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imprensa

Porto, outubro de 2001

CM
Daniel Guerra

Ney foi 'rei' batucando a união do choro e do samba
No Casino de Espinho

Porto (Delegação) - Pela terceira vez, nos últimos quatro anos, Ney Matogrosso deixou impresso no palco do Casino de Espinho o intenso carisma de intérprete mutante da Música Popular Brasileira.

Num espetáculo em que, por causa do "batuque", ninguém "quebrou seu pé", Ney foi o sacerdote sacro e profano do casamento indissolúvel que, há quase um século, enlaça o choro e o samba num bamboleo irresistível.

Que se saiba, o matogrossense Ney de Souza Pereira, 60 anos não tem nenhum retrato de Dorian Grey exposto nas paredes da sua casa carioca. O que somente se pode garantir é que Ney Matogrosso mantém bem calibrado aquele pujante jogo de cintura que, desde a era do seu primeiro grupo, os Secos e Molhados, o torna o performer mais mítico da Música Popular Brasileira (MPB). Seu requebro nas cadeiras, que, por certo, fazem inveja à mais mestiça das passistas, compraz os olhos que não precisam de ter farol.

Vestido de negro e prata (por Ocimar Versolato nos brechós de Paris), Ney desfilou a destreza de um autêntico "rei" das passerelles do samba. Olhos iluminados, ouvidos despertos. Mas até os ouvidos menos educados não são insensíveis à tatuagem personalizada que Ney Matogrosso imprime nas pérolas que, como um perseverante pescador, tem recolhido no amplo escrínio da grande música do Brasil.

Após ter burilado as jóias do repertório composto por Chico Buarque e cantado por Ângela Maria estava escrito que um brasileiro como Ney se voltaria para uma primorosa reinvenção do tempos áureos em que os choros e os sambas pontificavam nas ondas do rádio, nas serestas de fim de semana e nas rodas, quadras e gafieiras onde só não dança quem é doente do pé.

Nem resgate, nem tributo
A primeira constatação que este espetáculo "Batuque" fornece é a sagacidade como Ney evita tanto a estratégia do resgate redundante, como a gratuitidade do tributo "salamaleque".

Felizmente não há motivos para resgatar músicas que não estão esquecidas como "E o Mundo não se Acabou" (Assis Valente), recentemente gravadas por Paula Toller e Calcanhotto. Música que Ney reveste de uma roupagem ritmicamente esfusiante, contrastando com os registros mais intimistas e pausados de Paula e Adriana. Ou "Bamboleo" (André Filho), alvo de uma versão manifestamente redutora de Júlio Iglesias.

Por outro lado, embora ao longo da sua carreira a imagem tutelar da portuguesa Carmen Miranda se pressinta como um fluido inspirador, Matogrosso evitou a armadilha da homenagem submissa. Isso não impediu que a sua recriação de "O que é que a Baiana tem?" tenha constituído o apogeu do concerto.

Este êxito da diva foi anunciado por uma roda de choro, interpretada com esmero pela banda do cantor. Antes e fertilidade desse encontro feliz entre o samba e o choro, fora testemunhada em "De Papo pro Ar", "Batuque", "Tico-tico no Fubá" (que Carmen também ajudou a eternizar), "Samba Rasgado" ou "Barco Negro", que na sua dolência fadística nunca será um "caco velho" enquanto houver vozes como as de Ney ou Amália.

Se a segunda parte da prestação abriu no êxtase encenatório de uma reivenção burlesca e estilizada da bahiana, "O Adeus Batucada" - hino da despedida no funeral de Carmen - aconteceria sob o império dançante de uma samba bem rasgado, gostoso como um "Vatapá", onde até "Urubu Malandro" tem a nobreza da água da Portela.

Afinal, é esse o prazer melódico e harmônico gerado pelas transas da flauta (de Dirceu Leite) com a cuica (de Zero), do bandolim com o tamborim (de Zé Trambique), do violão (de Rogério Souza) com o cavaco (de Ronaldo do Bandolim), uma união de facto que não admite a lei do divórcio.

Contudo, por mais que custe aos admiradores do Ney luxuriante, tenho para mim que o zénite se declarou quando ele interpretou - com aquela lupiciniana (de Lupicínio Rodrigues) resignação da "dor de cotovelo" - "Teu Retrato", numa contida serenata de adeus e despedida que Nelson Gonçalves aplaudiria se estivesse ainda no conturbado mundo dos vivos.