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Porto Alegre, maio de 1993
Zero Hora
Juarez Fonseca
Ney brilha clássico e moderno
Ao lado do ótimo grupo Aquarela Carioca, o cantor faz um de seus melhores discos mesmo com um repertório todo conhecido
Ney Matogrosso não está nas capas das revistas, suas músicas não têm freqüentado as paradas de sucesso e ele não aparece na televisão. Mas isso não quer dizer que Ney Matogrosso esteja fazendo nada e muito menos quer dizer que quem se multiplica em todos aqueles lugares esteja fazendo algo que efetivamente preste, ou signifique. Pelo simples fato de que Ney Matogrosso quase não aparece e vive talvez o maior momento de seus 20 anos de cena. Continua no meio do sucesso. Quer dizer: na questão do showbizz o sucesso é uma coisa relativa, não pode ser medido apenas por quantidades.
As Aparências Enganam é, então, um título bem apropriado para o novo disco de Ney, saindo agora. O disco encaixa-se à perfeição na seqüência de trabalhos realizados a partir de O Pescador de Pérolas (de 87, com Paulo Moura, Arthur Moreira Lima, Raphael Rabello e Chacal), nos quais Ney redefiniu seu repertório e seu estilo na direção do rigor formal e da impressão de novas hipóteses para sua carreira. Se antes confundiam-se cantor e showman, depois de O Pescador de Pérolas ele optou por ser totalmente cantor, aposentando quaisquer resquícios do exotismo herdado do tempo de Secos & Molhados.
Trabalho Finíssimo - O show, que antecedeu ao disco, esteve durante meses em cartaz no Rio de Janeiro. Além de Ney, ele tinha a sublinhar sua qualidade o trabalho instrumental do grupo Aquarela Carioca. Revelado pelo Free Som (a parte brasileira do Free Jazz), já com dois CDs lançados, o Aquarela Carioca é no mínimo brilhante e soa diferente de tudo o que se ouve em música instrumental brasileira. No disco As Aparências Enganam, o quinteto é o suporte mais do que ideal para o finíssimo desempenho do cantor. Não há nenhuma ironia nesse "finíssimo". O trabalho de Ney tem um sabor tão clássico quanto moderno e popular.
Nenhuma música é inédita. Começa com Notícias do Brasil (Milton/Brant), segue com a poderosa FM Rebeldia (Alceu Valença), com as de Caetano A Tua Presença Morena e O Ciúme (uma das melodias nordestinas mais lindas de todos os tempos), Sangue Latino (de João Ricardo, memória de Secos & Molhados), e, entre outras, a rumba Las Muchachas de Copacabana (Chico), o cha-cha-cha El Manisero (dentro dele, Baby, de Caetano), Pavão Mysteriozo (de Ednardo, a faixa estranha do disco), Cheiro de Saudade (de Alceu, só no CD), Vendedor de Bananas (Jorge Ben), um cativante medley de cirandas pernambucanas e, para terminar, densa, As Aparências Enganam (Tunai/Sérgio Natureza). O disco marca a estréia de Ney na gravadora Polygram, a quinta de sua carreira.
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