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trajetória
depoimentos

homem com H
É o forró de um autor da Paraíba. Foi uma música trazida pelo produtor Mazola e que relutei muito em gravar. É a grande brincadeira do disco Ney Matogrosso, de 1981. Até então eu não havia me permitido 'brincar' em discos. Em shows, sempre brinquei. Um dia, eu estava saindo do estúdio com o Gonzaguinha, que me ouvira cantar 'Homem com H'. Perguntei se ele achava que eu devia inclui-la no disco. Ele disse 'claro, essa música é a sua cara'. Me disse o fato de estar cantando aquilo, seria instigante. Então concordei. E o fato é que foi um choque: as pessoas acharam que eu estava falando sério. No entanto, eu estava brincando. Como brinquei quando cantei 'Telma, eu não sou gay.'

'Telma, eu não sou gay' sequer estava programada para entrar no disco Pois É, de 1983. Estava no disco do João Penca e seus Miquinhos Amestrados, no qual era engraçada, tinha a ver. O diretor da gravadora, que tinhamos em comum, me disse que se eu não pusesse a música no meu disco, recolheria o dos Miquinhos. Então botei. Mas é uma música que eu repudio, porque não fiz a para o meu trabalho. E não estava falando sério. Os gays me cobraram explicações. Tive que esclarecer que tudo fora uma grande brincadeira.

destino de aventureiro
A estréia deveria acontecer na casa noturna carioca Canecão, mas quando soube que teria direito a apenas 25% da renda da bilheteria, conversei com o empresário Manoel Poladian e surgiu a idéia genial. Em troca de 10% do total obtido na bilheteria, arrendei o Circo Tihany, com o qual levei o show a todo o Brasil. Foi meu espetáculo de maior receptividade popular até hoje. Era um show com 5.000 lugares, no qual tive 6 meses de lotação esgotada." Montou-se uma infra-estrutura para viajar com 20 toneladas de circo na bagagem. Foram ao todo 38 carretas para carregar não só a lona mas também 22 caixas de som, microfones sem fio, painéis de luz e demais equipamentos sonoros. Ney cantava 20 músicas, muitas delas incluídas no LP de mesmo nome que estava saindo. Jorge Fernando dirigiu o espetáculo, que consumia energia elétrica suficiente para abastecer uma cidade de 1000 habitantes. O cenário se modificava completamente seis vezes e no final, seis fontes luminosas de água surgiam no palco.

bugre
Depois de fazer o show no Circo Tihany, 'Destino de Aventureiro, gravei um disco chamado 'Bugre', uma exigência da gravadora. O show era um enorme sucesso, mas eu tinha que gravar outro disco pelo contrato. Gravei Bugre e tive de começar a ensaiar um novo show. Enquanto cenário e figurino eram feitos, comecei a me sentir muito insatisfeito, me sentindo um burocrata, tendo que, todo ano, gravar disco... Pensei 'quer saber de uma coisa?' Paguei todo mundo e disse que havia desistido de fazer o show. A imprensa começou a dizer que eu não estava bem, que estava passando por problemas... Eu não tinha problema algum: foi um momento de consciência e lucidez. O momento de ousar, contrariar a ordem vigente e dizer não. Decidi, dali em diante, só fazer o que me satisfizesse muito.

a luz do solo
Um dia o Carlão - empresário da Elba Ramalho - me convidou para participar de um projeto seu chamado Luz do Solo, que unia um intérprete a um instrumentista. Eu havia lido no jornal que Arthur Moreira Lima - que estava no projeto - gostaria de fazer algo comigo. Pedi para fazer com ele. Ao nos encontramos, chegamos à conclusão de que no espetáculo caberiam participações. Chamamos Paulo Moura, Rafael Rabello e Chacal. Daí surgiu 'O Pescador de Pérolas'. Pensei: 'como as coisas acontecem certas'. Tive que provar para mim mesmo, que eu era mais do que um cantor mediano que fazia shows. Eu precisava exercitar o intérprete que - eu sabia - poderia ser , mas que ainda não era.

pescador de pérolas
Em 'Pescador de Pérolas', mudei de gravadora porque a Polygram não quis o disco. Alegou não ser comercial. Decidi gravar Pescador de Pérolas, em 1987, por minha conta. Decidi só assinar com a gravadora que o lançasse. Então surgiu a CBS, interessada. É um disco que até hoje, vende bem. Tive muitos problemas com a CBS. Eles queriam que eu gravasse mais um disco. Por uma atitude minha, depois de lançar o disco 'Quem não vive tem medo da morte', 1988, lancei um show no qual não cantei música alguma do disco. E em entrevistas, pedia a todos os compositores do disco que entendessem. O show transformou-se no disco 'Ao Vivo', que a CBS relutou em aceitar como obra. Ameacei gravar um disco só com violão. Ficaram com medo e me liberaram. A partir do Pescador de Pérolas uma parte do público se afastou, porque eu estava sério, de terno. Mas ao mesmo tempo, um outro público se aproximou. E dentro desse processo, continuei e não me modifiquei completamente no Pescador de Pérolas, mantive minha identidade. Então o antigo público voltou e se juntou a esse novo. Eu não posso me queixar. Com relação à público, eu sei que ele me entende. Eu sei que ele gosta de mim ousado, ele gosta de me ver arriscando. Ele entende que eu sou assim e admite isso, me aceita. Eu nunca tive que cancelar show por falta de público.