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Recife, julho de 2000
Jornal do Comércio
Marcelo Pereira
Ney é soberano na penúltima noite do Festival de Inverno de Garanhuns
VIGOR. Perto dos 60 anos, cantor ainda leva a multidão ao delírio com o físico e a voz poderosa
GARANHUNS - Exagerado, jogado aos seus pés. "Ney Matogrosso é tudo!" gritou uma fã, entre um gole e outro de vinho argentino, extasiada com o vigor e virilidade do quase sexagenário cantor. A garoa caía na sexta-feira à noite na Praça Guadalajara. O público espremia-se, cutucava-se, arranjava um espaço mínimo para dançar, sem tirar os olhos vidrados no palco. Impávido, Ney entrou em cena apenas com um saiote rubro. De peito aberto, encarou o frio e soltou a voz - que voz! - com a provocativa Mulher Barriguda. O público há poucos minutos acompanhado e cantado junto com Luiz Melodia, que repassou todos os grandes sucessos de sua carreira ao violão dos fiéis companheiros Renato Piau e Perinho Santana. Nesse instante, já estava em outra dimensão. Em dez aos de Festival de Inverno de Garanhuns, Ney Matogrosso foi o artista mais soberano,
magnético e sensual em cena.
O repertório do show é baseado em Olhos de Farol e Ney Matogrosso Vivo, Ele repassa desde sucesso da fase Secos & Molhados (O Vira e Rosa de Hiroshima) até suas versos para hit de compositores em voga hoje - como Lenine e Lula Queiroga (Balada do cachorro louco - fere rente), Paulinho Moska (Último dia), Pedro Luis e A Parede (Miséria do Japão) e Skank (Garota nacional), passando pelos hits de Cazuza (Exagerado e Pro dia nascer feliz) e Celso Viáfora (A cara do Brasil).
O roteiro do show é impecável. A banda e os arranjos das músicas idem. O som... farrapou em alguns instantes, deu microfonia, chiou, chegou a irritar o cantor. Mas ele não perdeu o rebolado. Sua voz continua firme, cristalina, máscula. Assim como seu corpo, teso, hirto. O olhar, incisivo, provocativo. Ney troca de roupa, se aproxima do fosso, deita-se na escada, provoca o público, que delira e não quer mais deixar a Praça Guadalajara. Todos estão em êxtase.
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