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imprensa

Rio de Janeiro, novembro de 1992

O Globo
Mauro Ferreira

Ney pinta bela 'aquarela' rítmica

Ney Matogrosso está sabendo envelhecer no palco. O novo show do cantor, "As aparências enganam", estreou na noite de anteontem, no Canecão, mostrando uma síntese do Ney espalhafatoso do início da carreira e o intérprete mais sisudo de shows recentes como "O pescador de pérolas" e "A flor da pele". Ney se permite uns requebros e uns rebolados em alguns números - para delírio de uma platéia que grita adjetivos como "delicioso!" - mas a música é o centro das atenções do compacto espetáculo.

Um detalhe é fundamental para o entendimento do show: "As aparências enganam" não é um trabalho somente de Ney. O cantor divide o palco com o quinteto Aquarela Carioca. Mais do que acompanhantes de um intérprete, os excelentes músicos do Aquarela dão uniformidade ao espetáculo com arranjos originais e, acima de tudo, bonitos. A voz de Ney soa à frente de tudo, mas é como se ela fosse mais um instrumento hábil na lapidação de um repertório formado por jóias raras da MPB.

As canções ressurgem renovadas. "A tua presença", de Caetano Veloso, virou um samba impregnado de um lamento blues - tão sofrido quanto a interpretação de "O ciúme", outra pérola de Caetano. A cozinha do Aquarela, aliás, é fantástica - em especial a percussão criativa de Marco Suzano - e põe um "molho" deliciosa em músicas como o "Pavão misterioso", de Ednardo. "Notícias do Brasil" e "Tudo o que você podia ser" abrem o show com muito ritmo, mas o começo é fraco (a voz de Ney parecia presa) e não prenuncia o espetáculo brilhante que se desenha em seguida.

Os requebros às vezes são excessivos, mesmo porque Ney está cantando muito bem. Isso fica evidente nos números mais lentos. Ele expõe toda a beleza melódica e poética de "Fruta boa" com o mesmo talento com que recorda "Sangue latino", sucesso do primeiro disco do Secos & Molhados. Na música que dá título ao show, o cantor mergulha com intensidade na composição de Tunai e Sérgio Natureza, provando que, se quiser, não precisa rebolar para prender a atenção do público.

Com exceção da rumba "Las muchachas de Copacabana" e da sensível "Pedra de rio", todas as 17 músicas são inéditas na voz de Ney. Ele soube garimpar o repertório menos óbvio dos principais compositores brasileiros. De Jorge Benjor, por exemplo, apresenta "O vendedor de bananas" apoiado na ginga do Aquarela. O número tem um balanço reggae parecido com o de "El manicero".

O roteiro reserva lugar também para Alceu Valença, representado com o samba "FM rebeldia" e o forró pop "Cheiro de saudade". O show é encerrado com várias cirandas de domínio público. As letras falam em balanço e o público acompanha o ritmo com palmas. Ney aproveita para requebrar. É que a "aquarela" do Brasil pintada por ele é essencialmente rítmica. O público adora e pede bis.