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Ney Matogrosso resgata estilo e figurinos provocativos como nos tempos dos Secos & Molhados
Ricardo Calazans - O Dia
Rio - Observe com atenção a foto ao lado. À primeira vista, Ney Matogrosso está seminu como nas épocas explicitamente provocativas de ‘Pecado’ (1977) ou ‘Matogrosso’ (1982). “Mas estou mais vestido do que nunca!”, finge espanto o cantor, que estréia amanhã, no Canecão, a turnê carioca de seu novo show, ‘Inclassificáveis’, que vai virar DVD ao vivo e terá versão em CD, gravado em estúdio, lançado até março.
Como a segunda pele criada por Ocimar Versolato para vestir o artista, o título do espetáculo também vai além do que aparenta. “Ia se chamar ‘Um Pouco de Calor’. Mas ‘Inclassificáveis’ é mais preciso”, explica. Ou confunde? “Esclarece”, diz Ney. “Fala de nós, brasileiros. ‘Aqui somos mestiços mulatos cafuzos pardos mamelucos sararás...’”, conta, recitando a música de Arnaldo Antunes que batiza a turnê.
O show, que não é de rock mas tem energia roqueira, mistura músicas famosas de Chico Buarque, Los Hermanos e Barão Vermelho e apresenta nomes como Alzira Espíndola, Alice Ruiz e Dan Nakagawa. Começa com ‘O Tempo Não Pára’, de Cazuza, ironia para quem vê Ney em plena forma, aos 66 anos. “Ninguém mais, nessa idade, precisa ser um velhinho de pijama se arrastando pela casa. É possível para todo mundo estar atuante, vivo, vivaz, ágil aos 66 anos. Basta que queira.”
Por sua própria conta, Ney Matogrosso quer se expressar de maneira livre, constante em seus 35 anos de carreira. “Mas minha necessidade de expressão é artística. Não é isso aqui”, diz, apontando o gravador que registra suas declarações. “Minha meta não é ficar fazendo discurso nem convencer ninguém de nada.” Por isso, ele não engole a cultura de celebridades que vê à sua volta. “Só quero aparecer quando tenho trabalho sendo realizado. Acho uma babaquice essa exposição superficial”, afirma.
Morador do Leblon, Ney se orgulha de não ser alvo de paparazzi. “Dizem que as celebridades passeiam no Leblon e são fotografadas. Eu moro aqui, ando por todo lado e ninguém me fotografa. Mas sabe o que me recomendaram? ‘Você tem que avisar que vai à rua’. E eu não sabia disso!”, ri.
Em cena, porém, Ney não só aparece como deixa sua platéia desconcertada. Os figurinos “faiscantes” de Ocimar e os cenários “ciclópicos” do carnavalesco Milton Cunha ajudam a compor o clima provocativo do espetáculo. “Já peguei com esse show duas platéias que ficaram de boca aberta. Ficaram chocados com o figurino, o repertório, o cenário. A minha roupa faísca da cabeça ao pé. E, não satisfeito, vou lá na cara deles provocar. Sabe em que música? ‘Por Que a Gente É Assim’”, ri, mais ainda.
A banda que o acompanha é dirigida pelo pianista Emilio Carrera, uma redescoberta do passado — eram deles os teclados dos Secos & Molhados. “Mas não falamos muito dessa época. Não quero parar para olhar para trás. Ainda estou fazendo.”
CENÁRIO DESPENCA
O cenário de Milton Cunha é um dos destaques do show de Ney, que fica em cartaz no Canecão durante duas semanas. “Ele queria estar envolto por tecidos nobres, estranhos, que as pessoas não pudessem comprar na esquina”, brinca o carnavalesco da São Clemente e colunista de O DIA.
São quatro cenários, de 8m x 14m, formados por tecidos com aplicações de flores, drapeados ou pinturas à mão. Entre um set e outro do espetáculo, eles “desabam” em momentos de grande impacto visual. Um divã e uma coluna pintada com motivos do Kuarup completam o cenário. “Ney pensa global, sabe o que quer. É um diretor cênico brilhante.”
Fonte: O Dia
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