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Curitiba, março de 1996
O Estado do Paraná
Ana Maria Lopes
Para ouvir, ver e dar passagem
Que bom: a MPB já é clássica. Que bom: Ney Matogrosso sabe disso. Que bom: dos clássicos escolheu Chico Buarque. É nasceu o álbum "Um Brasileiro", um dos bons lançamentos Polygram. Delicadeza e emoção misturada à reverência do cantor pelo compositor desdobram-se em 17 faixas pelo CD, com participação do dono da 13, "Até o Fim".
´Construção", que abre o repertório, está primorosa. Como elogiável está também a companhia rítmica dos arranjos de Leandro Braga. É outro aspecto do disco que chama atenção: não é monocórdio, é até vibrante em muitos momentos. Soa diferente. É que, ao contrário das demais e recentes produções discográficas dos grandes nomes da MPB, o violoncelo de Jacques Morelenbaum comparece em apenas uma faixa ("Soneto").
Leandro Braga soube ser versátil na mistura de guitarras, violão, baixo acústico e elétrico, sax, piano, trompete, percussão e convidados especiais nas horas certas, como o oboé de Carlos Fernando Fortuna na imortal "A Banda" e o reco-reco e repique de José Belmiro em diversas faixas. "Um Brasileiro", que estara ao vivo em Curitiba dia 30 de abril e 1o de maio, no Guairão), pode revelar que grandes intérpretes estão sem opção de novos compositores. Mas demonstra que o que a MPB tem é bom de sobra. E está ao alcance de novos ouvintes, que podem assim refrescar os ouvidos de tantos axés, se assim quiser.
No capricho
"Um Brasileiro" tem produção esmerada. O encarte vem ilustrado e as letras são editadas em forma de crônica. Por motivos óbvios, selecionamos "Almanaque" para exemplificar.
Ô menina, vai ver nesse almanaque como é que isso tudo começou Diz quem é que marcava o tique-taque e a ampulheta do tempo disparou. Se mamava, de sabe lá de que teta, o primeiro bezerro que berrou Me diz Me responde, por favor Pra onde foi o meu amor Quando o amor acaba Quem penava no sol a vida inteira, como é que a moleira não rachou Quem tapava esse sol com a peneira e quem foi a peneira esfuracou Quem pintou a bandeira brasileira que tinha tanto lápis de cor Me diz, me dia Me responde, por favor Pra onde vai o meu amor Quando o amor acabar Diz quem foi que fez o primeiro teto que o projeto não desmoronou Quem foi esse pedreiro, esse arquiteto e o valente primeiro morador Diz quem foi que inventou o analfabeto e ensinou o alfabeto ao professor Me diz, me diz Me responde, por favor Pra onde vai o meu amor Quando o amor acaba Quem é que sabe o signo do capeta, o ascendente de Deus Nosso Senhor Quem não
fez a patente da espoleta explodir na gaveta do inventor Quem tava no volante do planeta que o meu continente capotou Me diz Me responde, por favor Pra onde vai o meu amor Quando o amor acabar Vê se tem no almanaque, essa menina, como é que termina um grande amor Se adianta tomar uma aspirina ou se bate na quina aquela dor Se é chover o ano inteiro chuva fina ou se é como cair do elevador Me diz Me responde por favor Pra que tudo começou Quando tudo acaba.
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