| 13/01/2011
O Globo
Antônio Carlos Miguel
De volta aos palcos cariocas, Ney Matogrosso dá a receita que o mantém em forma, física e artisticamente
RIO - Usando de uma parábola, ele se compara a uma onda no alto-mar, ainda bem longe da praia, sem pensar tão cedo na aposentadoria.
- Comecei a cantar aos 30 anos, e muita gente dizia que a minha voz não se sustentaria após os 40. Mas não só consigo atingir aquelas notas altas como hoje exploro outros registros e me sinto melhor como cantor - comenta Ney Matogrosso, sentado na ampla sala de seu apartamento, numa cobertura no Leblon, com abrangente visão do mar, da Lagoa e das montanhas que cercam a Zona Sul carioca.
Vinda do próprio, a positiva autocrítica pode ser suspeita, mas os últimos shows e discos têm confirmado isso com sobras. Assim como o recente "Beijo bandido", registro em CD e DVD do chique show homônimo, gravado em 31 de agosto passado no Teatro Municipal, com direção da dupla Felipe Nepomuceno e Renato Martins, que chega às lojas numa parceria da gravadora EMI com o Canal Brasil e terá nova temporada carioca, desta quinta-feira (às 21h30m) a sábado, agora no palco do Vivo Rio.
Sóbrio e elegante, graças ao figurino criado pelo amigo Ocimar Versolato que veste como uma luva o corpo enxuto - que em nada parece o de um senhor se encaminhando para os 70 anos, que completará em 1 de agosto -, os dois adjetivos também se aplicam ao conteúdo artístico. É uma formação instrumental camerística, servindo de cama para as interpretações algo dramáticas de Ney, passeando por um repertório conhecido e para lá de eclético - vai do elaborado tango de Astor Piazzolla com letra de Geraldo Carneiro ("As ilhas") à balada pop de Herbert Vianna e Paula Toller ("Nada por mim"); de um clássico com letra e música de Vinicius de Moraes ("Medo de amar") ao delicioso pop de Cazuza, Dé e Bebel Gilberto ("Mulher sem razão").
- Quando comecei a pensar nesse projeto, perguntei a Leandro (o tecladista, arranjador e diretor musical Leandro Braga) se podia ter um grupo apenas com teclado, violino, violoncelo e percussão. Ele me disse que sim, e assim passamos a trabalhar no repertório - explica Ney, não se preocupando com o fato de o CD de estúdio, lançado em 2009, trazer apenas uma faixa então inédita, "A cor de desejo", que ganhou dos seus autores, Junior Almeida e Ricardo Guima, durante a passagem da turnê anterior, "Inclassificáveis", por Maceió. - Sou um intérprete e não me restrinjo a canções novas. Gosto do desafio de dar a minha versão. E também há tanta música gravada que ficou esquecida...
Mesmo tendo o canto como sua primeira opção - "O que paga minhas contas é o show", revela, enquanto seu empresário, João Mario Linhares, completa, explicando que são os shows que mantêm, apenas com a receita da bilheteria, uma estrutura que envolve 22 pessoas, entre músicos, técnicos e auxiliares de palco, e dois caminhões carregados de equipamentos -, Ney também não se restringe à música. Premiado por sua atuação no curta-metragem "Depois de tudo" (2008, direção de Rafael Saar), voltou a mostrar a sua porção de ator em 2009, no filme "Luz nas trevas", de Helena Ignez, com roteiro de Rogério Sganzerla, continuação do clássico "O bandido da luz vermelha" (1968). O cinema é uma das vertentes que a "onda" vai explorar nos próximos anos, ao lado da direção teatral, após a boa receptividade ao seu trabalho no monólogo "Dentro da noite" - dois contos de João do Rio adaptados pelo ator Marcus Alvisi, que, dia 29 de janeiro, voltará aos palcos para uma segunda temporada carioca, agora de dois meses, no teatro da Casa de Cultura Laura Alvim.
- Farei novos filmes como ator, mas não pretendo atuar no teatro, que toma muito tempo. No cinema, tudo vai depender do convite, do projeto e da minha agenda. Recentemente, um diretor me ofereceu um papel, e eu disse que não queria fazer um outro filme gay. Ao ler o roteiro, vi que era mais um papel de homossexual e recusei - conta.
Não há preconceito algum nessa recusa. Apenas o fato de não querer ficar marcado como ator de um tipo só. Afinal, desde a estreia na música, em 1973, como o andrógino cantor de voz fina dos Secos & Molhados, sua sexualidade muito além dos padrões vigentes ficou clara. E, surpreendentemente para uma sociedade repressora como a do Brasil em plena ditadura, virou sucesso da noite para o dia, encantando de crianças a idosos. Num dos extras do DVD, a entrevista na qual se define como uma onda, Ney também diz que, "no palco, não tem essa coisa de ser homem ou mulher", é "um ser humano se exibindo". Mas, no cotidiano, procura passar desapercebido: "Prefiro observar do que ser observado." Nem sempre consegue, é claro.
- Ando na rua e sou muito bem aceito, adorado pelas pessoas, que vêm falar, pedem autógrafo, querem tirar fotos - diz, no que poderia soar como um desmentido do que pensa sobre a nossa sociedade. - O Brasil se diz liberal mas é preconceituoso. Seria muito melhor, muito mais fácil de se viver se as pessoas admitissem que tomaram algum tipo de droga ou já mantiveram uma relação homossexual. Mas aqui é tudo por baixo dos panos.
Sim, aos olhos desse Brasil ainda cheio de preconceitos, artistas como Ney Matogrosso são aceitos mais facilmente, independentemente de suas opções e experiências. Ele não acredita em pecado, seja por cima ou por baixo dos panos, não aceita imposições, sejam da Igreja ou da sociedade, e insiste, após a insistência do repórter no tema, de que o mundo está "mais careta do que já foi".
- Fui batizado como católico, só que meus pais eram espíritas e nunca frequentei a igreja. Mas li teosofia por 20 anos e tenho interesse em saber de todos os lados. Deus não está lá, e sim aqui, em nós. Não necessitamos de atravessadores para Deus, e é exatamente isso que as igrejas não admitem - diz, também mantendo um distanciamento crítico do Brasil. - Melhoramos em algumas coisas mas não é o suficiente. Não aturo uma coisa paternalista como a Bolsa Família, que é usada como manipulação eleitoreira. E quando vejo o Congresso aumentar seus salários, tenho vergonha do Brasil. Temos é que dar condições para as pessoas caminharem por conta própria, investindo para valer na educação, tanto que já está faltando mão de obra especializada, e na saúde.
O que nos leva de volta ao começo da conversa, a ótima forma física (e mental, e artística...) da "onda" de 69 anos muito bem vividos. Em parte, graças ao seu metabolismo, ao seu biótipo, ele nunca lutou contra a balança, mas que está sempre ao seu lado.
- Assim que acordo, ainda sonado, após fazer xixi, subo na balança. Se estiver acima de meu peso, como um pouquinho menos nas refeições; se estiver abaixo, como um pouco mais. Mas sempre comi muito pouco, e de tudo, sem restrições. Doces, por exemplo, uma colher é suficiente para mim - dá a receita Ney, que só passou a malhar após os 56 anos. - Eu tinha preconceito, achava uma coisa de americano, deixando todos com um corpo padrão. Mas, vencida essa resistência, agora tenho feito exercícios de segunda a quinta, e percebo o quanto isso me faz bem. Não é uma coisa de vaidade, é pelo controle da saúde.
Fonte: O Globo
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