Filmes

SALLES É APONTADO COMO ‘O REI DO WORLD CINEMA’
LINHA DE PASSE, de Daniela Thomas e Walter Salles

Jornal da Mostra


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Nº 574
31ª Mostra > 18/05/2008
Edição: Renata de Almeida e Leon Cakoff
Redação: Leon Cakoff, de Cannes, para o ‘Jornal da Mostra’

SALLES É APONTADO COMO ‘O REI DO WORLD CINEMA’

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Honrados com o melhor dia fora o da abertura, no primeiro sábado, três estilos de cineastas cult se cruzaram no 61º Festival de Cannes. O chinês Jia Zhang Ke (24 CITY) e os brasileiros Daniela Thomas e Walter Salles (LINHA DE PASSE) se encontraram na hora nervosa dos testes de projeção, mas sem que pudessem ver o que o outro filmou. Já Woody Allen (VICKY CRISTINA BARCELONA) exerceu o seu capricho ao atrasar a sessão seguinte, de Daniela e Walter, por recusar-se a descer as escadarias do palácio de festival sob chuva torrencial às dez e meia da noite. Só que quem entrou toda molhada na sala foi a platéia de LINHA DE PASSE.

Jia Zhang Ke apresentou o seu filme mais radical e difícil. Muitos planos fixos para uma mistura de entrevistas reais e fictícias sobre um tema crucial: uma cidade à deriva (Chengdu, que acaba de ser arrasada com um terremoto) e uma população de três gerações descartada depois de servir por 50 anos aos caprichos do regime comunista. Ao mesmo tempo, o renascimento da sua economia sob a voracidade de um capitalismo selvagem tão cruel e indiferente com as vidas envolvidas e destruídas quanto o sistema anterior. 24 CITY é o nome de um moderno conjunto habitacional que será construído no local de fábricas do estado onde muitos chineses deram a vida pelo progresso e pela manutenção de segredos militares do regime. É que Chengdu era uma cidade proibida por sediar fábricas de armamentos e componentes do pesado maquinário bélica. Vemos novamente a China em transe, tema sempre inventivo do cinema do genial Jia Zhang Ke.

LINHA DE PASSE é o novo filme da dupla brasileira Daniela Thomas e Walter Salles que se firma definitivamente no cenário internacional. Um modesto jornal de distribuição gratuita durante o festival, “Technikart Super Cannes”, dá a Salles a melhor e mais elogiosa definição: “o rei do world cinema, mesmo fazendo um filme num universo super local”.

O universo “super local” a que se refere é a periferia de São Paulo, sua pobreza horizontal e as chances de escape de se contar nos dedos. São quatro filhos homens de uma mesma mulher e aventuras diferentes. O filme vai nos falar de um flagelo social de envergonhar o Brasil – a ausência de pais em uma boa parcela das relações familiares. Os passes de ascensão dos quatro filhos são o futebol, o pastoreio nas igrejas paralelas, os trabalhos desqualificados (agora com a carreira dos motoboys) e o crime. Quem parece destinado para merecer um prêmio, além do próprio filme, é o ator-mirim e revelação Kaique de Jesus Santos, agora com 15 anos, descoberto através da ONG Casa do Zezinho. Ele, com a sua história de um menino negro à procura do pai entre centenas de motoristas de ônibus, encantou as platéias de Cannes. Mais justo ainda, como Cannes já fez em duas outras vezes, seria premiar em conjunto todo o elenco de LINHA DE PASSE, além do pequeno Kaique: Vinícius de Oliveira, João Baldasserini, Sandra Corveloni (a mãe) e José Geraldo Rodrigues.

Mais infos. sobre o Festival de Cannes em :


www.festival-cannes.com