Filmes

CINEASTAS COM ESTILO E CORES SOMBRIAS
LEONERA, de Pablo Trapero

Jornal da Mostra


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Nº 573
31ª Mostra > 16/05/2008
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Redação: Leon Cakoff, de Cannes, para o ‘Jornal da Mostra’

CINEASTAS COM ESTILO E CORES SOMBRIAS

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Seguido ao impacto de BLINDNESS e WALTZ WITH BASHIR, vamos à resenha dos filmes vistos nas diversas seções dos dois primeiros dias do 61º Festival de Cannes.

LEONERA (competição), do argentino Pablo Trapero, nos leva a uma prisão feminina para seguirmos o drama de mulheres encarceradas com seus filhos, no direito que ficar trancafiadas com crianças até elas completarem quatro anos de idade. Herança legal da ditadura militar argentina. Ficamos com a tragédia de Julia (Martina Gusman), acusada de matar o namorado. Quem a acusa é Ramiro (Rodrigo Santoro), que vivia promiscuamente com o casal. O conflito de Julia com sua mãe (Elli Medeiros), uma refugiada política que acabou ficando por Paris, reascende com a tentativa de tirar o seu pequeno filho do confinamento carcerário. Trapero merece atenção especial por todos os filmes radiográficos que faz (MUNDO GRUA, EL BONAERENSE, FAMILIA RODANTE, NACIDO Y CRIADO). Seus últimos filmes tem a simpatia do cineasta brasileiro Walter Salles, que o co-produz através da sua VideoFilmes.

Mais um filme sombrio na competição foi ÜÇ MAYMUN/ THREE MONKEYS/ TRÊS MACACOS, do turco Nuri Bilge Ceylan, um cineasta que aproxima a sua linguagem cifrada do cinema da incomunicabilidade de Michelangelo Antonioni. Desta vez suas nuvens carregadas pairam sobre o terraço da casa de um motorista que serve integralmente a um político de província. O político atropela acidentalmente a uma pessoa, foge sem prestar socorro e pede que o seu empregado assuma em seu lugar, por mais dinheiro, a culpa e a condenação. Nove meses depois, o motorista sai da prisão e espanta-se com o horror. Sua mulher o trai com o político e seu filho único fracassou nos estudos. A violência latente e real aos poucos terá que se definir sobre o rumo a tomar. Como nuvens de uma tempestade anunciada, ela promete se dissipar aos poucos. Faltam detalhes ainda mais perturbadores nessa torrente turca, estilosa como um bom filme dos dramalhões mexicanos dos anos 50.

UN CONTE DE NOËL/ A CHRISTMAS TALE/ UM CONTO DE NATAL, de Arnaud Desplechin (competição), é um retrato de família através de três gerações, no melhor estilo do cinema francês, com tragédias e romance, tudo pincelado com jocosidade e ares blasé.

Catherine Deneuve faz Junon, a matriarca marcada para sempre pela morte de seu primeiro filho aos seis anos, de leucemia, quando a medicina não tinha tantos recursos contra o câncer. Hoje é a sua vez de manifestar a mesma doença e a transfusão de medula motiva a família a se reunir novamente. É tempo de natal e há tensão sobre quem será o seu doador e com os reencontros. A escolha médica será entre o filho renegado ou o neto com distúrbios mentais. Como em seu filme anterior, L’AIMÉE, velhas fotografias de família ajudam a decifrar muitos enigmas das relações familiares.

CZTERY NOCE Z ANNA/ FOUR NIGHTS WITH ANNA/ QUATRO NOITES COM ANNA, traz de volta o veterano polonês Jerzy Skolimowski, 17 anos depois de seu último filme, associado ao produtor português Paolo Branco. Também o filme de abertura da 40ª Quinzena dos Realizadores veio carregado com tintas sombrias. Seguimos a obsessão de um simplório empregado de um hospital de aldeia, encarregado dos serviços de incineração. Até o dia em que testemunha a violação da enfermeira Anna, a quem passa a perseguir e espionar. Um dia planeja induzi-la ao sono a fim de invadir o seu quarto. O plano dá certo. Ao espectador o veredicto pela sua audaciosa e perigosa conduta.

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