"Já nasci ator"

O leonino Antonio Ney Latorraca nasceu em Santos, litoral sul paulista, no dia 27 de julho de 1944, pesando 6 kg. Na cidade, Ney cursou o jardim de infância. Os pais, Alfredo e Nena, eram crooners de cassino e por isso não tinham moradia certa. Viviam em pensões, em várias cidades.

Sua estréia como ator foi aos 6 anos, na rádio Record, numa participação com Maria Amélia e Zé Rubens, ídolos dos tempos das radionovelas. Desde então, o pequeno Ney já sabia que havia nascido para ficar em cena.

Como os cassinos já estavam fechados, seus pais se mudaram para São Paulo. A mãe, ídolo máximo do ator, passou a dedicar-se exclusivamente ao lar e o pai tornou-se funcionário da rádio e TV Record. Foi quando Ney iniciou o curso primário, no colégio Claretiano.

Em 1957, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde Ney iniciou o primeiro ano ginasial no Colégio São Fernando, pago por uma amiga de dona Nena. Neste período, Ney só se dedicava aos estudos. Ainda assim, foi reprovado no primeiro ano.

No colégio, a veia artística do ator não estava adormecida. Enquanto os alunos recitavam, Ney tinha um número fixo: dançava frevo, com figurino próprio, "inclusive a sombrinha", faz questão de lembrar.

No ano seguinte, Ney decidiu voltar para Santos e prestar exame no Instituto de Educação Canadá. Foi quando o ator começou a encontrar seu verdadeiro caminho. Nesta escola, tradicional da cidade, Ney cursou o ginásio e o científico (atual segundo grau).

Com um grupo de amigos da escola, Ney formou o conjunto Eldorado, que fazia animação de festas e bailes. No grupo, além de cantor, Ney era também o líder. Na verdade, a carreira musical era a pretensão do garoto, que tinha os exemplos dos pais. O conjunto Eldorado fez apresentações por quase dois anos.

Mesmo estando mais animado no Instituto Canadá, Ney ainda não estava bem encaminhado nos estudos. Voltou a ser reprovado outras duas vezes, na 4ª série e no 1º ano do científico, sempre em matemática.

Em 1964, a montagem de uma peça teatral na escola chamou a atenção de Ney. Foi então que resolveu se inscrever para participar da montagem. Esta foi a estréia de Ney no palco, com a peça "Pluft, O Fantasminha", de Maria Clara Machado, dirigida por Serafim Gonzales.

A montagem fez um grande sucesso. Saiu dos limites do colégio, chegando aos ginásios. A grande imprensa reconheceu a importância da peça e do jovem ator. Ney estava então com 20 anos e já se achava preparado para fazer grandes papéis nos teatros da capital.

Foi quando decidiu subir a serra e procurar um emprego em "Depois da Queda". Como ambição não tem limites, Ney procurou por Flávio Rangel e Maria Della Costa com a intenção de substituir o ator principal, Paulo Autran. Não conseguiu satisfazer seu desejo. Não satisfeito com a negativa, com um batom escreveu no espelho do camarim de Maria Della Costa a frase: "um dia eu vou ser o seu galã".

E não desistiu. Procurou em seguida por Cacilda Becker e Walmor Chagas, que o receberam muito bem. Cacilda sugeriu que o então aspirante a galã fizesse o curso de artes dramáticas na USP, para ficar melhor preparado para grandes papéis. Conselho que Ney seguiu mais tarde.

Depois de falar com Cacilda Becker, em plena ditadura militar, Ney permaneceu na cidade para encenar "Reportagem de Um Tempo Mau", de Plínio Marcos, que fazia uma crítica ao regime vigente. A peça só foi apresentada uma vez. Foi censurada e o elenco preso. O registro de ator profissional de Ney data desta época.

Ney voltou para Santos e ingressou no Teatro da Faculdade de Filosofia de Santos (TEFF), onde permaneceu de 1965 a 1966. Lá, encenou três peças: "A Crômica" e "O Cristo Nu", de Carlos Alberto Sofredini, e "A Falecida", de Nelson Rodrigues.

Em 1967, Ney entra para a Escola de Arte Dramática da USP (EAD). Primeiro aluno da turma, formou-se em 1969 com nota 10 em drama e comédia. Recebeu um prêmio especial por não ter faltado nenhum dia às aulas, comportamento bem diferente do tempos idos do ginásio e colégio. A madrinha de formatura foi Marília Pêra.

Enquanto estudava, Ney morava em pensão e trabalhava durante o dia. Foi bancário, balconista e gerente de loja de roupas e vendedor de jóias. Até que conseguiu alugar um pequeno apartamente para morar sozinho em São Paulo.

Também em 69, encenou "O Balcão", de Jean Genet, dirigido por Victor Garcia. No ano seguinte, apresentou-se no musical "Hair". Desde então Ney apresentou outras 15 peças (veja a página Currículo). Ganhou vários prêmios e muitas outras indicações.

A estréia no cinema e na TV também foram em 1969, com "Audácia, a Fúria dos Trópicos" e "Super Plá", respectivamente. Este último estrelado na extinta TV Tupi. Mas o reconhecimento popular chegou mesmo em 1974, quando fez sua estréia na Rede Globo, na novela "Escalada", de Lauro César Muniz.

Atualmente, Ney Latorraca - juntamente com Marco Nanini - detém o recorde mundial, segundo o Guiness Book, de apresentações de uma peça com o mesmo elenco. O marco foi conseguido com "O Mistério de Irma Vap", de Charles Ludlan, dirigida por Marília Pêra. A peça ficou onze anos em cartaz, percorreu as principais cidades do Brasil e foi vista por mais de 2,5 milhões de pessoas.

Na TV, Ney é contratado exclusivo da Rede Globo até o ano 2001. Na emissora, deve fazer novelas e especiais. Em abril, vai fazer sua estréia como diretor de cinema com o média-metragem "Café com Leite", uma produção da HBO.

Veja o trabalho atual de Ney Latorraca na página Contatos