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31ª Mostra > 21/05/2008
Redação: Leon Cakoff, de Cannes, para o ‘Jornal da Mostra’
A DIFÍCIL TAREFA DE ADOTAR CINEASTAS
Cannes cultiva o hábito de adotar cineastas e prestigiá-los ao longo de suas edições. Uma verdadeira revolução aconteceu neste cenário quando em 1968 o festival foi interrompido para repensar a sua fórmula conservadora de promover cinema. A partir de 1969 surgiria a Quinzena dos Realizadores e mais adiante Un Certain Regard. Uma vez encorajado e fortalecido o conceito de cinema autoral, a constelação de Cannes forjou nomes e talentos que é muito difícil abandonar. Cannes e outros festivais agem como se adotassem cineastas e fazem suas platéias seguir o que eles fazem, evoluindo ou não a cada filme.
Mas tudo tem limite. Muitas vezes falta espaço na seleção para os seus antigos protegidos. Mas quem se destaca com este sortilégio também sabe o custo de tanta exposição à mídia mundial. É o que passa com os irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, que venceram a Palma de Ouro por duas vezes e voltam à disputa com LE SILENCE DE LORNA/ LORNA’S SILENCE/ O SILÊNCIO DE LORNA. Quando a imprensa sai da primeira exibição do filme dizendo que o estilo dos Dardennes está mudando, está mais acessível, será isto um elogio ou uma crítica negativa? Lembrar que o último deles L’ENFANT/ THE CHILD (Palma de Ouro em 2005) foi um fracasso mundial de público, pesa a favor ou contra o cinema deles?
É verdade que a câmera selvagem dos filmes com a marca Dardenne até L’ENFANT, por vezes difícil de seguir, está mais comportada e domesticada em O SILÊNCIO DE LORNA. Mas felizmente a argüição sociológica deles segue preservada. A Bélgica que eles desnudam jamais deixaria ser representada por um cinema assim antes de 1968, quando eram os países que, oficialmente, indicavam os filmes a Cannes. Exemplo criado e ainda mantido nas bienais de artes como do precursor em Veneza.
A Bélgica dos Dardenne segue piorando nos enfoques realistas dos irmãos implacáveis. Dessa vez não há jovens sem perspectiva de trabalho ou ascensão e não há jovens despreparados para ter filhos. Eles nos conduzem a um submundo organizado de imigrantes ilegais da Albânia, da sedução pelo euro e a europeização de uma civilidade que não combina com o balanço social que o estado constituído tenta manter, ao menos nas aparências. O grupo que seguimos tem uma sedutora isca (a talentosa Arta Dobroshi) que ganha cidadania ao se casar com um junkie drogado e suicida. Ao começar a se humanizar com o flagelo social com quem divide um mesmo apartamento, ela é posta sob observação e desencadeia uma vendeta sem retorno. Grávida, não pensa em abortar; passa a ajudar o marido de casamento arranjado. Finalmente recusa a se casar de novo, desta vez com um russo que também busca a nirvana da cidadania européia, e se desencanta de vez com todas as seduções do paraíso.
Imprensa, produtores, distribuidores, diretores, todas as platéias que buscam em Cannes o novo que irá arrebatar as platéias de todo o mundo, também experimentam uma frustração ao longo dos dias em que o festival passa por eles. O cinema autoral segue protegido como ficamos felizes de ver que os Dardenne concluíram mais um filme sem trair seus estilos. A frustração que cresce é constatar que a defesa de uns significa a desclassificação de centenas de outros filmes que não estão em Cannes por simples falta de espaço nas suas diversas programações. Novos talentos pedem mais espaço. Para tanto realmente há o papel exercido pelos festivais ao longo do ano e pelo mundo.
Vale reproduzir o diálogo do mestre Manoel de Oliveira, lembrado na homenagem que Cannes lhe fez com uma Palma de Ouro de carreira:
“Fui visitar Fellini no hospital e ele me disse que os cineastas tem os aviões (os filmes), mas não têm onde pousar. Depois pensei, que sim, temos aviões e temos muitos aeroportos para pousar, que os nossos aeroportos são os festivais de cinema...”
Mais infos. sobre o Festival de Cannes em :
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