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cinema
Não me arrependo de nada do que fiz, faria tudo de novo. Mas sinto que falta viver algumas coisas. Eu gostaria de trabalhar como ator. Como não tenho prática, eu teria que ser muito bem dirigido.Gostei muito de fazer o longa Sonho de Valsa e o média-metragem 'Caramujo Flor'.
iluminação
Sempre considerei a iluminação fundamental para os espetáculos, tenho uma visão 'teatral' da história. Para muitas pessoas, a luz é um componente a mais para alegrar os olhos. Para mim, não tem só essa função. Luz não é para colorir o ambiente e as pessoas. Costumo optar por transformar a luz em uma moldura para o espetáculo, deixando no artista uma luz branca. As luzes que eu faço só se mexem se houver uma razão absolutamente necessária. Por exemplo, no show 'Para Todos' de Chico Buarque, para cada música eu criei uma moldura fixa que, em determinado momento, se necessário, mudava. Mas permanecia fixa. Quando ele cantava Valsinha, aí sim, as luzes cor-de-rosa dançavam ao seu redor. Minha luz funciona como um elemento cênico. Eu procuro inspiração no que está sendo cantado, no que eu estou vendo no palco...
chico buarque
Marieta Severo me convidou para fazer a luz de Paratodos. Queria algo bem cuidado. 'Bonita como as suas' - ela disse... Fiz uma luz "pop". Embora o Chico só cantasse sambas, eu achava que cabia uma iluminação mais moderna. Eu achava que a luz, por ser Chico muito tímido, deveria se mover. Quando a luz ficou pronta, eu perguntei a Marieta se estava contente. 'Era exatamente o que eu queria', disse. A luz foi considerada uma coisa à parte. Embora não tenha sido esta a minha intenção.
nana caymi
O show era de boleros. No People, que é pequeno e onde não cabe equipamento algum. Por isso mandei procurar todos os "binbin" (os menores refletores que existem) que pudessem ser encontrados. Fizemos o espetáculo todo com a luz pontilhada ao redor dela. Parecia um bordado de luz.
nelson gonçalves
Nelson Gonçalves me convidou para fazer a luz de seu show através de um recado. Fiz com muito prazer. Criei dentro do estilo clássico. Afinal, eu não podia colocar 'Nelson Gonçalves' em risco. Trata-se de um mito dentro da música brasileira. Optei por uma iluminação clássica, dando destaque aos músicos e às coisas que estavam acontecendo. E a ele, um destaque absoluto.
fundação osvaldo cruz
Gostei do desafio de ser convidado para iluminar a Fundação Oswaldo Cruz, em Manguinhos. Era um prédio tombado pelo patrimônio histórico. Quando souberam que eu queria botar luz colorida, quiseram vetar. Disseram que eu estaria 'desfigurando' o patrimônio. Quando eu costumava vir ao Rio, antes de morar aqui, via a construção e a considerava misteriosa, pois ficava no meio de uma floresta! Procurei colocar nesta luz exatamente o mistério, mas que transmitisse, ao mesmo tempo, encatamento. Eu queria fazer surgir daquela escuridão algo que encantasse. Eu acho que ficou lindo. Depois disso recebi muitos convites no Brasil, mas as pessoas queriam que eu fizesse de graça. Manguinhos eu fiz de graça porque dei de presente para o Rio de Janeiro, que é a cidade onde eu vivo.
mistério do amor
Fiz a iluminação de uma peça de teatro sobre a vida de Cristo no Teatro João Caetano, dirigida pela Camila Amado. Durante o ensaio, ao assistir à cena da crucifixação, tive a primeira idéia de luz. Enquanto o ator era crucificado, eu iluminava as duas pontas laterais da cruz, e uma luz branca vinha do teto. Formava-se uma cruz branca de luz. Era um efeito maravilhoso. Quando a cruz descia, restava somente a cruz branca de luz. Quando eu entendi esta luz, entendi todo o resto. Iluminei cena por cena, como um caderninho de colorir, um livro de histórias.
shows
Não me considero um diretor profissional de shows. Sou um bom diretor se conheço a pessoa, se tenho com ela algum envolvimento. Posso ser um bom diretor porque não tenho uma visão extratificada. Meu trabalho é entender o artista e mostrá-lo da melhor forma possível.
rpm
Conheci Paulo Ricardo em uma coletiva para o meu show "Seu Tipo", em São Paulo. Ele era repórter. Na ocasião, comentou que gostava de cantar e tinha uma banda. Acabamos nos encontrando outras vezes, ficando amigos. Quando ele gravou o primeiro disco, eu trabalhava com o Manoel Poladiam, que estava, justamente, buscando uma banda de rock para contratar. Apresentei para ele o RPM. Na época, 'Louras Geladas' tocava razoavelmente nas rádios. O Poladiam me convidou, então, para dirigir o RPM. Eu disse que me arriscaria, porque conhecia o Paulo Ricardo. Ele era muito tímido, fechado. Mas eu pressentia uma estrela. A luz do show do RPM foi uma das melhores que já fiz. Tinha fumaça de gelo seco, fumaça de máquina, fumaça com água fria, fumaça com água quente, laser, o neon na borda do cenário parecia fazer o palco decolar de cena. Depois disso, eu vi que podia.
cazuza
Eu assistia aos shows do Cazuza e achava que ele dispendia energia demais fazendo provocações tolas e desnecessárias para cantar. Eu costumava dizer para ele: 'Cazuza, o mais importante da sua obra é o seu pensamento. Portanto, se despreocupe da ação e fique quietinho. Cante.' Então montamos um roteiro, onde procurei sintetizar seu pensamento. O mais aguçado, o mais agressivo do seu pensamento. Ele foi quem melhor representou o pensamento da década de 80. Cazuza era síntese. Seu show teve uma luz bem movimentada, afinal era um show de rock, mas a minha intenção em movimentar as luzes era, na verdade, a de poupar ao máximo o seu rendimento físico.
simone
Simone vinha de uma fase de shows muito dançantes. Pedi a ela, então, que não fizesse um gesto sequer algum até a quinta música, 'Sou Eu'. Porque quando ela fizesse o primeiro gesto, ele teria um valor inacreditável. Outra mudança radical foi fazê-la cantar de vestido longo de renda, o que ela nunca havia feito. Eu mesmo desenhei. Fiz a roupa que Marilyn Monroe usou no filme 'O príncipe e a showgirl" em 1957, com o Lawrence Olivier. A única coisa que ela não topou foi usar um salto de 15 cm. Disse que doía o pé. Quando ela cantava "Eu Sei que Vou te Amar" sem luz, lá na frente, no escuro, uma luz que vinha de trás a deixava nua. Era um efeito muito bonito. Eu pedi 'canta para você'. O que me permite ousar na direção de shows, é saber o que é o lado de lá. E porque comigo, eu ouso tudo.
somos irmãs
Eu nunca havia dirigido uma peça. Devido à minha ligação com o passado e disponibilidade interior de ser elo entre o passado e o presente, me dispus a entrar no projeto. Aceitei, por tratar-se de Linda e Dircinha Batista. Foram artistas que brilharam intensamente no Brasil, que proporcionaram muita alegria a esse país e que estão, absurdamente, ignoradas pelo público e pela mídia brasileira. É vergonhoso para nós. Achei que era uma oportunidade de relembrar seu nome. A peça é um sucesso impressionante.
Desde o 'Pescador de Pérolas', me voltei para o nosso passado. Me orgulho muito dele. Esta peça vem exatamente desse passado, que eu quero levar à tona novamente. Das mais de 60 músicas mostradas ali, eu não conhecia duas. Eu conhecia as melodias e pude ajudar muito os atores a aprenderem as melodias. Descobri que adoro dirigir atores, desde que eles sejam profissionais e entendam o que é uma direção. Fizemos o elenco inteiro cantar, dançar, tudo ao mesmo tempo. O tema é muito interessante, no entanto é uma história trágica. Contamos esta história com o contraponto de uma memória alegre, brilhante, glamourosa e cintilante.
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