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O novo é ser velho
por Armando Antenore - Fotos Ana Ottoni - Revista Bravo

Aos 66 anos, Ney Matogrosso se rebela mais uma vez contra o senso comum e, numa turnê esfuziante, prova que a ¿terceira idade¿ pode, sim, rimar com sexo, atrevimento e festa

Quando vasculha o passado em busca da lembrança mais remota de si mesmo, Ney Matogrosso chega à década de 1940 e se depara com um menino de 3 anos sobre um jabuti gigante. Podia ser apenas uma das infi nitas peças que a memória costuma nos pregar. Mas não: o jabuti existia de verdade e vagava pelo quintal da casa que Ney dividia com a família em Salvador. Cercada de coqueiros, a residência fi cava no bairro de Amaralina, pertinho do mar. O garoto que nascera muito longe do litoral, em Bela Vista (MS), pequena cidade à beira do Paraguai morava por lá havia alguns meses. Sujeitava-se à sina andarilha do pai, um militar da Aeronáutica que, antes de aterrissar na Bahia, carregara a mulher e os fi lhos para o Recife.

Talvez o jabuti não merecesse a qualificação de gigante. Ostentava, de qualquer maneira, um tamanho razoável, já que Ney gostava de montá-lo. "Recordo-me bem da sensação", conta o artista em uma tarde nublada de março, a poucas horas de se apresentar no Citibank Hall de São Paulo. "Escalava o bicho cuidadosamente. Depois, sentava naquele casco imenso e cavalgava orgulhoso por meu reino."

Devia se julgar o próprio marajá num elefante. "Não, o passeio me soava mais como uma viagem de tapete mágico." Jabutis, no entanto, parecem destoar do cantor. Vagarosos, letárgicos, não combinam com a inquietude que sempre o caracterizou. "Tem certeza?", indaga de repente, quase distraído. "Será que os jabutis destoam mesmo de mim? Pense melhor. Eles não representam exclusivamente a lentidão. Sim- bolizam outras coisas: a longevidade, por exemplo. Duram à beça. Você nasce, você morre, e os jabutis continuam aqui..."

À noite, o comentário se enche de sentido. Mil e quinhentas pessoas lotam o Citibank Hall à espera de Inclassificáveis, espetáculo que percorre o país desde setembro de 2007, atraindo admiradores de diferentes gerações e aplausos da crítica. O show de 90 minutos sai em DVD no dia 12/5 e incorpora o repertório do disco homônimo, recém-lançado pela EMI. Mal ganha o palco, o intérprete de 66 anos demonstra que não está ali só para cantar. Também travará uma disputa com o tempo. Vai desafiá-lo, exatamente como os jabutis.

ALGAZARRA

A sonoridade de Inclassifi cáveis, pesada, selvagem, cortante, prioriza o pop rock e evidencia o talento de uma banda predominantemente jovem, liderada pelo diretor musical Emilio Carrera. Guitarra, baixo, violão, teclado, bateria, percussão e um DJ constroem a atmosfera ideal para a performance apoteótica do cantor. Desde Olhos de Farol, espetáculo de 1999, Ney não se agitava tanto em cena nem trajava um fi gurino tão extravagante, nem se comportava de modo tão atrevido. As alusões eróticas invadem cada um de seus movimentos e atingem o ápice quando, na metade da apresentação, deságuam em uma espécie de strip-tease. Sem disfarçar o deboche, o astro se dirige para um sofá cenográfico e, enquanto tira um apertadíssimo macacão dourado de tule elástico, vai revelando que, sob o primeiro, veste um outro, do mesmo tecido. A segunda roupa, igualmente justa, cor da pele e "tatuada" com pinturas corporais de índios amazônicos, dá a impressão de que Ney está nu. O artista logo põe um tapa-sexo metálico, cobre-se de adereços, vai à platéia e se deixa apalpar pelos fãs em êxtase. O hit Por que a Gente É Assim, de Cazuza, Frejat e Ezequiel Neves, pontua a algazarra.

Lindo! Gostoso! Delícia! Os gritos do público incendeiam o intérprete, que aguça os remelexos e sorri zombeteiro. Três ou quatro universitárias se atropelam para acariciá-lo. Uma senhora com xale de crochê as imita. Ao fundo, um cinqüentão ironiza: "Excelente, menino!". Todas as cidades por onde Inclassificáveis passou testemunharam reações similares. Em Florianópolis, um típico "pai de família" abandonou sua cadeira (e a compostura) para agarrar e beijar o ídolo. Em Juiz de Fora, quando o guitarrista Júnior Meirelles, de 33 anos, e o percussionista Felipe Roseno, de 25, se aproximaram um pouco mais do cantor no centro do palco, uma mulher brincou: "Dois, Ney?!?". E ele: "Pois é. Hoje estou no lucro".

Embora acompanhe o artista há quase uma década, o camareiro Marivaldo Santos, 45 anos, ainda se intriga diante de tamanhas estripulias. Não compreende como o patrão consegue se manter "careta" e, mesmo assim, "pintar o sete". "O homem não bebe nada em cena ou nos bastidores, só um energético. Eu precisaria de muito álcool..." O guitarrista Meirelles, que nunca tocara com o astro, também se espanta. "Vou confessar não conhecia direito a carreira dele. Pensava em Ney Matogrosso e imediatamente me recordava do Didi Mocó dublando Bandido Corazón no YouTube. Apegava-me à caricatura e pronto. Bastou vê-lo de perto para meu queixo despencar: 'Cacete, onde o sujeito arruma tanta disposição e coragem?'." Durante o show, o duelo de Ney com o tempo ocorre em duas frentes. Por um lado, o cantor se dedica à tarefa impossível de colocar-se acima do cronológico, de transcendê- lo. Por outro, segue trilha oposta: reconhece que o relógio de fato voa e que a sucessão dos dias o transformou num sexagenário (completa 67 anos em agosto).

Mas a constatação não significará nunca uma derrocada. A idéia de superação do tempo impera principalmente no começo de Inclassificáveis. É o momento em que o intérprete usa o macacão dourado, uma série de colares e um enfeite de cabeça com plumas coloridas de galo e reproduções de pedras brasileiras. O fi gurino, concebido pelo estilista Ocimar Versolato, oculta todo o corpo de Ney. Deixa à mostra somente o rosto, as mãos e os pés, que se conservam descalços. Ressalta, portanto, a silhueta invejável do artista, fruto de ginástica cotidiana: os músculos ainda fi rmes dos braços e das pernas, a magreza do abdômen, a rigidez das nádegas. Em contrapartida, esconde as rugas do pescoço, as manchas senis da pele, os cabelos ralos e grisalhos. Quem observa a inusitada criatura, que ora se assemelha a um super-herói, ora a um índio futurista, não consegue tachá-la de masculina ou feminina.

Tampouco é capaz de lhe defi nir a idade. O físico que, por força do traje apertado e dos acessórios, livra-se dos sinais de decadência impostos pelos anos sugere juventude. Já o olhar, seguro, e os gestos, precisos, denunciam maturidade. Ney evoca, desse modo, um ser mítico: sem gênero e atemporal. Não à toa, logo na segunda das 20 músicas do espetáculo (Mal Necessário), avisa: "Sou um homem, sou um bicho/ Sou uma mulher/ (...) Sou o novo, sou o antigo/ Sou o que não tem tempo". À medida que Inclassificáveis avança, porém, o cantor vai abandonando a premissa inicial, como se percebesse o estapafúrdio de pretender ultrapassar o cronológico. Ninguém dribla a impiedade das horas que teimam em correr, admite. Trata-se de uma batalha perdida. Entretanto, há que se fugir da melancolia.

Constatar a superioridade do inimigo não exige que rastejemos diante dele. "Viver ou morrer é o de menos/ A vida inteira pode ser qualquer momento/ Ser feliz ou não, questão de talento", proclama em Leve, a quarta atração da noite, assinada por Iara Rennó e Alice Ruiz. O astro prossegue com canções que trafegam pelo campo amoroso e chega, então, à nona e mais emblemática música do show. O título diz tudo: Lema. Parceria de Lokua Kanza com Carlos Rennó (pai de Iara), a composição explicita o recado que Ney esboçava até aquele instante: "Não vou lamentar/ A mudança que o tempo traz, não/ O que já fi cou pra trás/ O tempo a passar sem parar, jamais/ Já fui novo, sim/ De novo, não/ Ser novo pra mim é algo velho/ Quero crescer/ Quero viver o que é novo, sim/ O que eu quero assim/ É ser velho". No final do espetáculo, o artista exausto, mas ainda aguerrido dispara um último torpedo: "Atenção para o refrão/ É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte", berra em Divino Maravilhoso, de Caetano e Gil. O letrista Carlos Rennó lembra que escreveu os versos de Lema após uma conversa com o próprio Ney. "Fiz 52 anos e ando refletindo bastante a respeito da velhice. Não a considero uma tragédia. Creio realmente na possibilidade de envelhecer sem perder o vigor criativo ou abdicar das experiências sensuais. Por isso, desejava redigir uma letra que abordasse o tema de maneira otimista. Em geral, as canções populares o encaram sob um prisma muito negativo. Certa ocasião, batendo papo com o Ney, descobri que cultivamos opiniões parecidas sobre o assunto. E concluí, antes mesmo de Lema nascer, que não encontraria ninguém melhor para interpretá-la."


Ô, ZÉ!

"Inventou? Agora agüenta..." No espelho de um hotel em Juiz de Fora, o cantor não admitia recuos. A turnê de Inclassificáveis acabara de estrear, e ele amargava dores musculares por causa dos tremendos esforços que o show da noite anterior lhe demandara. "Mal saí do teatro, acusei o baque. Estava em frangalhos. 'É, não vai rolar... Não dou mais conta...', ponderei no caminho para o hotel." De manhã, resolveu consultar o psicólogo que o orienta há séculos: o espelho. "Encarei- me com fi rmeza, sem complacência, e lasquei: 'Inseguro?

Nessa altura do campeonato? Qual é! Puta velha! Vai tratando de se animar!'. E me animei."

Às vésperas de comemorar 60 anos, em 2001, empregou a mesma terapia de choque. "Percebi o cabelo sumindo, as rugas pipocando... Esquisito... Será que terei de mudar o meu jeito? Será que vou parecer ridículo se botar o jeans, o tênis e a camiseta habituais? Fiquei com uns grilos desse tipo, um negócio que se arrastou por meses. Temia o julgamento alheio, sei lá. Um dia, sozinho em casa, no Rio de Janeiro, olhei para o espelho e soltei o verbo: 'Ô, Zé, atine! Pare de palhaçada! Vai mudar apenas porque o mundo espera que você mude? Enlouqueceu? Seja coerente! Não atravessou a vida pregando independência?'." Decidiu, então, manter-se igual. "Na realidade, dentro de mim, noto que algo também permanece idêntico. Há uma essência que não se altera. Lembro-me do Ney garoto e concluo que o atual já existia. Nesse aspecto, não me considero 'um coroa'. Sou o que sempre fui. Mas, se tropeço em fotos minhas, recentes, estranho: 'Puxa, o tempo...'. Não me reconheço como aquele do retrato, entende? Sinto-me o outro, o que não se modifica, o que jamais envelhece."

Com Inclassificáveis, almeja dar um depoimento "absolutamente verdadeiro" sobre o que vive hoje. "Não me pretendo guru de nada. Não busco seguidores. Ainda assim, necessito dizer às pessoas que ninguém precisa entregar os pontos antes da hora. Não é por estar beirando os 67 que devo enfi ar um pijaminha e pendurar as chuteiras." Quando criança, lhe revelaram que todos morrem e que ele, cedo ou tarde, partiria. Não suportou a idéia e caiu no choro. "Adulto, procuro lidar melhor com o assunto. Apesar de não ter religião, me interesso pelo esotérico o Livro Maia dos Mortos, o budismo, Madame Blavatsky. Acho que a morte nos joga em uma sintonia diferente. Não é o fim da linha. Se pudesse escolher, gostaria de me observar no momento em que deixasse o plano físico. Queria cruzar a fronteira consciente, como os iogues, sem nenhum medo, para desfrutar bem da experiência." Trinta e cinco anos atrás, rebolando e instigando o público à frente do Secos & Molhados, Ney abraçou a androginia, se revoltou contra o machismo e questionou os "bons costumes" que a ditadura militar tanto preconizava. Agora, depois de uma longa calmaria em que privilegiou trabalhos mais suaves, ressurge iconoclasta e propõe nova rebelião. O senso comum prefere acreditar que a "terceira idade" não rima com sexo, provocação e festa? Visceral, o intérprete rejeita o prato morno e volta a usar a libido como arma. Que outro artista brasileiro arriscou ir tão longe?

Fonte: Revista Bravo Online