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Rio de Janeiro, junho de 2001
O Globo
Bernardo Araújo, João Pimentel e Mario Marques
Música para as massas
Shows de Caetano, Lulu e Ney iluminam a cidade
Não teve apagão, confusão ou baixo-astral capaz de evitar que o Rio exercesse, no final de semana, uma de suas maiores vocações: cantar. Do Posto 2 de Copacabana à lonjura do Ribalta, nos confins da Barra, Caetano Veloso, Lulu Santos, Ney Matogrosso e Bibi Ferreira foram alguns dos generais da banda que embalou o povo.
Os shows populares reuniram milhares de pessoas: na noite de Sábado, Lulu Santos, ao lado de uma orquestra, emocionou o povão que encheu as areias de Copacabana para cantar uma sucessão de standards como "Certas coisas", ´Como uma onda", "Toda forma de amor" e "Descobridor dos sete mares". No Canecão, a preços populares, Caetano deu os toques finais em seu novo show, "Noites do Norte", que estréia na próxima quinta-feira para uma temporada de três semanas. A casa lotada recebeu bem o baiano e sua banda - em que se destaca o guitarrista Davi Moraes - e cantou a plenos pulmões sucessos como "Sozinho", "Dom de iludir" e "Tigresa".
Cantor cita "Tapinha" e faz ironia com a política
Caetano parecia à vontade, vestido informalmente, no ensaio de sexta-feira à noite, no tórrido Canecão. Aliás, de ensaio a função não teve muito, apenas a ausência de elementos cênicos e raras correções na banda e na luz.
- Maneco, não se esqueça do blecaute final - lembrou Caetano ao iluminador, antes do bis, que ele confessou que seria tocado mesmo que o público não pedisse.
O roteiro do show inclui a maioria das canções do CD "Noites do Norte". Assim como em "Livro vivo", com que Caetano promoveu "Livro", há três anos, a percussão rege a maior parte dos arranjos, ao lado do violoncelo de Jacques Morelenbaum e da guitarra de Davi. Um dos momentos com melhor reação da platéia foi a versão do baiano para "O último romântico", de Lulu Santos, que ele cantou acompanhado apenas pelo violoncelo. Ao lado do sucesso "Sozinho" - que levou o disco ao vivo "Prenda minha", de 1999, a superar a marca de um milhão de cópias vendidas 'foi a canção acompanhada pelo maior coro.
- O show está praticamente pronto, mas vocês estão mais bem ensaiados ainda - rendeu-se ele.
Em "Meia-lua inteira", Caetano bem que incentivou os pulinhos da platéia, mas não teve uma resposta tão expressiva. Até a citação ao funk "Tapinha", que fecha "Dom de iludir"- um arranjo diferente, guiado pelo baixo distorcido de Pedro Sá - não agitou muito a galera, que queria ouvir mais clássicos como "Leãozinho" e "Menino do Rio". Ao final do funk, Caetano comentou com a platéia:
- Ouvi uns murmurinhos de reprovação ao "Tapinha", eles teriam vindo da Comissão de Ética do Senado?
O público riu e ele arrematou, mantendo o astral:
- Esse "Tapinha" é bom demais, né?
A missão de reunir a Zona Norte e a Zona sul foi perpetuada com brilho por Lulu Santos, no Sábado à noite. Depois da introdução da orquestra - arregimentada pelo maestro Amilson Godoy para o projeto Pão Musica, que une rock e música clássica em shows populares - com trechos da Nona sinfonia de Beethoven, Lulu e sua banda abriram o espetáculo com "Tempos modernos", que iniciou uma longa sessão de karaokê do público. Animado, o cantor lembrou que havia nascido em Copacabana - "há uns 23 anos" '- e fez questão de apresentar alguns dos convidados presentes à área vip, localizada na frente do palco.
- Está aí uma "ídala" copacabanense de todos nós. Ângela RoRo - disse, puxando aplausos.
A empolgação o levou a pular duas músicas no roteiro, começando "Toda forma de amor" quando a orquestra tocava "A cura". Nada que chateasse o público ou comprometesse a performance. Apenas o próprio Lulu confessou ter ficado aborrecido, após o show, no camarim.
Um dos momentos mais emocionantes foi o final de "Como uma onda", quando Lulu deixou o público cantar e foi parando, um a um, os músicos, até que apenas a orquestra ficou embalando o refrão. Mais um golpe de mestre.
- Dizer que Lulu sabe tudo já é lugar-comum - exaltou, ao final, o compositor e amigo Alvin L.
Barra vai do fado ao Samba Brejeiro
Ney Matogrosso revive clima dos filmes da Atlântica, Bibi Ferreira traz de volta Amália
Este musical final de semana também foi o do fado de Amália Rodrigues, recriado por Bibi Ferreira - no show que inaugurou, na Barra da Tijuca, uma nova casa de espetáculo, Ribalta - e o do samba dos anos 30 e 40, segundo a leitura brejeira de Ney Matogrosso, lançando o recente CD "Batuque", no ATL Hall.
O cantor impôs-se novamente como pesquisador da música popular brasileira - em "O cair da tarde", de 1997, mostrou as afinidades entre Jobim e Villa-Lobos, assim como gravou discos dedicados a Ângela Maria ("Estava escrito", em 1994) e Chico Buarque ("Um brasileiro", em 1996). Agora, propõe um passeio pelos sambas dos anos 30 e 40, num show que terá nova dose no próximo final de semana.
Ney recria o clima dos filmes da Atlântida
Ney faz um show propositalmente caricato, parecendo reviver no palco os filmes da Atlântida e seus exagerados cenários tropicais - não por acaso estão ali muitas das canções eternizadas por Carmen Miranda. Coqueiros artificiais e um piso que reproduz o calçadão de Copacabana são seu terreno de trabalho. Nove músicos, entre eles Jorge Hélder (baixo) e Zé Nogueira (sopros), mais gente que respira samba, como Marcelo Gonçalves (violão de 7 cordas) e Ronaldo do Bandolim, permitem que o cantor encha o lugar de saudosismo.
E Ney empolgou a platéia que lotou o ATL, com a indefectível "O que é que a baiana tem" (Dorival Caymmi); reviveu Assis Valente com "Maria Boa" e "E o mundo não se acabou"; e carregou de latinidade a noite com "Bambolêo" (André Filho), em meio a roteiro enxuto de 19 músicas. Do lado direito do palco, montou seu camarim "socializado", onde troca de roupa dividindo a assinatura dos figurinos com o estilista Ocimar Versolato.
Em certo momento, com uma minúscula tanga, deixa a platéia conferir sua forma com detalhes. Boa desculpa para a respiração que precisa lá pelo meio do espetáculo. Que continua bem-sucedido até o fim.
Já a estréia de "Bibi vive Amália Rodrigues", na sexta-feira, inaugurando a Ribalta, foi irregular, já que talvez o fado necessite de um palco mais intimista. Mas, mesmo não tendo um roteiro bem amarrado e nem uma dramaturgia à altura do espetáculo "Piaf: a vida de uma estrela da canção", Bibi, no dia em que completou 79 anos, mostrou boa forma e voz límpida ao interpretar a primeira dama da canção popular portuguesa.
Luiz Carlos Miéle abriu a noite apresentando a casa, explicando que esta possui um gerador e que, portanto, nunca se apagarão as luzes da Ribalta. Em seguida, fez um pedido para que ninguém filmasse ou fumasse. Mas os celulares não paravam de tocar mesmo depois do início do show.
Duas músicas instrumentais e entra em cena Bibi, ou melhor Amália, repetindo a frase de sempre: "Mais uma vez me aconteceu o milagre de vocês terem vindo". Ela lembrou da ligação da cantora com o Brasil - "Onde canto sempre tem um brasileiro na platéia" - e emendou com "Perseguição" e "Barco negro".
Dramaticidade de Amália é pouco explorada
Acompanhada de Carlos Gonçalves, que empunhou sua guitarra portuguesa por quase 40 anos ao lado de Amália, Bibi lembrou que mesmo lançando seus primeiros discos no Brasil, onde conheceu seu segundo marido, César, e ficou por mais de seis meses em cartaz no Canecão, a cantora sentia muitas saudades de sua pátria. Assim como o fado, Amália era uma pessoa altamente dramática, o que foi pouco explorado pelo diretor e roteirista Tiago Torres da Silva. O momento mais próximo disso é a tentativa de suicídio de Amália, que se autodefinia: "Ou muito alegre, ou muito triste. Num segundo tenho 200 anos e no seguinte só 12".
Os clássicos de Amália agradaram. "Uma casa portuguesa", "Fado Amália", "Nem às paredes confesso", "Lisboa, velha cidade" foram acompanhados em coro, assim como "Estranha forma de vida". Mas nem tudo era previsível no repertório. Bibi lembrou "Saudades do Brasil em Portugal", que Vinícius de Moraes fez para Amália, e cantou "Saudades de Itapoã", contando ao público da admiração de Amália por Dorival Caymmi.
Dercy Gonçalves, na platéia, brinca com Bibi
O show já chegava ao final quando, da platéia, Dercy Gonçalves levantou-se e interrompeu a amiga: "Bibi, aqui é a Dercy, você é um fenômeno". Ela demorou a entender o que se passava mas, depois, brincou e também elogiou a atriz. Quando todos esperavam o final, Bibi voltou e apresentou o elenco, estendendo-se demais nos elogios. Mas muito ainda aconteceria. O dono da Ribalta, Pasquale Mauro, subiu ao palco e ofereceu uma passagem Rio-Portugal a Bibi. Miéle também voltou para o sorteio de uma outra passagem com direito a suspense, ao som de "Assim falou Zaratustra".
Roteiro e interpretações à parte, o pacote para a noite, que incluía um coquetel, o show, um jantar e uma apresentação da Orquestra Tupy, ainda precisa de alguns retoques. A pista de dança fica distante do palco; a comida esfria antes de as mais de mil pessoas conseguirem se servir, e o serviço pode ser mais eficiente. Para uma casa que pretende atrair o público cobrando ingressos entre R$ 120 e R$ 170, a Ribalta ainda terá que oferecer muito mais do que suas luzes.
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