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imprensa

Brasília, maio de 1996

Jornal de Brasília
Marcos Savini

Ney Matogrosso está de arrepiar
No show Um Brasileiro ele canta músicas de Chico Buarque num espetáculo de luzes e interpretações exuberantes

Após assistir Um Brasileiro, show de Ney Matogrosso formado só com músicas de Chico Buarque, não há porque duvidar da afirmação do cantor de que ele chegou à sua maturidade artística. Não que seus espetáculos anteriores, especialmente quando cantou acompanhado pelo violão de Rafael Rabello em A Flor da Pele, não fossem obras-primas. Mas desta vez Ney apelou, no bom sentido, brindando o público com uma overdose de seu talento.

Em Um Brasileiro Ney Matogrosso está espetacular, na voz, na presença sobre o palco e numa amarração entre todos os elementos do show - a banda, a iluminação, os cenários - que faz saltar os olhos do espectador de tanta exuberância. Muito bem dosada aliás.

O repertório de canções de Chico Buarque está dividido em duas partes. A primeira é mais lírica, predominando as canções e amor. Mas o destaque fica mesmo com a interpretação de Ney e o arranjo de Leandro Braga, ambos de arrepiar, para Construção. A atmosfera instrumental é densa, com toques dissonantes, enquanto um efeito de iluminação girando em espiral verde-escura dá a impressão de vertigem. Após o último acorde, Ney tranquiliza a platéia: "Podem relaxar que o mais pesado já passou", brinca.

Apoteose - O resto do show corre em clima de gafieira, mas com ares de superprodução. Sobre a iluminação, assinada pelo próprio cantor, só não se pode dizer que é um espetáculo a parte porque está perfeitamente integrada à grandeza da voz e ao carisma da performance de Ney Matogrosso. Com muitos efeitos e surpresas, a luz pontua com perfeição o clima que Ney quer dar à cada canção de Chico, incluindo muita pirotecnia no clímax final, quando ele canta Não Existe Pecado ao Sul do Equador durante o bis.

Mas, ainda antes do bis, o show tem outros momentos apoteóticos. Um deles é, com certeza, quando Ney Matogrosso se desfaz totalmente de seus figurinos e faz pose, apenas com um tapa-sexo, no alto da escadaria colocada no centro do palco. O streap marca a passagem para a segunda parte, que emenda vários sambas de Chico, e acontece durante sua interpretação para Homenagem ao Malandro.

Já despido, Ney some por trás da escadaria, e os percussionistas da banda vêm para a frente do palco entreter o público. Enquanto isso, Ney prepara uma nova entrada espetacular, num traje que ressalta o seu torso nu e esguio, aos 54 anos. E, como já era de se esperar, arranca ovações do público feminino de meia-idade com o seu andrógino sexappeal.