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imprensa

Juiz de Fora, agosto de 2001

Tribuna de Minas
Sem referência do autor

O dono dos balangandăs

Ney Matogrosso é o herdeiro legítimo de Carmem Miranda. Quem assistiu ao novo show do cantor no Cine Theatro Central na noite de quinta-feira se impressionou com a maneira com que ele incorpora os trejeitos da Pequena Notável sem cair na armadilha da imitação ou da caricatura. Na verdade, ele transcende a musa inspiradora de "Batuque", transformando-se em senhor absoluto do palco e dos olhares da platéia ávidos para descobrir mais detalhes sobre sua energia criadora, cuja descarga se transcodifica com a mesma intensidade na esfera sagrada (admiração dionisíaca) sem deixar a dimensão profana (pulsão sexual).

Bastou cantar os primeiros versos de "De papo pro ar" para o público entrar em sintonia com o que estava por vir. Assumindo a criação da luz, dos cenários, do repertório e do figurino (em parceria com o estilista Ocimar Versolato), Ney imprime sua personalidade em todo o espetáculo, de maneira que o público partilha sua admiração com o repertório formado por clássicos das cinco primeiras décadas do século XX. "Quando comecei a fazer a pesquisa, percebi que já conhecia quase todas as músicas, o que facilitou muito a seleção", disse ele, acrescentando que sempre pensava em gravar "Adeus batucada" ou "De papo pro ar" quando houvesse oportunidade.

Sob aplausos
Vestido com uma calça preta com fendas nas pernas, uma camisa deixando o peito à mostra e um turbante dourado, Ney manipula o olhar e os ouvidos da platéia, que respondia com aplausos e elogios entusiasmados a seu rebolado inigüalável. Palmeiras imperiais feitas com flicker (lantejoulas grandes) recriavam o clima de teatro de revista proposto pelo cantor, que ressaltou a carioquice das músicas fazendo do calçadão de Copacabana o caminho de sua viagem ao passado, com "Tico-tico no fubá", "Coração" e "Samba-rasgado", incluída no CD por causa da exclusão de "Saudades do meu barracão", que quebrava o ritmo do disco na opinião do cantor.

Perfeccionista, Ney sabe como fazer o público se tornar seu parceiro, acompanhando "Batuque na cozinha" e "Voltei pro morro". O show esquenta à medida à medida em que ele percorre o palco até chegar a hora de troca de roupa. Enquanto a banda lentamente se reúne no centro do palco, o cantor vai a um biombo onde faz uma suingada performance que deixa homens e mulheres em polvorosa. "O público gosta disso e não me custa nada fazer para agradá-lo, o que não significa que preciso fazer sempre, afinal, primeiro é preciso estar agradando a mim", comenta o artista. A volta ao centro do palco, com camiseta e calça preta bordadas de paetês, acontece com "O que é que a baiana tem?", que dá início ao segundo set de músicas, tão movimentado quanto o anterior.

Aos 60 anos, Ney canta rebola, dança e deixa a platéia sem fôlego com tanta disposição. "Não há pulo do gato, isso acontece naturalmente", conta ele. "Ainda estou no domínio do meu corpo, que responde ágil e leve ao que quero fazer". Com "Urubu malandro", "Vatapá" e "E o mundo não se acabou" o show foi chegando ao fim. "Barco negro" acabou de fora da apresentação do Central, mas os juizforanos (sic!) puderam conferir a boa forma do cantor num conjunto preto cantando "Beija-me", encerramento sob medida para uma noite em que tudo aconteceu com perfeição para quem é tão bom que pode até dispensar os balangandãs.