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trajetória
depoimentos

aeronáutica
Me alistei na aeronáutica como voluntário para sair de casa. Em 1959 não se saía de casa aos 17, e sim aos 21. Naquela época, a arte havia sido completamente abolida da minha vida. No quartel, havia um amigo que tocava violão. Passávamos o fim de semana sem dinheiro, no quartel, e ele costumava tocar violão, enquanto eu cantava. Ele dizia que eu cantava bem, mas eu continuava achando minha voz muito esquisita.

anatomia patológica
Eu fazia lâminas de biópsia, o que foi importantíssimo, por ser meu primeiro contato com a morte. Trabalhava diariamente ao lado dela. No começo, me deprimia muito. Eu tinha total aversão. Quando vi o primeiro morto, quase desmaiei. Mas não pensei em desistir e sair correndo, porque já estava lá. Eu acordava às 6 da manhã para estar às 7h30 no laboratório de anatomia patológica e trabalhar até as 6 da tarde, batendo ponto. Devo reconhecer que eu era o funcionário público mais estranho do hospital.

Brasília
Me apaixonei por Brasília. A cidade era muito estranha para mim, porque enlouquecia as pessoas, que piravam porque não davam conta de conviver com a solidão. Nessa solidão, todas as minhas tendências artísticas afloraram. Talvez para me defender da solidão, fui fazer teatro, começei a cantar, retomei o desenho.

crianças
Eu estava enjoado do cheiro de formol e queria trabalhar com loucos ou com crianças. Surgiu uma vaga para recreação com crianças, onde trabalhei dois anos. Foi a primeira vez em que tive prazer de trabalhar. Eu era o brinquedo delas. Era hippie, ia cheio de colares, elas adoravam. Ao mesmo tempo, esta foi também uma experiência muito dura. Havia crianças terminais e, muitas vezes, eu chegava lá procurando por elas e elas não estavam mais vivas. Alguma coisa me dizia, que eu podia fazer algo por elas. Aprendi que havia urgência na vida, e que as coisas tinham que ser feitas diariamente, a todo momento. Também descobri que é preciso estar disponível para o seu semelhante.