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Porto Alegre, julho de 2001
Zero Hora
Cris Gutkoski
Tremedeira nas cadeiras
Batuque, de Ney Matogrosso, é show altivo, sem concessões
Ney Matogrosso é um cantor raro na MPB, que há 30 anos usa o corpo inteiro como obra de arte plástica anexa à voz nos shows. Em Batuque, que ele e uma fantástica banda de nova integrantes apresentaram de Sexta a Domingo no Teatro do Sesi, Ney canta com o corpo bem mais coberto - pela primeira vez em muitos anos não usou saia, não apareceu só de tapa-sexo, ou seja, não mostrou as pernas nuas, tampouco as costas, ou a barriguinha esculpida. A carência do erotismo mais explícito acabou esfriando fãs fogosos, mas a "tremedeira nas cadeiras" do cantor, como na letra de Samba Rasgado, foi tão competente e o rico repertório dos anos 20, 30 e 40 seguido com tanto respeito que ao final do único bis a conclusão era que se estava aplaudindo um show tecnicamente perfeito.
Batuque começa como no disco, com De Papo pro Ar: Depois de Samba Rasgado, Ney afirma que se sente orgulhoso de trazer para a roda musical do século 21 compositores como Zequinha de Abreu e Assis Valente, e deseja "boa viagem" no tempo. À mínima brecha no script ouvem-se gritos de "lindo!" e "gostosão!" e, se no começo são só mulheres berrando, ao final da noite de sábado eram vozes másculas a bradar "eu te amo, Ney!". Em Tico-Tico no Fubá, iniciam-se os solos de sopro (Zé Nogueira no sax, Dirceu Leite na flauta) e bandolim (Ronaldo do Bandolim) que terão seus grandes momentos em Bamboleô. Ney acrescentou duas canções às 13 dos disco, sem qualquer concessão à sua altivez de lotar teatros para ouvi-lo requebrando-se em raridades como Urubu Malandro, composta em 1914 por Louro e João de Barro.
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