|
Ney Matogrosso: Show Inclassificáveis (Canecão, Rio de Janeiro, 11/1/2008)
Beto Feitosa
Um dia antes da data marcada para gravação de seu DVD, Ney Matogrosso subiu ao palco do Canecão sem o habitual atraso. Quem contou com a tradição, teve que se encontrar no escuro e perder o início. Aliás, quem foi atrás de tradição se deparou com um Ney despido. Despido de pudores, despido de sucessos.
Em Inclassificáveis Ney Matogrosso rema contra a ditadura da indústria, que impõe que os artistas releiam o próprio repertório, as tais "músicas conhecidas". Ney injeta novo repertório na carreira em um movimento de grande liberdade artística. Inclassificáveis é show de um CD que só será lançado em março, mas desde o final de 2007 ganhou os palcos. O CD foi gravado em estúdio, o DVD é registrado nessa curta temporada carioca.
Ney está roqueiro. Sua voz, forte e afinadíssima, está cheia de (segundas, terceiras e quartas) intenções. Quando a cortina revela a banda já no palco, Ney levanta vôo de seu divã com uma versão blues de O tempo não pára. Pode parecer incrível (ou não, por ser ele), mas Ney brilha mais do que a roupa que usa. A banda que o acompanha não traz nomes muito conhecidos, mas revela Junior Meirelles, destaque na guitarra e no vocal.
O tom roqueiro carrega boas pitadas eletrônicas. Se vale uma comparação com o projeto anterior, o recital Canto em qualquer canto, fica a impressão de que Ney rejuvenesceu. Mas aí ele canta que "Ser novo pra mim é algo velho" e rebola como nos tempos do Secos & Molhados. Mais tropicalista impossível. Mais corajoso, raro nos dias de hoje.
Ney Matogrosso troca de roupa no palco, com direito a olhares provocativos e assovios e elogios vindos da platéia. Ele troca a roupa como se mudasse de pele e engata uma versão tecnomacumba de Cavaleiro de Aruanda para, logo depois, descer do palco e provocar cantando Por que é que a gente é assim?.
O repertório de 22 números previstos vai desde a vanguarda de Itamar Assumpção (Ouça-me), passa pelo novato Dan Nakagawa (Um pouco de calor), pelo hit pop Simples desejo e até para mais uma versão da ótima Ode aos ratos, rock de Chico Buarque e Edu Lobo. No bis, encerra o espetáculo com Pro dia nascer feliz com a certeza de que ele contribuiu para isso. E a noite termina feliz.
A curta temporada segue hoje (12 de janeiro) e amanhã no Canecão.
Fonte: UOL
|