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Na intimidade com as estrelas
José Manuel Simões - Jornal Correio da Manhã – Portugal

As aparências às vezes iludem

Ney abre-me a porta, descalço e de pijama de seda. Entrega-me a mão com languidez e senta-se à minha frente com as pernas estendidas.

Sou acordado em sobressalto pelo telefone esquecido no chão da casa de banho. Atendo estremunhado. “É Ney, Ney Matogrosso. Desculpe acordá-lo. Se quiser volto a falar mais tarde”. Que não mas... Ney Matogrosso? “Foi nosso querido Ezequiel Neves que me deu seu contacto lá no Rio de Janeiro. Gostaria de o convidar para me visitar no Hotel Solverde, em Espinho”.

Ney de Souza Pereira abre-me a porta da suite, descalço, pijama de seda deixando exposto o peito cabeludo. Entrega-me a mão com languidez, senta-se à minha frente com as pernas estendidas lateralmente no sofá, observa-me como se estivesse a avaliar as possibilidades de aproximação com alguém que tinha sido recomendado por um amigo íntimo. Quem o visse dificilmente identificaria o cantor Ney Matogrosso transfigurado no palco, ainda mais desnudado que neste momento constrangedor. Ninguém imaginaria que esta criatura recatada e baixinha é o mesmo exuberante que todos conhecem dos palcos. Questiona-me sobre os meus limites face aos mundos masculino e feminino mas – enquanto as mãos delicadas e nervosas alisam o veludo do sofá como quem tacteia um corpo nu – é tão desafiador como retraído.

Tinha eu 11 anos quando, em São Paulo, assisti pela primeira vez à performance desta delicada personagem que não pára de me procurar os olhos. Ver em cena aquela contorcida figura de corpo e rosto pintados, grinalda na cabeça, franjas amarradas às coxas e um tapa sexo, provocou em mim um enorme fascínio. Foi como que uma lufada de liberdade para uma criança habituada a evitar as bofetadas do pai, do padre e do professor. A mesma liberdade com que neste momento me parece desejar, mão sensual aparando a cabeça docemente recostada e uma sede exposta de “libertar o espírito e o corpo, ligar o inconsciente ao divino”, como me justifica. Falámos de tudo um pouco, partilhámos ideias e alguns sentimentos, cantou-me – com a voz ainda mais andrógina – uma adorável canção de Cazuza.

Anos mais tarde fui entrevistá-lo no mesmo hotel mas não me convidou para a suite. Tratámo-nos profissionalmente. Preferimos ignorar que nos conhecíamos de momentos de intimidade.

Fonte: Jornal Correio da Manhã – Portugal