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Inclassificável como o povo brasileiro
Fernanda Fernandes - Tribuna de Minas

Bem diferente do formato de recital de “Canto em qualquer canto”, último trabalho de Ney Matogrosso, o novo show volta à estética exuberante e de tom performático que marcou o início da carreira do artista. Mas logo o cantor percebeu que era mais que isso e decidiu começar com “O tempo não pára” (Cazuza) e “O mal necessário” (Mauro Kwitko), canções resgatadas em álbuns anteriores e responsáveis pela tônica do espetáculo. “Não é um show de protesto, mas tem questões sociais. Gosto e quero abordar a realidade do país”, disse, em entrevista à Tribuna, ressaltando também a variedade do repertório.

O tom engajado, entretanto, não tira o brilho e o luxo da grande produção que começou a ser montada na cidade na última terça, com a chegada de Ney e de sua equipe, que inclui o estilista Ocimar Versolato e o carnavalesco Milton Cunha. O show, que tem estréia nacional hoje na cidade, confere plasticidade única a composições inéditas e releituras selecionadas pelo intérprete. “É uma necessidade minha. Tudo o que faço é interessante para mim, porque preciso estar interessado, gostar do que estou fazendo para levar isso para o público. Achei bom dar um pulo para fora e pegar repertório que me sintoniza com o mundo e com a atualidade, algo que não era preocupação em meu trabalho anterior.”

Entre os compositores ainda desconhecidos, o destaque é o paulista Dan Nakagawa, que acaba de lançar seu primeiro disco, do qual Ney tirou a música escolhida para dar título ao show, “Um pouco de calor”. Depois, porém, “Inclassificáveis”, de Arnaldo Antunes, tornou-se o nome ideal, mais incisivo e contestador, traduzindo a idéia do espetáculo e a própria trajetória artística de Ney Matogrosso. Para ele, não se enquadrar é também característica do brasileiro. “Nós somos um povo de inclassificáveis. Temos que assumir isso. É a nossa diferença. E não é menos, é mais.” O repertório conta ainda com “Ode aos ratos”, “Divino e maravilhoso” (Caetano Veloso), “Ouça-me” (Itamar Assunção e Alice Ruiz) e “Novamente” (Fred Martins/Alexandre Lemos). Muitas foram escolhidas recentemente. Não deu para decorar. Por isso, Ney está testando um equipamento novo, que acaba de ser produzido em São Paulo. São três pequenos teleprompters de pequenas dimensões e sem emissão de luz, para não interferir em nada no palco.

Opção estratégica
Em sua terceira estréia nacional na cidade, Ney Matogrosso diz que nunca havia tido a oportunidade de ocupar um teatro para montagem por tanto tempo. Segundo ele, é sempre muito bom vir a Juiz de Fora, onde o público é receptivo a seu trabalho, mas a opção, desta vez, é mesmo estratégica. “Os teatros dão, no máximo, dois dias para montagem. Normalmente, grava-se em estúdio e é preciso estrear sem a luz estar pronta. É tudo muito corrido. Aí já tem crítica saindo e a coisa ainda não está acabada.”

Desta vez, foram cinco dias de ajustes, eliminação de excessos e modificação de parte do cenário, para torná-lo ainda mais funcional e ao gosto de um artista perfeccionista. Há mão do cantor em todos os detalhes, do figurino à iluminação (assinada em conjunto com Juarez Farinon).

Os dias de montagem serviram também para a adaptação da banda, formada especialmente para este show. Emilio Carrera, ex-integrante do grupo Secos & Molhados, toca teclado e assina a direção musical. A escalação segue com Cerlinhos Noronha (baixo), Júnior Meirelles (guitarra/violão), Sérgio Machado (bateria), DJ Tubarão (percussão e pick-up) e Felipe Roseno (percussão).

Fonte: Tribuna de Minas