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  Batuque, o novo disco de Ney Matogrosso

A música brasileira teve vários aspectos em sua evolução, bem como os seus intérpretes. O aparecimento do disco no Brasil, e sua popularização com as primeiras gravações elétricas no final dos anos 20, inicia a era dos grandes cantores populares da música nacional - que terá impulso nas próximas duas décadas com o surgimento da paixão pelo rádio. Essa época de ouro é marcada pela explosão de ritmos urbanos como o samba, a maior expressão musical e coreográfica do país, e o choro. O samba ganha acento nostálgico e torna-se o samba-canção, de andamento mais lento, mas também cômico e pitoresco, como o samba-de-breque. O grande sucesso junto ao público, a partir da década de 30, faz a fama de gente como Orlando Silva, Mário Reis, Araci Cortes, Ciro Monteiro e, entre outros, da notável Carmen Miranda. Esta última talvez a primeira a se celebrizar como cantora popular brasileira.

Ney Matogrosso, ainda criança, nos anos 40, tinha como o primeiro registro de música a voz de Carmen no rádio. Uma voz que soava do povo, mais longe do bel canto soprano necessário para os primeiros momentos da música nacional. Tinha um jeitinho, uma bossa, inteiramente brasileira. Fazia graça. Acentuou o caráter coloquial e humor quase ingênuo, dito mesmo brejeiro, na interpretação do samba e de marchinhas. Uma época de música ingênua e malícia graciosa. Essa música nunca mais saiu da cabeça, do coração e dos pés de Ney. Tanto que, prestes a completar 60 anos, decidiu que era hora de arranjar um repertório que, no espírito, capturasse os anos 30 e 40 da música nacional com a liberdade e o ecletismo dos novos tempos. Um disco na batida do Brasil. Não esquecendo que chamam de samba vários ritmos e danças que se originaram do batuque africano; um disco rítmico e cheio de ginga, melhor título não haveria de ter se não o de Batuque.

Batuque tem ritmo de sobra. Meticuloso, mas solto, ágil e moderno nas regravações de algumas pérolas do período que vai do ano de 1914 ("Urubu Malandro") ao de 1947 ("Teu Retrato"), o álbum preserva todo o frescor da época, sem desfigurar os arranjos originais, mas acrescentando generosas doses da peculiar interpretação de Ney. São músicas do batuque glorioso da pena de compositores como Zequinha de Abreu, Almirante, Assis Valente, Synval Silva e Dorival Caymmi. É interessante notar que a maioria das 13 faixas passaram pelo repertório de Carmen. É um dado importante para se conhecer a gênese da obra.

Tudo começou em meados de 2000, quando o grupo de choro Nó em Pingo D'Água convidou Ney Matogrosso para participar de um show no Sesc Pompéia, em São Paulo. Surgiu então a idéia de incluir canções famosas com Carmen para a voz de Ney. A experiência e sucesso da empreitada foram tão satisfatórios que dali foram direto para o estúdio gravar aquelas que seriam as primeiras quatro músicas do novo disco - "Bamboleô" (André Filho - 1932), "Bambo de Bambu" (Almirante/Valdo de Abreu - 1925), "Adeus Batucada" (Synval Silva - 1935) e "Tico-Tico no Fubá" (Zequinha de Abreu / Eurico Barreiros - composta em 1917, só foi lançada em disco em 1931). Para esta última, o choro mais conhecido e gravado no exterior, Ney adotou a versão original de Zequinha e não a que Carmen cantava. Extasiante para dizer o mínimo.

Com o breve decorrer do tempo, Ney decidiu não se ater somente às músicas de Carmen e abrindo leque para um período de canções ingênuas, mas com o famoso artifício das letras de "duplo-sentido", malandras, alegres. Talvez a única concessão romântica tenha ficado por conta da bela "Teu Retrato" (Nelson Gonçalves / Benjamim Baptista - 1947), famosa na voz de Isaurinha Garcia, e o samba de despedida "Adeus, Batucada" (Synval Silva - 1935) - a canção escolhida para tocar no carrilhão da Mesbla, no Rio, por ocasião dos funerais de Carmen. Ney empresta toda a sensualidade e languidez necessárias para que as músicas adquiram proporções definitivas.

Com a ajuda de alguns amigos e pesquisadores musicais como Jairo Severiano, Fausto Nilo, Paulinho Albuquerque e Zuza Homem de Mello, Ney selecionou um repertório de sonho. Batuque abre com "De Papo Pro Ar" (Joubert de Carvalho / Olegário Mariano - 1931), que espertamente tem no seu começo e final trechos extraídos do primeiro registro fonográfico naqueles bolachões de 78RPM, e emenda com antológicas performances do talento de Ney Matogrosso para "Maria Boa" (Assis Valente - 1936), sucesso com o Bando da Lua", "Urubu Malandro" (Louro / João de Barro - 1914), "E o Mundo Não Se Acabou" (Assis Valente - 1938), "Coração" (Synval Silva - 1935), "Samba Rasgado" (Wilson Falcão / Portello Juno - 1938) e duas de Dorival Caymmi, "Vatapá" (1942) e a canção símbolo de um Brasil "O Que É Que a Baiana Tem?" (1939) - que tornou seu compositor famoso internacionalmente, popularizou a palavra "balangandãs" e serve até hoje como referência para a música nacional no exterior.

Produzido por João Mario Linhares e o saxofonista Zé Nogueira, Ney selecionou um time de ginga e cheio de bossa para acompanhá-lo em Batuque. Além dos rapazes do Nó em Pingo D'Água - Celsinho Silva na percussão, Mário Sève no sax e flauta, Papito no baixo, Rogério Souza no violão e Rodrigo Lessa no bandolim - que tocam e fazem os arranjos de seis faixas, o disco contou com a presença dos arranjadores e músicos Ricardo Silveira e Leandro Braga, Marcos Suzano e Marcos Esguleba na percussão, João Lyra no violão, Marcelo Gonçalves no violão de sete cordas, Jorge Helder no baixo, Márcio Montarroyos no trompete e de Zé da Velha no trombone, entre muitos outros. Uma equipe capitaneada por Ney que mesclou química musical, encheu de ritmos e conseguiu derramar novamente negritude em cada nota, em cada melodia, obedecendo a uma fusão marcante dos anos 30 e 40 - que resultou no samba moderno. Ruy Castro disse, certa vez, que "com Mário Reis, Carmen Miranda foi a primeira branca a gravar o samba com bossa". E Ney tem muita bossa. Batuque é prova.

O disco destaca-se na carreira do artista. Ney está desenvolto como sempre e sente-se à vontade com um repertório brilhante - e representativo. Ney não quis "resgatá-las", porque as músicas não estão perdidas - estarão sempre aí para quem quiser escutar, conhecê-las. Ney atualiza, sintoniza e transporta para hoje uma era de ouro que tem motivos para se perpetuar e ganhar novas leituras. O batuque não silencia.

Jorge Albuquerque
Fevereiro/2001 - Universal Music

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