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trajetória
depoimentos

João Ricardo
João Ricardo era um jornalista do Última Hora de São Paulo. Gerson Conrad era um estudante de Arquitetura. Eles já haviam feito várias tentativas de lançar o Secos e Molhados, sem sucesso. Minha amiga Luli conheceu João Ricardo durante as filmagens do filme 'O Diamante Cor de Rosa', de Roberto Carlos, em São Paulo. Juntos, compuseram 'Vira', 'Fala', e várias outras coisas... Ele disse a ela que queria formar um grupo de três homens, mas que estava muito difícil conseguir um cantor com a voz aguda. Chegou de São Paulo e me contou que João Ricardo queria me conhecer. Ele me ouviu cantar em um fim de semana, e no fim de semana seguinte, me mudei para São Paulo. Tudo o que eu possuía, cabia em uma sacola de couro, que eu mesmo tinha feito. Peguei minhas coisas e fui para a casa do João Ricardo. 'Estou aqui. E agora?', disse. Fiquei dois dias em sua casa, depois me mudei para um espaço onde um primo costumava manter um ateliê, no bairro Bela Vista, na rua 13 de Maio. Uma amiga cenógrafa, que morava em São Paulo, me convidou para fazer objetos de cena para teatro. Ela conhecia o meu dom. Depois aluguei com um amigo, que também fazia artesanato, uma casa em uma vila. E foi naquela casa, na vila, meio abandonada, que começamos a ensaiar. Ali começou o Secos e Molhados.

Luli
Luli era uma amiga compositora, que morava numa casa em Santa Tereza. A conheci em uma das vezes em que vim para o Rio de Janeiro. Lena, uma cantora de Brasília, a conhecia e me pediu para lhe entregar uma carta. Luli me fazia cantar feito um louco, numa garagem da sua casa. Eu adorava cantar com Luli, porque ela era a única pessoa que realmente acreditava que eu pudesse ser um cantor. Embora eu soubesse que tinha uma voz rara, não tinha coragem de cantar sozinho. Eu tinha vergonha.

conjunto musical
Em 1970, fui para o Rio de Janeiro e me convidaram para participar do Secos e Molhados. Pedi demissão em Brasília, sem saber se ia dar certo ou errado. Ouvi: 'Você é louco em pedir demissão. E o seu futuro, sua garantia, sua estabilidade? Você está perdendo toda a segurança que adquiriu.' Segurança... eu posso morrer daqui a meia hora! Não estava preocupado com isso. Eu queria viver a minha vida.

espetáculos
Fiz uma peça chamada 'A Viagem', uma adaptação de 'Os Lusíadas', um espetáculo maravilhoso de Ruth Escobar, no auge do seu poder criativo. O elenco era enorme: 70 pessoas. Nessa peça, descobri minhas possibilidades de dançar, porque ficava no escuro. Uma banda ao vivo tocava uma trilha que não parava, era constante, ambientada nas Índias, no Oriente. Eu ficava no escuro, dançando. Uma coisa maluca, essa época.