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imprensa

Porto Alegre, abril de 1996

Zero Hora
Juarez Fonseca

Ney Matogrosso mostra quase tudo
O show do cantor lotou três dias o Salão de Atos da UFRGS e é um dos melhores de sua carreira

Ney Matogrosso está mesmo alçando um novo vôo em sua carreira e foi como ele imaginava: três dias de lotação esgotada no Salão de Atos da UFRGS. As mulheres, maioria na faixa entre os 30 e os 40, e formando uns 70% do público, gritavam "lindo", "tesão", "gostoso". De repente uma voz masculina também se faz ouvir: "maravilhoso!". Envolto em produção mais do que requintada, Um Brasileiro, só com músicas de Chico Buarque, é, certamente, um dos grandes shows do cantor. Não apenas um show, mas um espetáculo reunindo cena, repertório de primeira, músicos de alto nível, iluminação impecável e, importantíssimo, boas surpresas.

O pano abre e mostra Ney no alto de uma escadaria, no centro do palco, com um modelo em dourado e vermelho e cantando a densa Estação Derradeira. A banda veste terno branco, camisa e gravata listadas de preto e branco, sapatos de duas cores, chapéu panamá. Mais tarde, para o blues Mil Perdões, o palco mergulha em penumbra azul e Ney foca a platéia com uma lanterna. Um pouco mais e tira o paletó, revelando a frente única que provoca o primeiro frisson explícito no público, antes de cantar Bom Conselho e sugerir que as pessoas poderiam se preparar para o que viria.

Dança na beira do palco, sobe os degraus rebolando, lá em cima tira o chapéu, tira o corpete e o público prende a respiração. Enfim, tira a calça, revela um minúsculo tapa-sexo e, em um elevador oculto, vai desaparecendo por detrás da escadaria. A banda assume o show até que ele reapareça no alto, com um modelito laminado (incluindo um adereço de cabeça inspirado nos barretes medievais), e que o pano de fundo, até então branco total, despenque revelando outro pano, estampado com flores berrantes - o velho chitão com um toque de artesanato "persa".

Os sambas fortes embalam o show, que termina subitamente entre esguichos de fogos de artifício. Fecha-se a cortina e, de pé, todos exigem mais. Uma exigência verdadeira de bis, para um final falso. Ney retorna com outra roupa, canta A Banda, Vendedor de Bananas, Não Existe Pecado ao Sul do Equador e pronto, fecha-se a cortina, acende-se a luz. Mas são apenas 22h30min, o público quer ainda mais, bate pé, aplaude, grita "volta, volta". O que ninguém imaginava: Ney abre uma fresta na cortina e surge enrolado em um lençol, atirando beijos... Faltou só a palavra "fim" em neon.