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trajetória
depoimentos

secos e molhados
Viajamos o Brasil de ponta a ponta. Nem tenho idéia de quantos shows fizemos em um ano. Em todos os lugares, faziamos shows para grandes multidões. O repertório era composto principalmente pelo João Ricardo, e já existia antes de eu chegar. Eu dava muitos palpites, ensaiando. Ensaiavamos basicamente com dois violões - um normal, do Gérson (Conrad), e outro de 12 cordas, do João. Eu adorava o repertório. O conceito era a palavra, eram basicamente poemas musicados. Era essa a nossa grande distinção. No nosso repertório estavam poemas do pai do João Ricardo, o famoso poeta português João Apolinário. Nossa postura era de rock, mas não faziamos rock'n'roll. Nossa postura era desafiadora, transgressora, mas o repertório era pop.

casa da badalação e do tédio
O Teatro Ruth Escobar, tinha no andar térreo um espaço chamado 'Casa de Badalação e Tédio' com jogos - bilhar, dominó, livros, revistas e, de vez em quando, shows. Certa vez, as pessoas que cuidavam do espaço - e me conheciam da peça 'A Viagem ' - me perguntaram se eu não queria cantar com o meu grupo lá. ...Fizemos nossa primeira apresentação para o elenco da peça. Logo de cara, aconteceu um fenômeno. Fizemos três dias de show com um enorme sucesso e pediram para voltarmos durante 15 dias.

O sucesso foi tal, que os últimos dias fizemos com portas abertas, para a multidão que estava do lado de fora. No último dia, peguei um couro de jacaré enorme, amarrei nas costas, deixei o rabo arrastando no chão. Foi o dia em que a Ruth Escobar viu e ficou horrorizada. Ruth Escobar deu um piti, dizendo que não nos queria lá, que deviamos ser maconheiros e que não queria maconheiros na sua casa.

1 milhão de discos
Passamos a alugar teatros. Não tinhamos disco, mas cada vez que se anunciava Secos e Molhados, a lotação esgotava, era uma confusão, uma loucura. Já tinhamos enviado nossa fita para várias gravadoras, ninguém ouviu. Até que um empresário, Moracy do Val, que tinha contatos com a Continental, convenceu a gravadora. Ele foi nosso primeiro empresário. Gravamos o disco. A gravadora achou que venderia 1.500 em um ano. Vendeu em uma semana. Como o mercado vivia uma crise de vinil, a gravadora começou a pegar os discos que não estavam vendendo, e derreter para fazer o nosso. Que vendeu mais de um milhão de cópias em meses. Foi inédito. Só Roberto Carlos vendia mais.

acabou
Me tornei destaque, sem querer destaque algum. Eu gerava, naturalmente, muita curiosidade nas pessoas. Isso foi, de cara, um problema. João Ricardo dizia que só ele podia dar entrevistas. Nunca questionei sua liderança. Mas avisei que se as pessoas me perguntassem algo, eu responderia. E assim foi. E meu pensamento era bastante diferente do dele.

Logo no começo, ainda sem disco, houve um estranhamento no grupo porque a mídia começou a dizer que 'surgia um grupo de homossexuais'. Uma reunião foi marcada e percebi que João Ricardo e Gerson estavam, no fundo, incomodados. Na época deixei claro: 'Vocês podem colocar outro em meu lugar...' Mas a partir daí a imagem do Secos e Molhados passou a ser cada vez mais atraente aos olhos do público e João e Gerson entenderam a razão: era exatamente pela minha atitude. Por isso, começaram a se pintar e a dançar.

A dificuldade de convivência começou a se tornar evidente. Tinhamos um trato: todo o dinheiro que entrasse no Secos e Molhados, seria dividido por três. Mas quando João Ricardo descobriu o que lhe cabia como compositor, a regra foi quebrada. Então, já que uma regra fora quebrada e o dinheiro da composição não estava mais sendo dividido por três, propus ganhar um pouco mais com os espetáculos. Eles disseram que não, mantendo a divisão por três.

Mais problemas
João Ricardo e o pai começaram a construir um escritório faraônico para o Secos e Molhados. Eu e Gerson passamos a não receber, e João Ricardo dizia também não estar ganhando dinheiro. Todo o dinheiro ia para a construção daquela pirâmide maravilhosa. Quando a pirâmide ficou pronta, fomos para o México e quando voltamos, o pai do João Ricardo passou a ser nosso empresário. Me coloquei frontalmente contra. Até que um dia, um boy chegou à minha casa com um contrato que me tornava funcionário do escritório do Secos e Molhados. Não assinei e enviei o menino de volta com um recado desaforado. Estávamos gravando o segundo disco e decidi deixar o grupo assim que terminasse de gravar. A gravadora me pediu para não oficializar a saída até o lançamento. Os jornais já estavam especulando em torno do assunto. Instalou-se um clima de repressão ao meu redor, não permitindo que nenhum jornalista se aproximasse de mim. Certa vez peguei uma garrafa, dei uma de louco e disse: 'quem impedir que alguém se aproxime de mim, vai levar uma garrafada no crânio'. Então oficializei a saída. Gravamos um programa no Rio de Janeiro e decidi ficar. Deixei minhas coisas em São Paulo, e quando retornei, meses depois, já não havia nada.