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31ª Mostra > 25/05/2008
Redação: Leon Cakoff, de Cannes, para o ‘Jornal da Mostra’
O ‘CHE’ RADICAL DE STEVEN SODERBERGH
Fomos ver CHE, do americano Steven Soderbergh, no último dia de projeções, calmamente, depois de ouvir e ler muita bobagem sobre o filme ao longo do 61º Festival de Cannes. Suas quatro horas e 28 minutos passaram voando, com imagens radicalmente fieis aos dogmas do distanciamento brechtiano. Portanto, radicalmente imparciais no julgamento do mito Ernesto Che Guevara com o distanciamento de histórico, mais de 40 anos depois da sua equivocada ação guerrilheira nas selvas bolivianas e de sua trágica e prematura morte aos 39 anos de idade.
Che virou um mito ainda vivo e incontestável exatamente por tudo isso. Inclusive por ter morrido jovem. Soderbergh fez nascer um filme clássico, intocável. Seria muita pena se ele desse ouvidos aos seus detratores ridículos que acharam aqui exagerada a sua divisão em duas partes e a duração. Os americanos que não aprendem com a história e acham natural um mundo dócil aos seus caprichos, reclamaram em Cannes também da opção correta do filme ser falado em espanhol.
O filme DIÁRIOS DE MOTOCICLETA/ THE MOTORCYCLE DIARIES, de Walter Salles, lançado em Cannes 2004, ganha até mais força com esta espécie de continuação de Soderbergh que custou 60 milhões de dólares aos seus produtores franceses Wild Bunch. CHE, de Soderbegh, segue o mito por toda a primeira parte do filme, chamada THE ARGENTINE, na sua adesão à aventura revolucionária dos irmãos Fidel e Raul Castro de Miami a Cuba no iate de triste lembrança Granma. De triste lembrança porque depois Granma virou nome do único jornal monolítico até hoje permitido de circular na Cuba que fez a vitória revolucionária virar uma outra ditadura hereditária sem a mínima chance de liberdade de expressão. Entre os avanços da guerrilha comandada por Fidel Castro, a primeira parte inclui ainda as reflexões e performances de Guevara em Nova York, com seus ótimos discursos na ONU e na OEA.
Para que as novas gerações saibam, Soderbergh reproduz na segunda parte a cilada que significou para Che Guevara a opção de reproduzir o modelo contagioso e vitorioso de Cuba no resto da América Latina. Que os irmãos Castro quiseram se livrar do incômodo de Che, as evidências históricas já deram seu veredicto. Antes de se aventurar na Bolívia, onde foi morto em 1967, Guevara andou querendo espalhar a sua grife revolucionária pela África, no Congo. A sua razão por justiça social ainda é candente. “Se tivesse mais dinheiro”, disse Soderbergh, o filme teria três partes, “faria também um filme sobre o hiato que resta entre a parte cubana e a boliviana dos filmes”. Pena que faltou esse dinheiro, pois o modelo de cinema de Soderbergh, sem derrapagens e entregas aos modelos de cinema melodramático, certamente daria ainda mais luz e paixãona esta história toda.
A segunda parte de CHE, chamada GUERILLA segue o triste mergulho de um personagem sincero com seus ideais de justiça social, mas tragicamente equivocado com as motivações dos miseráveis isolados nos altiplanos bolivianos. Há ainda a trapaça histórica dos partidos comunistas e seus membros oportunistas, historicamente traiçoeiros e contrários a qualquer tipo de insurgência.
Mais méritos ao filme CHE de Soderbergh estão na encarnação de Guevara pelo mexicano Benicio del Toro. Contribui no entorno das ótimas atuações, a verossimilhança do mexicano Demián Bichir no papel de Fidel Castro e de Rodrigo Santoro no de Raul Castro. Vamos torcer pela integralidade deste grande filme. Soderbergh venceu esta guerrilha contra os modelos de cinema conservador. Falta vencermos uma outra para levar as massas de cinéfilos aos cinemas. E quem quiser mergulhar nesta nova paixão, pode começar pelo sítio do próprio Steven Soderbergh: http://www.stevensoderbergh.net/
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