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imprensa

25/06/2012

Revista da Cultura
Guilherme Bryan

Bandido das Luzes

Muitas foram as tentativas – boa parte delas em vão – de definir Ney Matogrosso. A mais comum foi chamá-lo de camaleão, palavra utilizada, inclusive, como título de um box, de 2008, com 17 CDs, incluindo álbuns originais lançados entre os anos de 1975 e 1991. Mas camaleão, por mais abrangente que a metáfora permita, não dá conta de todas as personas vividas pelo cantor sul mato-grossense: viajante, feiticeiro, aventureiro, bandido...

Atualmente, ele se prepara para lançar o 31º álbum da carreira. Dessa vez, depois de dar voz a diversos gêneros musicais e consagrados compositores, ele interpretará canções de novos artistas, caso de Dani Black, Luis Capucho, Tono e Vitor Pirralho. Mas, obviamente, composições de Chico Buarque e Lenine não ficarão de fora.

Com 70 anos, completados em agosto de 2011, Ney pode ser visto atualmente também nos cinemas, interpretando seu primeiro protagonista no filme Luz nas trevas, a volta do Bandido da Luz Vermelha. O longa, dirigido por Helena Ignez com codireção de Ícaro Martins, é a "continuação" do clássico do cinema marginal escrito e dirigido por Rogério Sganzerla (1946-2004), em 1968. Nesse retorno, Luz Vermelha é um homem reflexivo, ainda na prisão à espera da liberdade, dedicado a ler grandes filósofos e cuidar narcisicamente do físico. Algo um pouco distante da realidade do cantor, que, apesar de malhar todos os dias, não gosta da vaidade excessiva nem busca um corpo fortificado.

Com o olhar limpo e aberto, o mesmo que testemunhou – e vivenciou – a contracultura dos anos 1960 e 1970, a repressão militar, o surgimento da Aids – que dele levou muitos amigos e amores – e a experimentação das drogas, Ney Matogrosso fala nesta entrevista sobre o quanto a liberdade continua a ser o ponto primordial de sua vida e a necessidade de estar sempre produzindo. Conta ainda sobre como a caretice tomou conta do mundo contemporâneo e sobre o sofrimento que, em seu ponto de vista, ainda é necessário para a evolução.

Como você analisa a figura do Bandido da Luz Vermelha em pleno 2012?
O meu e alguns outros personagens de Luz nas trevas são muito críticos. É um deboche em cima da política e do pensamento da polícia. Ou seja, o filme reflete uma crítica que ainda é compatível com o Brasil de agora. Temos que lembrar que o Sganzerla escreveu esse roteiro em 2003. Então, já estávamos situados nesse presente. Em 1968, O Bandido da Luz Vermelha era um filme muito popular. Mas a mentalidade do brasileiro era outra. Havia mais informação e as pessoas eram mais preparadas. Há uma decadência do sistema educacional. Generalizando, as pessoas saem da escola achando que sabem ler, mas não entendem o que estão lendo.

A polícia mencionada por você está muito presente tanto no filme de 1968 quanto neste, dirigido por Helena Ignez. Como você vê a realidade da segurança pública no Rio de Janeiro com as Unidades da Polícia Pacificadora (UPPs)?
Você está falando em UPPs como se tivesse resolvido o problema, mas não resolveu. Nós estamos vendo que elas estão agindo exatamente igual às milícias em alguns lugares.

"O princípio fundamental de tudo é manter a mente aberta. Não fico fechado dentro da minha casa, relembrando meu passado. Tenho que ir daqui para a frente. Entendo que estou na mesma canoa furada de todos nós. Tenho consciência disso, mas estou aqui"

Esses são todos assuntos políticos. O quanto isso te interessa?
Política não me interessa como objetivo de vida, mas entendo que o fato de me expressar com liberdade é uma atitude política.

E há algo que essa liberdade te trouxe de pior?
Não me trouxe de pior. Só de melhor. Trouxe uma independência artística que me permite fazer só o que quero. Não tenho que submeter meu trabalho a ninguém e a nada. Sou independente mesmo, na criação e quando vou para um palco.

De qualquer modo, a caretice voltou a tomar conta da sociedade contemporânea?
De modo geral, o Brasil hoje é mais careta do que naquela época [anos 1970]. Embora vivêssemos sob uma ditadura, existia um anseio. Atualmente, o anseio é vazado pela internet. Naquela década, você botava 100 mil pessoas na rua para reclamar. Nos tempos atuais, é muito difícil. No cinema, a impressão que me dá é que ele é feito no Brasil para grandes circuitos e as pessoas não podem se dar ao luxo de experimentar. Vão apenas atrás do formato que sabem que dará certo.

No seu próximo álbum, você gravará vários compositores novos, como Dani Black e Capucho. Qual conceito ele terá?
Talvez estranhem o tipo de coisa que cantarei, porque estou expressando um pensamento que vem com o frescor de gente muito jovem. Mas claro que não é só isso. Eu misturo com pessoas consagradas, como Chico Buarque e Lenine. Ainda não comecei nem a ensaiar, pois farei primeiro o show com esse repertório e só depois irei ao estúdio.

E o fato de você lançar sempre novos cantores e ajudar pessoas com projetos novos todo o tempo é sinal de rejuvenescimento da sua própria obra?
Acho que sim, mas está relacionado a manter a mente aberta e a achar que meu tempo é agora. Estou aqui na mesma canoa de todo mundo e procuro estar sintonizado ao pensamento vigente no momento.

Mas o rock continua a ser o gênero com o qual você esteve mais ligado.
Não faço isso premeditadamente, mas porque me interessa. Surgi numa banda de rock. Gosto disso, e sempre que possível, estarei próximo.

Mês passado, por exemplo, você assinou a direção de luz do novo show da Mart´nália. Essa e outras direções feitas por você ajudam a enriquecer seus próprios espetáculos?
Não sei se enriquecem meus espetáculos, mas acho que sim. Quando faço um trabalho desses, a minha visão é diferente, porque sou uma pessoa que também fica em cima do palco. Então, é diferente da visão do iluminador, que só ilumina. É outro enfoque.

Você acredita que, se os artistas que surgiram nos anos 1960 e 1970 começassem hoje, eles teriam a recepção que tiveram?
Acho que não. Exatamente por esse "encaretar". Secos & Molhados não sei se seria aceito como foi na época pela população, por problemas de preconceito, que hoje é muito mais explícito e presente.

E a existência de várias mídias facilita ou pulveriza demais a expressão artística?
Essa é a realidade e não adianta chiar. Gostar ou não gostar. É o desenrolar da história. Então, vamos conviver com isso. Se é um espaço para uma opinião mais generalizada, ótimo. Todos têm direito de se expressar, o que eu sempre defendi.

Mas o conceito musical não é colocado em risco?
Eu não penso em mídia alguma quando vou fazer algo. Penso em realizar um trabalho artístico, idealizado por mim, que me tocou e quero botar para fora. Não estou preocupado com qualquer mídia especificamente. Faço meu trabalho para ser liberado para todas elas. Sempre penso numa ideia e tento desenvolvê-la. Mas projetos conceituais na década de 1970 eram mais comuns. Muita gente tinha essa mentalidade de um trabalho mais conceitual, o que se perdeu.

E, junto com a tecnologia, veio a prática do download gratuito de álbuns de muitos artistas...
Houve um momento em que as gravadoras poderiam ter reagido e não reagiram. Agora é tarde. Estão querendo fazer leis. Vamos ver se conseguem, porque, claro, nós todos que criamos perdemos. Não somos remunerados pelo nosso trabalho.

Numa carreira que soma 40 anos, em algum momento te cansou cantar ou fazer shows?
Nunca me afastei, nem consegui me afastar. Gosto de cantar e de fazer show. Mas faço outras coisas paralelamente: atuo e dirijo shows e teatro.

Você também sempre foi muito transparente, dentro ou fora de cena. Há algum sentimento ou vontade que você se recusa a levar para o palco?
Depende da hora. Não sou uma pessoa que tem um estilo musical. Vou ao sabor das histórias que chegam e que ponho no meu trabalho. Sempre tenho uma ponta de crítica. Sou uma pessoa consciente, mas que não precisa estar apaixonada para fazer um disco romântico e não precisa sofrer uma injustiça para falar sobre ela em nosso país.

Como você lida com a exposição da sua imagem, como no livro fotográfico Ney Matogrosso – Ousar ser [de Bené Fonteles] e também no documentário Olho nu [de Joel Pizzini, em fase de finalização]? As fotos são tão lindas que não estão falando de mim, mas do fotógrafo. Aí fizemos uma homenagem a ele. Era um material vastíssimo, muito bom, que estava guardado e era uma pena ninguém conhecer. Quanto ao filme, é um documentário, e não a minha vida exatamente. Estou comentando sobre ela de maneira geral. Foi uma proposta do Canal Brasil que eu aceitei. Não partiria de mim. Não tenho essa necessidade. Mas, já que estamos fazendo, me envolvo e me dedico também.

Por outro lado, a exposição da vida particular dos famosos na mídia te irrita muito?
Está tudo muito vulgarizado. Não me interesso em saber quem casou, quem descasou, quem casou de novo, quem largou de quem, quem está com quem. Mas vejo que as pessoas têm enorme interesse por isso. Exatamente por causa dessas pessoas é que existe essa coisa de paparazzi. Algumas vezes, um paparazzo já me fotografou. Só que moro no Leblon, ando nas ruas daqui, vou a toda parte e não deixarei de fazer isso por causa deles.

Você prefere passar despercebido e fazer as coisas do dia a dia como qualquer pessoa.
Sim, sou uma pessoa normal, como qualquer outra. Não vivo para a mídia. O que ofereço para ela é o meu trabalho. A minha vida, não.

Algum trabalho do passado você, de repente, gostaria de dar nova roupagem?
Está tudo como tinha que ser feito. Naquele momento, eu era aquela pessoa que fez aquilo. Mas, na primeira caixa com meus CDs, tinha músicas que havia gravado gripado e quis regravar. A única faixa que excluí foi Telma eu não sou gay, porque era do disco do João Penca e seus Miquinhos Amestrados. Eu gravei para o disco deles. E sofri uma chantagem da gravadora (na época era a mesma), que disse que, se eu não pusesse no meu disco, eles retirariam o dos Miquinhos de circulação. Agora, tenho um documento da Universal afirmando que aquele material não pertence à minha obra, mas à do João Penca.

Aliás, as viradas de décadas de vida e celebrações da sua idade te incomodam?
Não me incomodam. Mas não fico esperando celebração de nada. O que tenho que celebrar faço na minha intimidade, com poucos amigos. Entendo que são idades muito emblemáticas e que surpreende o fato de eu estar chegando bem fisicamente a isso. Há uma geração inteira que está chegando muito bem a essa idade. Quer dizer, é mais um paradigma quebrado.

Por esse ângulo, como foi passar pela ditadura, pelo consumo alto de cocaína, perder amigos para a Aids e encarar a caretice?
Vivi todos esses momentos. Permiti muita coisa, inclusive um contato com todas as drogas disponíveis, que foi muito regular e próximo. Era um experimento que estava fazendo, as drogas eram a grande interrogação. Hoje, não me interessam mais. Então, em cada momento, estou experimentando coisas novas e diferentes. Agora, usei as drogas e não fui usado por elas.

"De modo geral, o Brasil hoje é mais careta do que naquela época (anos 70). Embora vivêssemos sob uma ditadura, existia um anseio. Atualmente, o anseio é vazado pela internet. Naquela década, você botava 100 mil pessoas na rua para reclamar. Nos tempos atuais, é muito difícil."

E você é a favor da descriminalização das drogas?
Sim. Se você descriminalizar e regulamentar, tira da mão da bandidagem. Mas isso não interessa. Não vamos ser ingênuos de achar que está nas mãos do morro. Tem outros interesses de gente que pode estar lá no Congresso. Então, não é por moralismo, mas por conveniência.

Você tem uma vida regrada com relação a alimentação e exercícios físicos, né?
Eu gosto. O meu personal me telefona, manda me acordar. Eu levanto, tomo o meu café, ele chega e nós fazemos 45 minutos de exercícios intensamente. Vamos variando os exercícios de segunda a quinta-feira. Quando deixo de fazer, sinto muita falta e começo a sentir dor.

Você acha que hoje existe um culto exagerado ao corpo?
Exagerado e as pessoas ficam todas parecidas. Fortes. Faço a minha ginástica desde 1996 para manter meu tônus muscular. Nunca virei um homem forte. A minha intenção é essa.

Apesar dos hábitos saudáveis, você se permite comer um doce?
Como, mas uma colher. Não preciso mais do que isso.

E de ir para a cozinha, você gosta?
Cozinho raramente, em momentos em que não há alternativa. Quando cozinho, gosto. Mas tenho uma cozinheira maravilhosa. Por que cozinhar?

Consegue apontar o que faz com que você se mantenha jovem?
O princípio fundamental é manter a mente aberta. Assim, você estará aberto para a vida e para o que possa acontecer. Não fico fechado dentro da minha casa, relembrando meu passado. Tenho que ir daqui para a frente. Entendo que estou na mesma canoa furada de todos nós, humanos. Tenho consciência disso, mas estou aqui.

Que canoa furada é essa?
Olhe para o mundo e para os acontecimentos, meu filho. A canoa está furada! Está tudo errado. O homem tomou um rumo errado. Teve chance de tomar um rumo mais equilibrado e mais harmonioso e não tomou. Ele optou pelo pior – pela guerra, pela ganância e pelo dinheiro. E o dinheiro é carregado de coisas muito negativas. Sem ser pessimista. É um processo natural, que passaremos, inevitavelmente, mas para evoluir. A evolução é a saída, mas não se evolui sem sofrimento.

E o que será do Ney daqui para a frente?
Não faço a menor ideia. O que vier eu traço (risos). ©

Fonte: Revista da Cultura