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Pela política eu não vejo saída
Sonia Racy - O Estado de São Paulo

Sempre contestador e mais maduro, Ney Matogrosso não acredita mais que ela possa mudar o País

Prestes a lançar um novo DVD, Ney Matogrosso continua contestador mas agora, mais maduro, acrescenta um olhar mais sereno ao mundo à sua volta. Até hoje, não cede um milímetro em seu trabalho. “Eu entrego pronto e a gravadora não sabe nem do que se trata”, revela. “Alcancei essa liberdade, coisa muito rara no universo artístico. Hoje, ou as pessoas são da Globo e se submetem ao comando da empresa, ou ao gosto de uma gravadora. Não vim a este mundo para agradar a uma gravadora.Tô aqui pra me satisfazer artisticamente e oferecer coisas interessantes. Meu único termômetro é agradar ao público.”

Mas, em outros tempos,ele já desagradou. “Quando fiz O Pescador de Pérolas, o público se afastou. Acharam que eu tinha pirado, porque entrei de terno – eu sempre aparecia nu até então. Os jornais diziam que eu não era um cantor, era um ator que cantava. Tentei então mostrar que era cantor – e aí os jornais disseram que eu não estava bem da cabeça.” Ele retruca: “Para fazer uma coisa dessas, eu estava muito bem da cabeça.Cantei até ópera de Carlos Gomes.”

Ney detesta a política, apesar de ter algum sangue político nas veias. Seu avô era primo de Washington Luiz e engajado politicamente. Filho de militar, na sua primeira apresentação, com roupas normais, foi vaiado. Chocou pelo tom de voz.“Um camarada começou a me xingar, mandei a banda parar. Cheguei à beira do palco e perguntei o que ele queria. Ele arreglou e voltei a cantar.”

A falta de medo de qualquer coisa impressiona. Mas quem foi que teve a coragem de colocá-lo no palco travestido, pela primeira vez, em 1973? “Não sabiam que eu ia ser aquilo: ninguém tinha ensaiado a apresentação”, explica. Se não tivesse tido uma criação militar, teria feito a mesma coisa? “Se não fosse o que fiz, seria uma coisa tão agressiva quanto. Tinha consciência do País em que vivíamos, do estado de calamidade daquela ditadura nojenta.”

Como é o novo CD que você está lançando? Gravei o disco e agora vamos gravar o DVD. Lançaremos em breve o CD e, mais pra frente, o DVD. O CD não tem toda a música do show,são músicas inéditas. O DVD tem tudo junto, as novas e as conhecidas.

Que outros planos você tem? Nunca fiz planos. Eu vou vivendo, não me interessa o amanhã. E ontem já foi. Vivo bem com isso e tento conviver com a idéia da morte súbita. Mas gostaria de me preparar conscientemente. O qu eprocuro fazer é levara minha vida de uma maneira que, se eu for embora subitamente, não estarei devendo muita coisa.

Você acredita em quê? Eu acredito no poder da natureza, global e absoluto. A natureza não tem ódio reativo. Tenho um pedaço de Mata Atlântica, uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), 148 hectares perto de Saquarema, no litoral do Rio. Se eu morrer amanhã, significa que ninguém poderá entrar e derrubar aquilo lá.

A tecnologia faz sentido para você? Não me interessa. Tenho um celular porque cheguei a um momento em que é impossível viver sem ele. Tenho um computador mas nem olho pra ele. Quero falar com a minha boca,com a minha voz, não quero conhecer ninguém por ali.

Você não é um ser muito social... Não sou da noite, ou da badalação. Vivo dentro da minha casa e não sofro por isso. Gosto de ficar sozinho, preciso ficar sozinho. As pessoas interferem. Escrevo, leio muito.

Faz terapia? Tenho muitos amigos com quem eu tenho conversas verdadeiras, profundas. Isso funciona como uma terapia, pessoas com as quais eu tenho total intimidade de falar até de minhas fragilidades. Eu não tenho mais medo do meu lado mais frágil. Já tive. Achava que se o expusesse, estaria colocando uma arma na mão do outro.

Aquelas parafernálias que você usava, no começo da carreira, pinturas, purpurinas,eram para cobrir esse lado frágil? Talvez. E aquilo libertava dentro de mim uma coisa poderosa, física. Eu não tinha rosto, não era eu. Era um ser inventado. Eu entendi isso também a ponto de não precisar mais. Hoje até faço alguns shows todo fantasiado, mas é uma brincadeira. Voltei a fazer porque gosto e é parte de mim.

Como você se “inventou”? Li num livro que os feiticeiros da África raios para tirar toda a carga negativa. No primeiro show eu tinha dois chifres de carneiro em espiral. Era inseguro e usava isso para me defender. Hoje me defendo com meus pensamentos e sentimentos. Achamos que nosso amoroso é frágil, mas não é: é uma força e poderosa.

Já se engajou em alguma causa gay? Seria muito conveniente para o sistema eu ser um estandarte gay. Nunca quis. Mas acho que só o fato de eu existir ajuda a causa. Eu não preciso ser um estandarte gay apenas: quero ter liberdade de expressão em todos os assuntos que me interessam. Trabalho no combate à hanseníase, quero ajudar a acabar com essa doença no País. Sou voluntário dentro do movimento, que só não acaba porque não tem nenhum governo empenhado. Na América Latina, a doença acabou. Só resta no Brasil e nisso somos o primeiro do mundo. Temos ainda 43 mil pessoas com essa doença, conhecida como lepra.

Você usa drogas? Não gosto de álcool em geral, mas de vinho eu gosto,com a comida. Quanto a drogas, elas deveriam ser liberadas e as pessoas responsabilizadas pelo que fazem. Eu usei tudo na minha vida, como experiência. Todas as drogas me levaram à reflexão interna, nunca tomei droga para festinhas.

A política lhe interessa? Depois da ditadura, confesso que eu esperava um governo minimamente ético. Não foi o que aconteceu. O sistema de financiamento de campanhas é um escândalo. O sistema é corrupto e nos outros países é igual. Não tenho mais ilusão quanto à política como veículo transformador da sociedade. Eu não voto, anulo o voto e não tenho nenhum pudor com relação a isso. E sou contra a obrigatoriedade do voto.

Mas, quando acabou o regime militar você teve esperanças? Tive. E no governo d oLula acreditei que seria diferente. Achei que um operário, que saiu de onde saiu e chegou à Presidência, seria melhor. Mas o poder corrompe. Eles ficam enlouquecidos pelo poder e fazem qualquer coisa para não se afastar mais dele.

A sociedade poderia fazer mais? Olha, eu acho que os políticos não deveriam ganhar dinheiro. Eles são pagos por nós e nos roubam. Teria de ser o contrário: deveriam doar o serviço à nação e receber uma coisa mínima, para sobreviver. Tudo hoje é troca, é vendido ou comprado. E dinheiro pra mim é conseqüência, é trabalho. Sempre ganhei meu dinheiro honestamente e dinheiro nunca foi meta na minha vida. Desiludidas, as pessoas se voltaram para a religião. Que também não serve. A religião constituída também quer poder, dinheiro.

Então, no que você acredita? Acredito em um princípio organizador – e esse princípio, para mim, é o Deus amoroso. Não tenho religião. Falo da descoberta dentro de cada um de nós. Com esta descoberta, seremos todos independentes de qualquer religião. Isso é o princípio da evolução da espécie, uma evolução planetária. Estamos vivendo o fim de um ciclo. Não me amedronta. Quantas civilizações poderosas passaram por aqui e desapareceram. Você acha que somos a mais perfeita?

Fonte: Sonia Racy - O Estado de São Paulo