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imprensa

Lisboa, outubro de 2001

A Capital
Vera Valadas Ferreira

O que é que o Ney tem?
Matogrosso esgota Coliseu em noite dedicada aos anos 30/40 e a Carmen Miranda

Dengoso, o cantor mudou de indumentária em placo, perante os aplausos e os assobios do público atrevido. Um show repleto de Batuque.

Dois dias antes do espetáculo de quarta-feira à noite, no Coliseu de Lisboa, Ney Matogrosso já havia confessado, em conversa com A Capital, que Batuque, o show com mesmo título do seu mais recente álbum (editado em Maio deste ano), seria mais exigente com o público, no sentido em que não seria feito dos grandes êxitos da sua já longa carreira. O artista brasileiro cumpriu à letra a promessa feita, oferecendo-nos um lote de canções que respeitou o alinhamento do disco. Os anos 30 e 40, e sobretudo o imaginário da efusiva Carmen Miranda serviram de conforto nesta "viagem sonora", neste mar de "recordações", nas palavras do próprio cantor, que ali terminava a sua digressão por palcos nacionais.

Tico-tico no Fubá e E O Mundo Não se Acabou, este também já interpretado por Adriana Calcanhoto no seu álbum ao vivo Público, foram alguns dos temas imortais agora recuperados. A aparente ingenuidade de algumas dessas canções ganhou um novo fôlego na sensualidade latente em qualquer movimento do cantor, por mais simples que ele seja. Sereia dos palcos, animal musical, eis Ney Matogrosso no seu melhor perante u ma assistência suspensa do seu talento, também ela atrevida quando foi preciso ser. Foi o que aconteceu, por exemplo, a meio do espetáculo, quando o intérprete, aqui também responsável pela direção e pelos figurinos (em parceria com Ocimar Versolato), mudou de indumentária em placo, num camarim improvisado. Neste pormenor cênico, que acaba por ser um fétiche em todos os seus espectáculos, Ney esteve mais dengoso do que nunca, assumidamente lascivo, em posições provocantes e meio-despedidas frente ao espelho, tendo como feedback os aplausos e assobios do público. Amor com amor se paga. Tudo para logo de seguida entoar, languidamente, uma versão de O Que é Que a Baiana Tem?. Tem garra e presença em palco: tem sabedoria e humildade q.b; tem arte de sedução e timidez também nas doses certas; tem um timbre intocado pelo passar dos anos, que já são sessenta.

Sobrevivendo dos ritmos samba, do ambiente de gafieira e das melodias do choro, o espetáculo revelou-se mais homogêneo musicalmente do que aquele apresentado no ano passado, nesta mesma sala lisboeta. Uma dezena músicos de talento irrepreensível secundaram o artista que meneou a ancas, no seu jeito peculiar, do princípio ao fim do espetáculo.

Durante hora e meia de espetáculo brilharam ainda temas como Papo Pro Ar, Maria Boa e Vatapá. Lá atrás, o cenário de palmeiras prateadas não podia ser mais adequado à alegria em palco. O cantor teve ainda que voltar ao palco para oferecer à assistência (que já estava em pé, dançando também) mais um tema. Na despedida, Matogrosso abriu uma excepção no alinhamento do concerto, protagonizando uma arrepiante interpretação de Rosa de Hiroshima, um poema magoado de Vinícius de Morais. Fechar do pano.