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Cléo Tassitani - fotos Lívio Campos e arquivo pessoal. Arte montagem de fotos: Bruno Tassitani.

Ney Matogrosso Ardente!
Aos 65 de idade, o cantor Ney Matogrosso se despe de qualquer tipo de preconceito num bate-papo esclarecedor sobre sexualidade

Eu não posso deixar de te contar uma coisa, Ney, já que vamos conversar sobre sexualidade. Um jornalista que trabalhava comigo numa revista costumava dizer: “Se eu descobrir que o meu filho é gay, eu coloco pra fora de casa”!!!!!...
... E ele vai transformar esse filho num marginal. Pra você ver o tamanho do amor desse pai pra esse filho.

Ele comentava isso antes de a esposa engravidar. O filho nasceu e ele continuou afirmando a mesma coisa.
Isso demonstra quem ele é: “adoooooooora” o filho. Coloca a expectativa dele na frente das necessidades do filho, se o filho tiver alguma. Mas é muito comum a gente ouvir: “Prefiro que meu filho seja ladrão do que ‘viado’ ”. Que ridículo! Quem fala isso é uma pessoa totalmente desinformada. Isso é ignorância. É uma pessoa que não tem nenhum esclarecimento mental.

Quem falou isso é um jornalista!
Mas ele é um ignorante.

Eu não me conformava de ter que conviver no trabalho todo dia com uma pessoa que tinha uma cabeça tão pequena. Não tenho o mínimo preconceito, aliás, o meu melhor amigo e a minha melhor amiga são gays.
Essa gente tem mentalidade antiga. Quando a pessoa coloca o filho pra fora de casa por causa da sua sexualidade, aí, sim, ele vai ser marginalizado, pode até se transformar num travesti. Nem tenho nada contra eles, mas acho que não deve ser uma vida fácil, de estar se prostituindo. É uma vida marginal. Eu acho que quase todos esses meninos que estão se prostituindo como travestis é porque foram expulsos de casa. Há exceções, claro.

Você se declara homossexual, Ney?
Eu já transei com muitas mulheres e com muitos homens. Eu acho que esse rótulo “homossexual” é muito recente, do final do século 19. Essa palavra não existia e ela se referia a homens que transavam com muitas mulheres. Quer dizer, “homem sexual, sexualidade masculina exacerbada, homossexual”... Não sei por que transformaram o sentido dessa palavra. Isso o que eu estou falando pra você, Cléo, é científico, não estou inventando. Homossexual, heterossexual, isso tudo é uma bobagem. É tudo sexualidade humana. Tudo isso são rótulos, é mais uma forma de manipulação, é uma palhaçada. Isso não interessa. O que importa é a liberdade de se expressar sexualmente. O ideal é que todo mundo se expresse livremente tanto com homens ou com mulheres, do jeito que bem entender. Acho que isso não deve ter nome.

Como eu vou te perguntar isso? Estou completamente constrangida pelo respeito que eu tenho por você e pelo ser humano que você é... Enfim... Como você se enquadra sexualmente?
Eu não me enquadro em nada. Sou uma pessoa muito sexualizada e manifesto a minha sexualidade da maneira que o momento permita (gargalhadas).

Pára de rir, Ney. Assim, não consigo fazer a entrevista (risos).
Mas o que eu vou falar pra você, Cléo? (gargalhadas). Falando sério, agora. Sei que eu sou rotulado como homossexual. Mas são as pessoas que me rotulam assim. Eu não me rotulo dessa maneira, eu não assumo nada, não assumo que eu tenha que ser de alguma maneira só porque as pessoas acham isso sobre mim. Sou um ser humano normal, como qualquer outro.

E por que te rotulam?
Porque eu admito que transo com homens. Só por isso. Não tenho porque esconder nada.

Como a imprensa descobriu isso?
Em 73, mais ou menos, me perguntaram e eu falei. O que acontecia era o seguinte: em 73, quando a imprensa conversava comigo sobre sexualidade, eu falava claramente sobre a MINHA sexualidade. Aí, quando eu lia a matéria, o texto era completamente diferente do que eu declarei, falava sobre o amor. E eu pensava: “Mas eu não falei nada sobre o amor, eu falei sobre sexo”. É que, naquela época, existia uma proibição de se tocar claramente sobre esse assunto porque estávamos na ditadura. Os jornalistas sabem alguma coisa sobre mim porque eu mesmo falei, nunca tive problemas em relação a isso. Eu tive problemas antes de resolver isso comigo mesmo. A partir do momento que eu resolvi, deixou de ser um problema.

Você enfrentou quais os tipos de problemas com a sua sexualidade?
Eu tinha muito medo disso, medo de transar com homens e virar um estereótipo. Aí, eu entendi que você pode transar com quem você quiser – com homem ou com mulher. Mulher com mulher, homem com homem – e não precisa virar nada. Esses estereótipos são muito chatos, tipo “mulher machona”, “homem “viadinho”... O mais atraente é você continuar a ser uma pessoa normal.

Eu te conheço há tantos anos, Ney, há quase 30 anos! Cheguei a discutir com algumas pessoas por causa disso. É que a gente vê você no palco e, lá, você é outra pessoa. Conversando assim, frente a frente, você é completamente diferente. Eu achava que você fazia um tipo.
Não, Cléo! (risos). Eu transo com homens, sim. Mas já transei com muitas mulheres. Neste momento, não transo mais com mulher. Inevitavelmente, a relação vira um romance. Não quero isso. Não quero me relacionar com ninguém que tenha que virar casamento. E com mulher é impossível você escapar disso. E todas elas querem casar. Até as mulheres mais loucas que eu conheci, as mais liberadas, no fundo, no fundo, elas queriam casar. Gosto de viver sozinho. Isso não significa que eu não possa ter um relacionamento com alguém, não possa ter pessoas com quem eu transe – mas eu não quero me casar mais, nem com homem nem com mulher. A não ser que caia um raio sobre a minha cabeça que me faça mudar de idéia. Pode acontecer! (risos).

Na primeira entrevista que eu fiz com você, em 79, eu tinha 19 anos. Você comentou de uma filha sua que teria hoje dois anos a menos que eu.
Supostamente, Cléo. Essa filha apareceu e eu falei pra ela: “Vamos fazer um teste de DNA”. Ficou comprovado que eu não sou o pai dela. Se existe alguma filha que eu tenho, está perdida no mundo e eu desconheço.

Como a sua família reagiu diante da sua sexualidade? Seus pais eram preconceituosos?
Meu pai era militar, só pra você ter uma idéia. Mas eu assumi minha sexualidade num momento em que eu já estava fora de casa há muito tempo e era dono do meu próprio nariz, vivendo às minhas custas. Eu não tinha que pedir licença nem dar satisfação pra ninguém. Meu pai tocou nesse assunto uma única vez. Sabe qual foi o choque dele, Cléo?

Nem imagino.
Meu pai via que na minha casa tinha um trânsito de homens e mulheres. Ele ficou muito incomodado e me disse: “Você tem que se definir, está errado não se definir”. Eu falei pra ele que eu não precisava me definir em nada, que não tinha nada de errado. Fiquei chocado de o meu pai achar que o erro era eu não me definir sexualmente. Eu achei que o meu pai iria ficar grilado pelo fato de eu transar com homens, não de eu não ser definido. Se você gosta de transar com homem e mulher já está definido, não é? Foi a única vez que tocamos nesse assunto.

E como a sua mãe reagiu?
Não faço a menor idéia, nunca perguntei! Ela nunca me disse nada e eu também não. Minha mãe nunca teve problemas com relação a isso e ela conheceu várias pessoas com quem eu namorei. Nunca vi sequer torcer o seu nariz. Meu pai também não. Uma vez ele foi ao Rio de Janeiro e eu namorava um judeu. Meu pai sempre teve admiração pelo povo judeu. Quando eles se conheceram, ele ficou íntimo amigo do meu namorado. Eu achava aquilo tão estranho! Eu pensei que meu pai não iria aceitar o contato com uma pessoa que ele sabia que tinha uma história comigo. E ficou íntimo amigo...

O que os pais devem fazer ao descobrir que o filho é gay?
Eu acho que você tem que acolher uma pessoa que você ama, independente da circunstância. Se você ama uma pessoa, você precisa acolher, ser um apoio pra ela em qualquer situação. Isso é um princípio humano, não é só na relação entre pai e filho. Até se a pessoa se transformar num marginal, num assassino, você precisa ser a sua estrutura e ser um apoio pra ela. Estou falando até num extremo exagerado.

Eu tenho uma curiosidade. Como a homossexualidade desperta na pessoa? Porque existem várias teses: a pessoa nasce assim, é a convivência com outras pessoas, é uma doença...
Desde a minha infância eu sabia que eu era uma criança diferente. Só que eu não sabia o que era. Meus amigos eram extrovertidos e eu era introvertido, eu era hipersensível, tinha dons artísticos. O grande problema com o meu pai era esse. Ele percebia que eu era um menino diferente. Eu não tinha consciência de que isso significasse alguma coisa. Pra mim, eu era daquele jeito. Só fui entender muito tempo depois, já na adolescência, que isso tinha a ver com atração por pessoas do mesmo sexo. Não fui um adolescente namorador. A minha primeira relação sexual foi aos 13 anos e foi com uma mulher – e eu gostei. Não tive nenhum trauma. Você me perguntou como isso desperta na pessoa. Eu acho que a gente nasce assim. Mas eu sempre me entendi diferente.

E você é a mesma pessoa até hoje desde quando eu te conheci.
Sim, sou exatamente a mesma pessoa que eu me entendi quando eu tinha cinco ou seis anos de idade. Eu sou aquele. Só que, com o passar do tempo, fui me permitindo experimentar coisas novas. Na verdade, a minha sexualidade despertou depois que eu me tornei artista. Antes, eu passava até dois anos sem transar com ninguém. Eu não tinha essa sexualidade aflorada. Liberei depois dos 30 anos.

O palco colaborou pra isso?
O palco foi um estimulador. Na medida em que eu liberava isso pras pessoas, isso passou a ser uma verdade pra mim.

Eu já te perguntei isso uma vez, mas acho bacana ressaltar. Comentei como chega aos seus ouvidos as pessoas gritarem “gostoso” durante o seu show, tanto homem quanto mulher. Você respondeu que estimula a sexualidade nas pessoas.
A minha manifestação no palco estimula mesmo a sexualidade nas pessoas. Isso eu ouço delas, não é uma tese minha. Recebo cartas me dizendo isso, de pessoas de muita idade comentando que isso não existia mais na vida delas e que, depois de me verem no palco, reconhecem que a sexualidade faz parte da vida delas. Fico feliz de poder mostrar pras pessoas que elas estão vivas. Agora, como elas vão resolver, não é um problema meu.

Uma cena interessante que eu presenciei em um dos seus shows aqui em São Paulo, o Vagabundo, foi uma mulher casada largar o marido na mesa pra te levar um cartaz... Ela gritava “gostoso” na frente do palco, e o marido ficou lá na mesa, sozinho...
Eu acho que os maridos não devem ter ciúme disso – muitos maridos têm e são grilados. Não vai acontecer nada. Aquilo lá, que elas consideram “gostoso” , é uma sereia, aquilo não existe – dura uma hora e meia e desaparece. Quando eu saio do palco, não sou aquele, não sou aquilo. Não tenho necessidade daquilo. Em relação ao que você falou, de homens e mulheres gritarem “gostoso” pra mim, eu emano essa sexualidade, mas indistintamente.

Você falaria sobre o Cazuza?
Eu falo do Cazuza, sim, sempre falei do Cazuza.

Quanto tempo vocês ficaram juntos?
Foram só três meses, mas muuuuuuuuito intensos. E ficamos pro resto da vida juntos, como amigos. O Nélson Motta escreveu no livro dele que eu fiquei com o Cazuza quando ele era cantor – não foi nada disso. Minha história com o Cazuza aconteceu em 79, ele não era nem artista, era fotógrafo da gravadora Som Livre. Foram três meses de relacionamento com labaredas de dois metros de altura. Mas acabou e a gente nunca mais se afastou. Sempre fomos amigos, não houve aquele mês de separação.

Nossa! Eu achava que você tivesse ficado com ele numa época mais pra frente.
As pessoas deturpam tudo. No livro do Nelsinho, ele justifica que eu gravei a música Pro Dia Nascer Feliz porque eu era apaixonado pelo Cazuza. E não era nada disso – eu gravei porque eu tinha admiração pelo Cazuza e porque a música era ótima. Fui apaixonado por ele em 79 (fomos apaixonados, foi recíproco).

Eu assisti ao filme Cazuza. Cadê você no filme, Ney????
É a pergunta que todos fazem e que a diretora e o produtor do filme devem responder. A diretora foi na minha casa e eu contei tudo pra ela – desde o momento em que eu conheci o Cazuza até o último dia em que a gente se viu. Falei de toda a nossa trajetória. Sei lá, disseram pra mim que eu era um personagem tão grande que não cabia em apenas duas entradas do filme. O que eu vou fazer? Cortar meus pulsos? (gargalhadas).

Mas não tem sentido sequer mencionar seu nome no filme, Ney.
Não tem sentido mesmo.

O Cazuza morreu porque era portador do vírus HIV. Como você consegue preservar a sua saúde?
Hoje, existe a camisinha, mas na época fui poupado e não sei por que razão. Isso não tem explicação. Eu pergunto pros médicos qual a explicação pra isso e ninguém me dá uma resposta. Não existem aquelas prostitutas africanas, que transam com todo mundo e não adquirem a doença? Eu não sei o que acontece comigo. A partir do momento em que eu soube da existência da Aids, no primeiro teste que eu fiz e vi que não era portador da doença, passei a usar camisinha. Mas, antes, a camisinha era usada apenas pra não procriar e, mesmo assim, pouquíssimas pessoas usavam.

Uso que a igreja católica inclusive condena...
A igreja católica é ridícula.