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trajetória
depoimentos

festival
Os estudantes da universidade de Brasília iam organizar um show para os estudantes mineiros, que iam estudar lá. Um dos organizadores, Paulo Machado, que me conhecia do coral, fez o convite para cantar música popular. Pensei: 'por que não?'" Nessa época, Nara Leão e Elis Regina eram o máximo. Me convidaram para cantar no Festival junto com uma moça chamada Lena - que se tivesse acontecido, teria abalado Maria Bethania, porque tinha o mesmo tipo de voz e era muito 'possuída'. Uma outra moça chamada Gloria Maria cantava sambas muito bem e um rapaz chamado Tião tinha um vozeirão tipo Dorival Caymi. E eu, com aquela voz estranha, fui o primeiro a me apresentar. Quando comecei a cantar, um cara gritou 'bicha' e mandei parar tudo. Caminhei até a beira do palco, o encarei e perguntei o que ele havia gritado. Ele se calou. Mandei a música recomeçar, e cantei. O Festival foi um sucesso, tanto que os organizadores resolveram manter o grupo musical, em Brasília.

protestos
Eu estava morando na casa da professora de canto do coral, que alugava quartos. Ela tinha grandes esperanças de me transformar em um grande cantor clássico. Quando me chamaram para cantar popular, começamos a ensaiar no piano da casa. Certo dia, enquanto eu estava ensaiando, ela chegou e disse: ' Você não se respeita, canta este repertório que não significa nada.' Existia uma rivalidade entre a música clássica e a música popular.

coral
Em Brasília, nos anos 60, comecei a cantar com um coral grande, de 40, 50 pessoas. Cantava-se de Villa Lobos à Brahms, em alemão, francês, italiano...Fui levado por amigos e descobri um universo. Como eu não teria que cantar sozinho, seria era uma voz numa multidão, tive coragem de entrar. Pensei: 'Ninguém ouvirá a minha voz'. No entanto havia trechos em que os tenores não cantavam, a dos contraltos, em que eu, de brincadeira, começava a cantar. Eram trechos dificílimos para os homens cantarem, uma oitava acima do que as mulheres cantavam. Eu fazia isso facilmente. Certa vez, o maestro percebeu e parou o ensaio. Falou que eu tinha uma voz rara, como poucas no mundo

programa de televisão
Depois do Festival, surgiram vários convites. Me convidaram para cantar em boite, o que não gostei de fazer. Cantei em um programa de televisão completamente alternativo. Trabalhava depois que se encerrava a programação, a partir de meia-noite. Tinhamos dois dias da semana para produzir. Cantávamos coisas da época... Edu Lobo, Chico Buarque... Foi aí que eu entendi que ia me dedicar à arte. Percebi então, que podia viver com muito pouco e que esse muito pouco não me deixava infeliz.

ator
Aos 21 anos, comecei a fazer artesanato. Eu tinha um dom nas mãos, que nunca mais exercitei. Certa vez fui a um ateliê de artesanato, onde fazia-se bolsas em couro. Vi que do corte do couro, sobravam bolinhas. Pedi para levar um pouco das bolinhas, comprei um pedaço de couro e com as bolinhas fiz anéis. Passei a procurar materiais que pudessem endurecer os anéis de couro. Eu lhes dava um banho de cola. Descobri que se pintasse com a cola fresca, causava um efeito, se pintasse com a cola seca, causava outro. Eu deixava secar e pingava cola, para criar os dois efeitos. Por cima, eu passava verniz de casco de navio. Ficava como jóia de vidro. A partir dos anéis, passei a desenvolver várias outras coisas. Descobri que podia fazer pulseiras que se enrolassem nos braços das pessoas desde que eu molhasse o couro, o enrolasse em um cabo de vassoura e o deixasse secar. Vivi disso durante muitos anos.

artesanato
As boutiques compravam minhas coisas, e vendiam muito caro. Uma americana quis me levar para os Estados Unidos, porque achava que eu podia ganhar muito dinheiro com aquele trabalho.

hippie
O movimento hippie era algo latente, pulsando em mim. Quando falou-se no movimento hippie e seus significados, uma explosão atômica foi detonada dentro de mim. No Rio de Janeiro, depois que pedi licença do hospital, virei um "hippão". Todos os anseios, os sonhos de liberdade, fraternidade, união entre as pessoas, não ter preconceitos, detonaram o que já existia comprimido em mim. Nunca mais pude voltar a ser o mesmo. Eu acreditei de fato. Encarei o movimento como uma alternativa para a humanidade. Sabemos hoje, que essa alternativa foi manipulada, transformada em moda, em consumo. Mas o espírito que se desenoveu a partir do movimento hippie nunca mais se afastou de mim. Esta pessoa que está aqui é o resultado provocado por um pavio que acendeu dentro de mim, explodiu, e me revelou.