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Porto, outubro de 2001
O Comércio do Porto
José Vinha
Sem Ney nem rock
Matogrosso revivalista "Arrasou" Casino de Espinho
A timidez de Ney não tem comparação possível com a electricidade do artista que sobe ao palco e agarra o público. Estonteante, Ney Matogrosso regressou ontem à noite ao Casino de Espinho. Desta vez interpretou canções que foram sucesso nos anos 30 e 40, sem a vertente pop-rock dos Secos e Molhados, a banda que fez emergir o cantor. Apesar dos provectos 60 anos, conserva intacta a voz e a genica atípicas. E fugiu ao alinhamento para reencarnar Amália Rodrigues, um momento alto do espectáculo.
Correu a cortina. Vislumbra-se um cenário plantado com palmeiras de prata, mergulhado em tons azul e lilás, o ritmo de uma banda de oito músicos. Entre a luz tênue irrompe a silhueta. O cantor está descalço. Esguio, adorna o corpo retesado a negro com pinceladas de oiro. O busto semi-nú sobressai, contrastando com a touca de tecido leve. E canta "De papo pro ar", o primeiro tema da noite. Finalmente, Ney Matogrosso junta-se ao público.
"Para todos boa noite. Para quem se lembra dos sucessos dos anos 30 e 40, espero que gostem; e para todos em geral uma boa viagem", desejou. O público agradeceu, com palmas, seduzido pela presença delirante de Ney.
O artista brasileiro interpretou de seguida vários temas, agora reproduzidos em "Batuque", o seu último álbum. À Margem do alinhamento, Ney Matogrosso interpretou "Barco negro", um fado que ficou eterno na voz de Amália, sendo um dos momentos mais comoventes do espectáculo. Sem referir o nome da fadista, Ney optou por deixar solta a mensagem, que reafirma a tônica da imortalidade.
"O que é que o baiano tem?"
A banda, que inclui oito excelentes músicos, suportou o show e o cenário, aprimorado. No momento de interpretar "O que é que a baiana tem?", o artista recorre ao biombo para trocar de indumentária. Na frente do público, troca de turbante, de calça e de blusa.
A banda executa a "roda do choro" enquanto o cantor inclina para si o espelho da cómoda. Propositadamente, deixa antever parte do corpo semi-nu. Primeiro as coxas, depois a cinta, rodeada por uma faixa negra. Debruça-se sobre o biombo e estende a mão a uma fã, num gesto enamorado, após o que regressa lentamente ao ritmo baiano.
Ao longo de duas horas, o corpo de Ney nunca sossegou. Passos controlados ao pormenor, gestos provocatórios, olhares desafiadores. Ney recorre sempre ao detalhe da dança, com a dose adequada ao alinhamento, caracterizado por ritmos urbanos, como o samba e o choro.
O novo álbum apresenta temas de compositores como Dorival Caymmi, Zequinha de Abreu, Almirante, Assis Valente e Synval Silva. Sem descurar os arranjos originais, "Batuque" atualiza uma era de ouro reiventada pela peculiar interpretação de Matogrosso.
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