home
 
   
   
imprensa

Porto Alegre, abril de 1995

Zero Hora
Juarez Fonseca

Uma rumbeira se esconde no cantor de câmara
Ney Matogrosso faz um espetáculo com inteligência e contrastes

Conselho a quem vai assistir ao show de Ney Matogrosso: prepare-se para surpresas. Prepare-se inclusive para - digamos - correr perigo. Os músicos chegam primeiro, todos vestem smocking e ao lado palco, integralmente coberto por um tapete bordô, está uma mesinha de mármore com uma taça e uma rosa vermelha. Ney entra de preto, blazer e uma pantalona com losangos em transparência e veludo (criação Versolato); Seríssimo, canta Fósforo Queimado. Seríssimo e perfeito, vai cantando todas as outras músicas.

As interpretações de Ângela Maria eram esparramadas e passionais. Ney elimina delas tudo isso, criando um clima noir, absolutamente contido. A gestualidade é mínima para que só exista a música, expressa sob a forma de um concerto de jazz erudito. Algumas pessoas mexem-se nas cadeiras, impacientes. Outras trancam a respiração. Aquele Ney Matogrosso crispado não é o que elas conhecem. O grau de densidade do espetáculo quase incomoda. Mas a estética, de eloqüência gay, está lá. Sofisticadíssima. E alguns pequenos detalhes sugerem que alguma coisa diferente prepara-se para acontecer.

De repente o fundo do palco se abre e aparece a fulgurante cortina de cristal, enquanto Ney canta Balada Triste. Terminada a música, ele solta um longo suspiro. Sinal para que o grupo detone uma fogosa rumba e ele comece a requebrar. O público suspira também, aliviado. Ney tira o blazer e mostra o torso praticamente nu. O público urra. Cantando Beijo Roubado ele desce para a platéia. O clima anterior é rompido com radicalidade. O que antes implodia agora explode. Aplaudido de pé ao final, Ney Matogrosso sai com os músicos (brilhantes, enfatize-se).

O público quer mais, os músicos voltam. E quando se espera um Ney voltando normalmente, ele irrompe da lateral do palco dançando, com a rosa na boca e uma outra pantalona, larguíssima, para cantar Babalu. O sério cantor de câmara do início tornara-se uma rumbeira safada. É um show que recupera a magia do palco, tratado como um lugar especial e não como a sala da casa de qualquer um. Mas, sobretudo, é um espetáculo muito inteligente, pelo contraste que estabelece e pela situação de limite em que coloca o público.