o personagem que quer recuperar a memória perdida traumaticamente quando servia no exército, no início dos anos 80, e que invadiu o Líbano pela primeira vez. Aos poucos a sua memória recupera o mosaico que culmina com a cobertura que o exército israelense deu às milícias cristãs para invadir os campos de refugiados de palestinos de Sabra e Shatila e massacrar indistintamente a quem encontrassem pela frente. Remover um tema tabu como este parece um péssimo presente de aniversário para os 60 anos de Israel.
As memórias de Folman são as de um soldado pós-adolescente que como muitos da sua geração foi ao Líbano como quem escolhe uma próxima praia para o fim de semana. A realidade, logo aprendida, foi a do confronto cruel e sanguinário, das miras cegas, da morte de inocentes de todos os lados. “A experiência da guerra”, recriada em forma de desenho animado, diz o seu realizador, “não tem nada a ver com o que vemos nos filmes americanos. Não há glamour e nem glória. Apenas jovens indo para lugares que não conhecem, atirando em desconhecidos, sendo também alvos de desconhecidos e voltando para casa e tratando de esquecer o que viram e fizeram. E na maioria das vezes não conseguem.”
Animações para adultos são um problema em todo o mundo. Quem deixou de ser criança acha que não tem nada a ver continuar assistindo filmes de animação. Só que há cada vez mais animações para adultos. O desenho corrosivo contra o Irã PERSÉPOLIS, de Marjane Satrapi, revelado em Cannes do ano passado, amargou fracasso em muitos territórios por causa deste preconceito descabido. Quem sabe a VALSA de Folman ajude a formar e provocar a curiosidade de mais adultos por desenhos feitos especialmente para eles.
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