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Stripper da vida
Clarice Muniz - Revista Contigo
Em agosto, ele completa 67 anos - sem plásticas e tão provocativo no palco como quando começou, nos anos 70. Quer o elixir da juventude? ''Não sou submisso a absolutamente nada'', decreta
Uma tarde de sol toma conta do Rio de Janeiro e invade o 2° andar da cobertura de Ney Matogrosso, no Leblon. O cantor, que está em turnê com o show Inclassificáveis pelo país, aproveita a folga para retomar sua rotina carioca e curtir seus gatos de estimação. Pela manhã, ele se dedica à malhação - uma hora e meia de prazer e alguma dor depois. A aula hoje foi pesada, mas prefiro essa dor do que a que sinto pela falta de malhação, diz. Observando-o de perto, 66 anos (ele completa 67 em 1o de agosto), dá vontade de correr para a malhação. O corpo é de um rapaz de 30. E, no rosto, nenhum sinal de plástica. Há 35 anos, Ney de Souza Pereira (Matogrosso vem por causa do estado de nascimento, na pequena Bela Vista, quase Paraguai) é um furacão no palco. É certo, já teve seus momentos de calmaria. Mas o que faz os fãs delirarem é quando ele exibe todo o vigor físico e a voz deliciosa, como nesta turnê. Aqui, ele fala sobre juventude (e velhice), fama (e não estar nem aí para ela), dores (inclusive a dos amigos perdidos) e o fato de nunca ter levantado (conscientemente) a bandeira do homossexualismo.
Aos 66 anos, você brinca com a libido durante seu show, quebrando o preconceito de que, nessa idade, a sexualidade deixa de ter importância na vida das pessoas.
Se estou mostrando isso no palco, é porque existe em mim. Não estou inventando algo que não existe, senão seria evidente e as pessoas já teriam visto em um primeiro momento. Posso desfrutar disso, tenho energia, fôlego e um físico que ainda suporta. Então, estou dando prova de que é possível. Ninguém precisa se entregar porque chegou aos 60.
Bem, posso dizer que você é bem resolvido com o espelho.
Acredito que sim. Mas não me acho essa beldade, não. Em termos físicos, eu tenho ângulos que me favorecem. E é isso. Nunca me achei uma pessoa muito bonita, mas nunca me achei desprezível (risos).
Mas, para se manter assim, tem uma rotina de malhação...
Quando viajo não malho, mas faço uma hora e meia de aeróbica diariamente. Em casa, tenho um personal que me orienta. Sinto necessidade de fazer musculação, alongamento, bicicleta... É para me manter apenas. Eu nunca mudei, nunca fiquei fortão, a intenção não é essa.
Em algum momento viveu conflitos por causa da idade?
Beirando os 60 eu tive um certo distúrbio. Fiquei meio sem entender como eu teria de ser, se eu teria de mudar o jeito de me vestir. Quando fiz 60, percebi que estava tudo igual, que não havia mudado nada, e a vida seguia. Está tudo certo.
Então, é um homem bem resolvido?
Eu sei que estou envelhecendo, que meu físico vai mudar e, inevitavelmente, também meu rosto, minha pele e meu cabelo. Mas isso é o de menos. Faz parte do processo da vida. Eu não vou ficar me puxando, me cortando, nem tirando nem pondo. Não sou contra nada, sou completamente liberal para tudo o que existe na vida. Só acho que tem um limite. Quando eu vejo as pessoas que parecem múmias, todas repuxadas, acho estranho, feio e antiestético. Prefiro uma cara envelhecida dignamente.
Qual é a reação do público diante do strip-tease no palco?
Não é um strip-tease mesmo, é uma insinuação. A platéia é receptiva e entende o contexto. Eles adoram o strip-tease e eu também. Gosto de provocar, me divirto. Não é a primeira vez que faço, já fiz (outros) radicais mesmo.
A extravagância do figurino deste show e sua performance no palco têm alguma inspiração no Secos & Molhados (grupo do qual Ney fez parte no início dos anos 70)?
Não tem comparação, não fiz nada pensando no Secos & Molhados. O som da banda é muito mais pesado do que era no S&M. Não estou evocando nada. A imagem é minha desde o começo, me pertence, pois quem levou aquilo fui eu e eu a uso na hora em que eu quero. Isso é meu e ninguém me tira.
Você aceita bem as críticas?
Não tenho medo de críticas, desde que sejam justas. Há pessoas tendenciosas. Sei de gente que falou mal deste trabalho porque me acha arrogante. Só porque não sou promíscuo com a imprensa. Não acho que eu deva ser. Sou educado.
Sua relação com a fama sempre foi tranqüila?
Eu nunca me iludi com a fama, nunca acreditei que ela pudesse me transformar numa pessoa mais importante que as outras. Felizmente, isso tudo aconteceu quando eu já tinha 31 anos e já havia passado por muita coisa na vida. Tinha saído de casa aos 17 anos para viver sozinho, e tinha critérios. Não deixei subir à cabeça, porque eu achava que aquilo era transitório. E é. Não dá para levar sucesso a sério se a própria vida é um instante. É bom, porque me permite expor meus pensamentos, mas não trago isso para minha casa, não durmo nem convivo com isso.
Chegou a se deslumbrar com o sucesso?
Nunca me desviei. Tanto que fiz aquela máscara na época do Secos & Molhados para me proteger. Foi intencionalmente. Eu ouvia dizer que artistas não tinham vida particular. Como assim? Eu não ia poder mais andar na rua? Então, fiz aquela máscara para proteger a minha identidade. Funcionou por muito tempo. Eu ia à praia e ficava ouvindo comentários sobre aquele homem que se requebrava todo no palco . E eu ao lado das pessoas, só escutando (risos).
Com o Secos & Molhados você contestou o machismo e os bons comportamentos defendidos pela ditadura militar. Passados mais de 30 anos, você considera o Brasil de hoje careta?
Acho que houve uma regressão depois da aids, porque caminhávamos para uma abertura de pensamento muito interessante. Os Estados Unidos conseguiram convencer o mundo disso. Eu alerto apenas para uma coisa: liberdades adquiridas não podem ser esquecidas. Elas não foram cedidas ou doadas, não podemos abrir mão delas. É isso que mostro para as pessoas. Continuo com total liberdade de expressão, de criação e de pensamento.
Como define sua personalidade?
Sou bem-humorado, tranqüilo, da paz. Não gosto de briga nem de confusão. Gosto de viver em harmonia com o mundo e com as pessoas, embora eu seja contestador. Não sou um adormecido. Estou consciente e vendo as coisas. Quando preciso me manifestar, me manifesto em cima daquilo que me incomoda. Não sou submisso a absolutamente nada. Nada nunca me submeteu. Nem as drogas.
Como é sua relação com as drogas?
Experimentei todas, mas elas nunca me controlaram. Nunca fui dependente ou viciado em nada. Nunca perdi o controle da situação. Essa relação eu nunca tive com droga alguma que possa ter experimentado. Usei, mas nunca fui usado por elas.
Você perdeu muitos amigos, vítimas da aids, entre as décadas e 80 e 90. Ainda sofre a falta deles?
Penso neles com amor. Não significa que, porque foram embora, algo se esgotou. O que eu sentia por eles eu ainda sinto, mas não vivo lá atrás. Aquilo ali foi absolutamente vivenciado e quando acabou, acabou. Não sei se dava tempo de refletir muito sobre aquilo, porque eram tantos acontecimentos próximos e constantes. Teve uma semana em que eu fui três vezes ao cemitério enterrar três grandes amigos. Na época, fiquei muito abalado, muito perturbado, sem chão, sem reflexo. É como se eu tivesse perdido os espelhos da minha vida.
Depois de ter vivenciado tudo isso, hoje lida bem com a morte?
Mas eu lidei muito bem com a morte na época, eu tinha aceitação plena. Não havia o que fazer a não ser aceitar. Não adiantava revolta, não resolveria nada. A única coisa que eu poderia e que eu pude fazer foi aceitar. É um exercício doloroso, mas é o único possível.
Acredita que, hoje, as pessoas estão mais esclarecidas em relação a aids?
Não, acho que elas ignoram (a doença). Os adolescentes estão se contaminando, então isso significa que não estão usando camisinha. Acham que é uma doença que tem tratamento. Eu acho uma estupidez. Se você pode viver com saúde, porque viver com uma doença que poderia ter evitado se usasse camisinha?
Quais são os seus maiores prazeres?
Não sou da noite, não sou de boate, não sou de festa. Não gosto. O meu maior prazer é estar em contato com a natureza. Há muitos lugares que ainda quero conhecer. Já fui à Chapada dos Guimarães, no Pantanal, e à Chapada dos Veadeiros. Quero conhecer os Lençóis Maranhenses e Fernando de Noronha. Gosto disso, não gosto de Nova York. Eu preciso do contato com a natureza.
Você nunca levantou bandeira do homossexualismo, como alguns artistas, contra o preconceito. Por quê?
Eu quero ter liberdade de expressão. Se eu tivesse feito isso lá atrás, seria muito conveniente para o sistema organizado me rotular como um estandarte gay. Aí eu estaria entendido e explicado para eles. Eu não sou só isso. Tenho muitas outras coisas que me interessam e eu quero opinar sobre todas elas. Se as pessoas se sentem mais fortes participando de um movimento e se assumindo, tudo bem, participem, falem e se manifestem. Eu não tenho esse princípio dentro de mim, de sair com um estandarte. Não quero mesmo. Pelo contrário, eu quero ter todos os estandartes, não quero só um.
Fonte: Clarice Muniz - Revista Contigo
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