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Revista TPM - Trip para Mulher
Milly Lacombe
Sem Vergonha
O pequeno elevador me leva à
cobertura de um prédio no Leblon. A viagem é lenta,
mais de 14 andares. Quando me vê apertar o botão
com a letra C, o morador do 7º andar puxa papo: “Vai
para o céu, onde há sauna, vista pro mar e espreguiçadeira?”.
Respondo que sim, e ele emenda: “Um dia a gente chega lá”.
Suspiro esperançosa. Lá é a casa de Ney Matogrosso.
A viagem de Ney até a cobertura de sua vida também
foi lenta. Filho de militar e dona de casa, segundo de cinco irmãos,
já foi cadete da Aeronáutica, vendeu artesanato
na rua e trabalhou sete anos num hospital em Brasília antes
de rebolar como o Matogrosso que lhe deu fama. Fama que veio tarde,
aos 31 anos, quando estreou como vocalista do mitológico
Secos & Molhados, em 1972. Tão tarde que contrariou
uma das máximas do produtor musical Liminha – pai
do Barão Vermelho e Titãs –, aquela que diz
que, se o cara não estoura lá pelos 25 anos, não
tem chance na música pop.
Dostoievski
Sou recebida no hall pelo próprio Ney e logo fica evidente
que ele é o oposto de sua persona artística: pequeno,
cara lavada, jeans e uma timidez desconcertante. Sem graça,
recuso o copo de água que ele oferece, embora estivesse
morrendo de sede. Logo aparecem um gato e um cachorro para nos
fazer companhia. Ney adora animais e vive rodeado deles –
e só deles – na cobertura enorme. É que ele
não acredita em casamento. Prefere casas separadas, “mas
não muito distantes”, para manter o mistério
entre as duas partes e poder ler na cama sem ser interrompido.
Essas não são suas únicas crenças.
Em sua cartilha não há nada que seja feio, vergonhoso,
que não valha ser experimentado. É por isso que,
apesar da timidez, fala naturalmente sobre a descoberta da homossexualidade,
sobre usar o corpo para quebrar tabus, sobre provocar igualmente
a libido de homens e mulheres, sobre o relacionamento com Cazuza.
Segundo Dostoievski, algumas coisas só devem ser contadas
aos amigos. Outras, nem a eles. Outras ainda, nem a si mesmo.
Ignorando o escritor russo, Ney não esconde nada, inunda
todos os tópicos e, com palavras, mata minha sede.
Tpm Você gostava de cantar desde pequeno?
Ney Matogrosso Só comecei a cantar no ginásio. Foi
nessa época também que tive contato com teatro,
mas tinha que fazer escondido porque meu pai não podia
nem sonhar. Eu desenhava muito bem e falei que queria estudar
desenho, mas ele proibiu, disse que não teria filho artista
de jeito nenhum. Aí eu contrariava fazendo teatro escondido.
Minha mãe sabia, meus irmãos sabiam, meu pai não.
Seu pai era militar, durão. Como foi crescer assim?
Foi uma relação conturbada, a gente chegou a sair
na porrada. Ele me deu, eu dei nele, e ele me mandou sair de casa.
Eu tinha 16 anos, mas voltei rápido. Em seguida, me alistei
na Aeronáutica e pedi para servir no Rio de propósito
para ficar longe da minha família. Eu era uma criança
diferente, sabia disso mesmo pequeno. Eu não tinha a inocência
das crianças, entendia tudo do mundo adulto, as conversas
paralelas. Muito cedo saquei que a referência era sempre
sexo e entendi que todos achavam que aquilo era nojento, mas todos
faziam.
Como foi esse período na Aeronáutica?
Muito interessante, fiquei lá dois anos, de 57 a 59. Trabalhava
num departamento que cuidava da manutenção dos aviões.
Depois, fui parar na polícia da Aeronáutica, andava
com pistola, cinturão, capacete. Eu tinha 17 anos, mas
era bobo. E tive de conviver com outros adolescentes que eram
fogo na roupa. Precisei aprender a marcar meu território.
Como funciona isso de marcar território?
É uma questão de masculinidade, de você ser
testado a toda hora. Seu espaço é invadido, e você
tem que reagir para mostrar aos outros quem você é.
Algumas vezes tive que brigar. Saía na porrada quando questionavam
minha sexualidade, não admitia brincadeira. Eu ainda não
tinha assumido [a homossexualidade], mas pensava assim: mesmo
se eu fosse [gay], não admitiria aquelas brincadeiras.
Foi lá que você viu dois homens juntos pela primeira
vez?
Vi dois remadores enormes fazendo amor. Mas o que eu vi não
me chocou. Havia uma coisa bonita que pairava sobre eles. Eu não
sabia que podia existir um sentimento tão forte entre homens.
No Mato Grosso, já tinha conhecido um cara assim [gay],
mas ele era um estereótipo.
Como foi sua primeira vez com um homem?
Foi aos 21, dois anos depois de sair da Aeronáutica. Fui
morar em Brasília e conheci uma criatura por quem me apaixonei.
E não precisei mover um dedo para acontecer. Aí,
quando aconteceu, eu pensei: “Ah, era isso? Se eu soubesse
que era isso, tinha feito antes” [risos].
Como você foi parar em Brasília?
Depois que saí da Aeronáutica, fiquei entre Rio
e São Paulo por uns dois anos, vendendo artesanato. Até
que, em 61, um primo que era médico em Brasília
me ofereceu trabalho na cidade, recém-inaugurada. O hospital
precisava de gente, e lá não tinha mão-de-obra.
Fiquei lá sete anos, fui pro Rio vender artesanato, voltei
para Brasília e só saí de lá para
fazer o Secos & Molhados.
Como um laboratorista virou cantor do Secos & Molhados?
Em 69, tinha pedido mais uma licença do hospital em Brasília
e estava no Rio quando uma amiga falou que conhecia dois caras
que precisavam de um vocal. Eu gostava de cantar e já tinha
feito teatro infantil. Essa minha amiga, a Luli, conhecia o João
Ricardo [integrante dos Secos & Molhados]. Ele queria relançar
um conjunto que tinha tido, mas que não deu certo. E estava
atrás de um homem que conseguisse cantar uma oitava acima
deles. A Luli disse: “Eu conheço um cara para vocês”.
O Secos & Molhados lotou teatros, virou fenômeno. Isso
te surpreendeu?
Sempre fui muito recatado, mas descobri que, com aquela maquiagem,
liberava um lado meu mais agressivo, contestador. O Brasil era
um país careta, submetido a uma ditadura militar agressiva.
Claro que fiquei surpreso com a repercussão. Eu sabia que
estava provocando. Volta e meia recebia ameaças. Cheguei
a receber informações, antes de subir no palco,
de que seria assassinado naquela noite. Queriam que eu entrasse
em carros que nunca entrei. Uns carros que apareciam para me apanhar
na saída do teatro. Diziam que era para me proteger.
Você tinha a atitude da Madonna em plena ditadura dos anos
70...
Pois é. Tudo que a Madonna fez, eu fazia antes. Na ditadura.
De pau de fora. Se era proibido, eu queria. Hoje, não tenho
o menor interesse nisso. Naquela época tinha um motivo,
fazia para desacatar as autoridades. Minha arma era essa, eu lutava
com a libido. O que eu fazia era para chocar e para questionar.
Quem disse que homem não pode rebolar, ser sensual, provocar?
Eu já entrava no palco com tanta raiva que não havia
espaço para me agredirem.
Quando viu que precisava agir assim?
Com o Secos & Molhados, bem no início, em São
Paulo. Estava cantando “Rosa de Hiroshima”, e a platéia
começou a fazer um coro: “Veado, veado”. Eu
parei de cantar e esperei um tempo. O coro só aumentava.
Então fiz uma pose bem linda e esperei um pouco mais. Nada.
Foram uns 15 minutos e eu lá, parado, ouvindo milhares
de pessoas me chamarem de veado. Aí peguei o microfone
e gritei: “Vão tomar no cu”. Houve um silêncio,
e eles começaram a aplaudir. Entendi ali que não
podia ter medo deles.
Você saiu ileso dos anos 70 e 80 apesar das drogas e da
Aids. Rolou alguma culpa por ter feito tudo o que os outros fizeram
e sobreviver?
Não. Nunca achei sexo feio, pecaminoso nem nojento. Nunca
achei que as coisas que eu fazia mereciam castigo. Acho que sou
um ser humano que está aqui para experimentar. Dentro desse
conceito, nada é feio, nada é errado. Minha ética
é muito rigorosa, mas não é imposta pelo
mundo. É imposta por mim. Obviamente fui exposto ao vírus
[da Aids]. Mas vou contar uma coisa estranha que aconteceu comigo.
Na década de 70, eu vivia na esbórnia total. Mas
chegou 79 e alguma coisa dentro de mim falou: “Recolha-se”.
E eu me recolhi.
O que você acha dessa história de provocar a libido
até em senhoras de 70 anos?
Todo mundo tem libido, mas muita gente reprime isso. Uma vez,
na rua, uma senhora me disse que achava que estava morta até
me ver num show. Acho bom poder chegar nas pessoas numa parte
delas que é tão problemática. E espero que
elas façam muito bom uso disso.
Você está com 60 anos. É difícil envelhecer?
Na verdade, tenho 62. Mas não me sinto velho. Claro que
não tenho o mesmo físico de antes. Mas também
não sinto falta do passado. Quando fiz 60, tive uma insegurança
absurda, achei que tinha de mudar a minha forma de ser para ficar
compatível com a idade. Mas o tempo passou, e eu vi que
continuava sendo a mesma pessoa. Claro que, num determinado momento,
meu físico vai estar tão transformado que eu vou
ter que começar a... nem eu sei o que vou ter que fazer.
Você está gravando com muita gente nova, como o Pedro
Luís [do grupo carioca Pedro Luís e a Parede]. De
onde vem essa antena?
A minha atitude diante da vida é de abertura. Sou uma pessoa
que não tem nada preestabelecido, predeterminado. Sou a
própria “Metamorfose Ambulante” do Raul [Seixas].
Eu não quero ter opinião formada a respeito de nada,
eu quero estar aberto, até para mudar de opinião.
As pessoas se gabam de ter personalidade forte, de não
mudar de opinião. Acho isso uma bobagem.
Você também cantou Barão Vermelho antes do
sucesso, não foi?
É que eu já conhecia o Cazuza [Ney e Cazuza foram
namorados antes de ele entrar para o Barão Vermelho].
A Lucinha Araújo [mãe de Cazuza] contou que, quando
ele estava muito mal, você era uma das únicas pessoas
que passavam lá para visitar. Era muito difícil
ver uma pessoa de quem você gostava tanto sofrer com a Aids?
Não era só o Cazuza, isso estava acontecendo com
outros amigos meus. Claro que ele sempre foi especial na minha
vida. Mesmo depois de a gente ter se separado, continuamos próximos.
Uma semana depois do rompimento, a gente já estava saindo
que nem loucos aqui pelo Baixo Leblon, de mãos dadas.
Qual foi a importância do Cazuza na sua vida?
Ele me resolveu afetivamente. Antes, tinha pavor de relacionamentos.
Se eu conhecesse uma pessoa e percebesse qualquer intenção
de um relacionamento mais profundo, cortava imediatamente. Com
o Cazuza, vi que era possível exercitar uma coisa mais
afetuosa, mais amorosa. Não era só amor sexual.
Até na hora da morte ele fez isso: me envolveu.
O que você gostaria de ver escrito em sua lápide
quando for embora?
Aqui jaz uma pessoa que ousou ser de verdade.
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