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Filmes
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31ª Mostra > 19/08/2008
Redação: Rui Martins, de Locarno, especial para o ‘Jornal da Mostra’
Filmes do México, Suíça e Brasil vencem Festival
Terminou o 61.o Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça. A imprensa foi unânime - a qualidade dos filmes deste ano foi das melhores e todos lamentam o anúncio da próxima partida do diretor artístico Frédéric Maire, futuro diretor da Cinemateca Suíça. O cineasta israelense Amos Gitai, recebeu um Leopardo de Honra e mostrou cinco de seus filmes, entre eles o mais recente, One Day, You Will Understand, com Jeanne Moreau vivendo a personagem de uma avó que evita contar o passado de sua família, vítima de nazistas e de seus colaboradores franceses.
Foi também homenageado com uma retrospectiva, o cineasta italiano, Nanni Moretti, conhecido por seu passado engajado na esquerda e por sua oposição ao atual primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi.
Única brasileira concorrendo na seção de curtas-metragens dos Leopardos de Amanhã, no Festival de Locarno, na Suíça, Eva Randolph ganhou o primeiro prêmio, o Leopardinho de Ouro, mais o equivalente a 32 mil euros. O título do filme parece pesado, Dez Elefantes, porém se trata de um filme extremamente singelo e em 15 minutos mostra um jogo de esconde entre duas crianças e a coragem da menina que, escondida no galinheiro, deixa uma lagarta deslizar da palma de sua mão até o pulso. Ironia – o filme pouco antes de ser concluído foi rejeitado pelo Festival de Brasília.
"Meu roteiro era previsto para ser filmado em vídeo como exercício no meu curso de cinema na UFF, no Rio de Janeiro, mas acabou sendo selecionado no concurso de roteiro da Rio Filmes e assim tive condições de filmar em 35mm. O que era previsto para se fazer em dois meses, acabou levando sete, tudo muito maior do que eu pensava", conta Eva, carioca de 25 anos, mãe paulista e pai alemão.
"Tive uma ajuda de 50 mil reais, mas isso é muito pouco, acabei tendo de colocar mais uns 10 mil meus, pois quase vai tudo na cópia que tinha de ser em 35mm. Fiquei muito feliz com a escolha, mas acho necessário ser revisto o total que é entregue aos escolhidos", diz ela.
O curta foi feito no município de Miguel Pereira. Eva trabalhou com Ana Azevedo e com Eric Rocha. Quando foram feitas as filmagens, a menina tinha 8 anos e o menino 11 anos e foram selecionados numa escola de atores crianças em Laranjeiras, CAL. As filmagens foram feitas em uma semana, mas os ensaios levaram três meses. A idéia veio de um conto da Lígia Fagundes Teles e Eva acentua ter havido um trabalho coletivo até a finalização.
O Festival de Locarno premiou com o Leopardo de Ouro o filme mexicano Parque Via, de Enrique Rivero, mostrando a vida monótona, solitária e sem sentido de um zelador de uma rica mansão, vazia.
O filme mexicano Parque Via dura 80 minutos que parecem muito mais, e isso por opção do seu diretor, o espanhol Enrique Rivero, interessado em mostrar a monotonia vivida por um zelador de uma rica mansão, na Cidade do México.
Com um objetivo – acentuar a existência de uma sociedade mexicana de castas bem divididas, a dos ricos geralmente de origem européia e a dos pobres, na maioria de origem índia, entregando-se a esta última as atividades menos criativas e sem interesse, que poderiam ser feitas por robôs.
Tanto que o personagem do filme Beto, é vivido por Nolberto Cora, na verdade o zelador há 30 anos de uma mansão pertencente à família do diretor Rivero. Esse convívio com um empregado fiel à família levou Rivero a afirmar em sua entrevista à imprensa que os patrões desses dométicos nem imaginam a que preço de vida se pode calcular tal fidelidade.
Rivero também explicou sua opção por um tempo ou ritmo lento do filme, ao contrário dos filmes americanos, com a intenção de marcar ainda mais a rotina despersonalizante vivida por Beato. Instruções nesse sentido foram dadas ao próprio montador do filme.
A escolha do filme mexicano faz parte do grande destaque dado pelo diretor Frédéric Maire aos filmes latino-americanos, presentes na competição e nas mostras paralelas do Festival de Locarno.
Rivero comenta a presença da violência na televisão, único ponto de contato do personagem do seu filme com a realidade. A violência dá audiência e, por isso, diz Rivero, sua presença constante nos filmes americanos. Embora não saiba dizer como se enfrentar essa escolha violenta sempre presente no vídeo, ele afirma que cada pessoa deve saber se deve aceitar ou entrar nessa oferta de mundo violento.
Filme suíço também ganha
O Leopardo de Ouro para Cineasta do Presente foi para o documentário suíço, A Fortaleza, filmado num dos centros suíços de requerentes de asilo, onde se encontram homens e mulheres errantes, desgraçados, mal alimentados, em busca de uma terra prometida que, para a maioria, será negada.
A Fortaleza, de Fernand Melger, é um documentário de um crítico da sociedade suíça, voltado para os temas atuais da atualidade. Um dos últimos documentários de Fernand Melger é Saída – o Direito de Morrer, sobre a associação suíça Exit, que oferece a auto-eutanásia às pessoas idosas ou com doenças graves.
Dez Elefantes, da jovem carioca Eva Randolph, é o momento de pausa, no qual se pode respirar diante de crianças, porque onde há crianças há ainda a esperança, diante do verde e da água de um pequeno lago em Miguel Pereira, no Rio de Janeiro. E diante da coragem de uma menina que deixa uma lagarta andar na palma de sua mão para provar não ser medrosa.
Mas, fora desses prêmios principais, algumas películas transmitiram sua mensagem social – Deuses, do peruano Josué Méndez, mostra a juventude desorientada de uma elite econômica peruana e os esforços de integração de uma jovem vinda dos bairros pobres e de origem índia, na sua nova família abastada, Para o diretor, o título Deuses é para denunciar uma classe dominante peruana que se crê tudo permitido, como deuses do Olimpo, sem tomar consciência da miséria reinante à sua volta.
Festa de Canalhas, com menção honrosa e filmado em Pequim, mostra um fenômeno novo surgido na China, o do tráfico de órgãos, agravado pela decisão do governo de permitir um recurso judicial às penas de morte, parte das exigências em termos de direitos humanos à organização ds Olimpíadas. A falta dos órgãos dos condenados à morte, criou um mercado negro de órgãos que, à margem da lei, alicia doadores, principalmente de rins. Sem dinheiro para pagar a hospitalização do pai, numa China que privatiza serviços de saúde, Fu-gui, personagem central decide ingenuamente vender um rim, sem perceber cair nas mãos de canalhas impiedosos que não lhe pagarão o prometido e o deixarão na rua sem tratamento pós-operatório.
O filme não poderá ser exibido na China, mas seu diretor Pan Jianlin já tem outro projeto provocador – Quem matou nossas crianças ? sobre as consequências do recente terremoto na China, derrubando numerosas escolas e matando os alunos, em grande parte filhos únicos. As escolas tinham sido construídas.com material inadequado para garantir maior lucro às empresas construtoras e caíram como castelos de cartas com os primeiros tremores de terra. Uma das primeiras consequencias da política econômica neo-liberal permitida pelo governo chinês, detonadora do processo de corrupção generalizado.
