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Florianópolis, abril de 1996
A Notícia
Valéria Lages
Ney afina corpo e voz em um show versátil
Performance do cantor é capaz de provocar as platéias mais frias, como a que assistiu ao seu primeiro espetáculo no CIC
A cada requebrada que deu, o público, timidamente, se manifestou. Ney Matogrosso sabe o que provoca com cada rebolada. O balanço de seu quadril é tão expressivo quanto o olhar firme contornado por um grosso lápis preto. Ele se diverte com o prazer que causa nas pessoas, exibindo sem pudor o corpo de 54 anos com absolutamente tudo em cima. Seu rosto o denuncia. Quem sentou nas primeiras filas no show que fez terça-feira no Centro Integrado de Cultura viu na cara de Ney a expressão de riso que faz a cada vez que se liberta dos gestos contidos. Deu certeza que ainda é o mesmo andrógino dos tempos dos Secos & Molhados, de comportamento subversivo e provocativo. Conseguiu quebrar o gelo da platéia fria quando, do alto de uma escada montada no palco, tirou o chapéu laminado, a frente única vermelha que vestia e - tchan - as calças! Lá de cima, levantou os braços e
se mostrou por inteiro, coberto apenas por um minúsculo tapa-sexo. Aplausos e gritos. E a imagem vai sumindo, levada para baixo por detrás da escada. Ney cantando Chico Buarque, além de ser afinadíssimo no agudo, também o é na composição de corpo e voz.
Atrasados
Marcado para as 21 h, o show iniciou sem que todo o público estivesse dentro do teatro lotado. Muita gente teve que procurar sua cadeira no escuro. Com paletó azul estampado com grandes flores amarelas em um tecido com bolas laminadas e chapéu igual, Ney começou o show cantando "Estação Derradeira". A primeira canção a empolgar a platéia foi "Partido Alto", mas nada que a fizesse dançar. Apesar de o público responder mais às músicas embaladas, são as novas roupagens das lentas que mais impressionam. Em "Mil Perdões" o palco fica todo escuro e, com uma lanterna de grande alcance, Ney dispara a luz contra o público, cantando "Te perdôo/ por fazeres mil perguntas/ que em vidas que andam juntas/ ninguém faz..." enquanto iluminava os rostos da platéia. Cantou "Valsinha" com muita doçura, fazendo as caixas de som reproduzirem
suas respiradas nas pausas entre uma frase e outra. "Minha História" também ficou muito emocionante na sua voz.
Foi uma hora de show e a volta de Ney - depois da insistência do público que não arredou pé do teatro - demorou. No "bis" programado, três novas músicas não cantadas antes: A última, "Vendedor de Bananas", de Jorge Benjor - a única sem ser de autoria de Chico - não disse a que veio, solta entre as demais. Às 10h20, o show já havia terminado e a platéia ainda queria mais. Apesar de uns terem saído maravilhados e de outros terem esperado mais da apresentação, o show curto não saciou a vontade de todos de ver e ouvir Ney cantando Chico.
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