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trajetória
depoimentos

vocação artística
Antes de cantar, eu desenhava bem. Aos 9, 10 anos eu era capaz de desenhar o retrato de qualquer pessoa. Nessa época, senti que ia estudar pintura, mas meu pai vetou totalmente. Ele não queria que eu fosse artista. Mal sabia ele! Cantar no circo, fazer teatro no colégio, eram coisas que eu fazia escondido. Eu passava o dia inteiro desenhando. Uma tia - que era uma pessoa muito rígida - foi a única a me estimular artísticamente. Ela trabalhava no Palácio do Catete e me enviava pilhas de papel. Eu ficava o dia todo desenhando, enquanto todos estavam brincando...Desde muito novo, eu era introspectivo.

reticências
Eu entendia os assuntos dos adultos, as reticências dos seus assuntos. Eu tinha a percepção do mundo adulto. Acredito que todas as crianças são assim. Na verdade, o mundo adulto conseguiu me enganar por muito pouco tempo. Rapidamente entendi que o que ele pregava e exigia, não era o que na prática fazia. Talvez tenha sido este, o começo de tudo. Quando, pela primeira vez, eu decidi ser coerente.

preconceitos
Me tornei uma pessoa muito contrária a preconceitos. Sempre que avistava um preconceito, me manifestava contra. No ginásio, havia um menino japonês, que era homossexual, que todos infernizavam. Eu não tinha, ainda, a minha sexualidade definida, mas o defendia. Andava com o menino apenas para desafiar aquelas pessoas.

incoerências
Certa vez, desenhei um nu para a minha professora de artes, no colégio, cheio de orgulho. Levei uma bronca na frente da turma. Fui chamado de imoral.Era incompreensível uma professora de artes achar que um nu feminino feito por uma criança de 13 anos era imoral. Não falei mais com ela. Ela não pediu desculpas, mas sei que se arrependeu. Um dia lhe cedi o lugar no trem e senti, pelo seu olhar e sorriso, o seu arrependimento.