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trajetória
depoimentos

Homem de neanderthal
Saí em agosto de 1974 do Secos e Molhados e em março de 75 estava estreando meu show no Rio de Janeiro, no Teatro do Hotel Nacional. Antes, fui para a Itália gravar com Astor Piazzola e quando voltei, mostrei o material para Marcio Montarroyos e lhe disse que queria montar uma banda. Ele montou uma banda fantástica para mim. O nome do show saiu da música que abre o disco, "O Homem de Neanderthal", de Luis Carlos Sá. Era uma música que eu conhecia...lá da garagem da Luli...

água do céu passaro
Assinei com a Continental para gravar 'Água do Céu-Pássaro'. Eu pedi músicas. João Bosco, Milton Nascimento me deram músicas... por exemplo: eu gravei um fado, "Barco Negro". Eu cantava no feminino. Me inspirei em uma lembrança da infância, de uma portuguesa que passava os dias em casa, trabalhando e cantando. Na época foi um escândalo, eu cantar no feminino. Foi uma música que tocou muito e me abriu as portas de Portugal, onde quem a cantava era a Amália Rodrigues." -feitiço "O Secos e Molhados me tirou do universo MPB, me colocando no universo rock, do qual gostei muito.

censura
Existia um perigo no seio do Brasil: a expressão. As pessoas não se expressavam. Estou falando de uma época, em que três pessoas não podiam se encontrar numa esquina, porque a polícia desfazia o grupo. Estamos falando de uma época negra no Brasil, onde as pessoas eram torturadas, assassinadas, suas casas invadidas e não existia o menor direito individual. Vivia-se sob um constante terror pairando sobre nossas cabeças. Fui preso porque meus cabelos eram compridos e minha calça, apertada. Fui parar numa delegacia, onde me ameaçaram de estupro e até morte. Só não me torturaram porque avisei que meu pai era militar. Existia um anseio por parte do povo brasileiro, de expressão. O Secos e Molhados foi uma grande válvula de escape.

Na temporada do Rio de Janeiro, no Teatro Tereza Rachel, durante um mês convivi com uma censora permanente, dentro do meu camarim. Ela chegava junto conosco no teatro e ficava no meu camarim até o show acabar. Eu tirava a roupa na frente dela, com a maior naturalidade, e não sabia o que ela fazia ali. Nunca me explicaram. E a atenção dispensada era a mim. Tinhamos que fazer shows duas vezes. Uma para a censura. Fazer show para a censura era como ensaiar marcação de teatro. Três passos para cá, três para lá. Eu não podia me pintar daquele jeito, não podia usar rabo de cavalo, não podia requebrar. Chegaram a querer censurar o meu olhar. Mas o Secos e Molhados nunca foi proibido, porque era um fenômeno brasileiro. Até as crianças gostavam. Tive mais problemas com a censura depois que me lancei em carreira solo.

preconceitos
Me tornei uma pessoa muito contrária a preconceitos. Sempre que avistava um preconceito, me manifestava contra. No ginásio, havia um menino japonês, que era homossexual, que todos infernizavam. Eu não tinha, ainda, a minha sexualidade definida, mas o defendia. Andava com o menino apenas para desafiar aquelas pessoas.

solo
Meu trabalho solo foi radicalmente oposto ao do Secos e Molhados, porque eu queria mostrar tudo da música brasileira de que gostava, que me atraía e instigava. Quando parti para a carreira solo, caiu por terra tudo aquilo que eu já tinha ultrapassado nos Secos e Molhados, que era um grupo que as pessoas gostavam. Sozinho, eu não tinha esse respaldo. Meu primeiro disco foi muito criticado.

polêmicas
Quando eu acabava de cantar "Barco Negro", a banda mantinha o ritmo e eu chorava. Uma crítica comparou meu choro ao de uma rameira. 'Onde já se viu homem cantar música no feminino?'. Disseram que eu me definia numa frase do disco em que eu cantava "sou quem sou e não sou nada, uma história já contada". Críticos que eu considerava seríssimos, e que eu achava que compreenderiam meu trabalho, foram implacáveis. Logo que eu saí dos Secos e Molhados meu nome não pôde ser publicado no JB durante dois anos. O editor dizia que eu era um travesti e que não se publicava nome de travesti no Jornal do Brasil.