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Matogrosso
Milton Cunha - Jornal O Dia
Da longa conversa que tive com Ney Matogrosso, quando o astro me explica demoradamente o sentido de seu show que estréia no mês que vem, “Um Pouco de Calor”, o que mais me chama a atenção é o conteúdo humanista do pensamento central, que Ney repete como um mantra, de desconcertante honestidade e verdadeira preocupação: meu irmão, meu semelhante, meu igual.
E olhando no centro dos olhos do interlocutor, é fácil descobrir a absoluta convicção e verdade do cantor, que não acha que devemos nos afastar do que é mais humano e bonito em nós: a fraternidade, a preocupação com o outro, a consciência de que todos nos igualaremos nos sepultamentos.
Mas será um show social, de protesto, de cobrança? Sim e não. Sim, pois cobrará em canções como “Ode aos ratos” a emergência de providências como respeito, bom governo, honestidade de propósitos. E não, pois o simples fato de viver já é tudo isto. Estar aqui, de pé, já é político.
Falando do humano, estaremos falando de governantes, igualmente humanos (ainda que alguns não pareçam). Sem ser panfletário, o grande intérprete deseja festejar as qualidades humanas e as relações de respeito, que não devem ser mediadas por conta bancária, cor de pele, escolha religiosa, opção sexual, e outras criações sociais.
Indago se tudo isto estará embalado em simplicidade e discreção, que poderiam parecer antagônicos à exuberância do artista, já definido certa vez pela imprensa internacional como uma “mistura de David Bowie, Carmen Miranda e Josephine Baker”! Nem um pouco. Não é preciso ser sério ou feio, para ser responsável. Não precisa estar sobre a pobreza visual para pensar os problemas. Lá estará o bom e velho Ney.
Quem disse que luxo e exuberância não rimam com raciocínio? E o público agradece, aplaudindo. Em embalagem bacana, com figurinos do mago Versolato, o espetáculo evocará antigas civilizações, afamadas por deslumbrantes arabescos, lado a lado, em cena, com o deslumbre da imagética dos índios do Xingu, suas tabatingas e seu grafismo lindo. Chico Buarque e jovens compositores, consagrados e desconhecidos. Não há nada de chato em ser engajado.
Outra questão que será abordada pelo espetáculo será o tempo. E já que falávamos da passagem de horas e minutos, elogio a forma dele aos 66 anos (no almoço descobri um segredo: só come galinha caipira, do sítio em Saquarema, o que convenhamos, é um luxo, a tal da garnizé), pergunto que cantora, madura, mantém tanto sex apeal, e ele sem titubear, detona: Elza Soares, e se derrama de elogios para a black, que segundo Matogrosso, bate o maior bolão.
Tempo nas conhecidas letras de Cazuza e nas novas canções inéditas dos compositores que ele está lançando. Ney e seus gatos, Matogrosso e sua macaca, a estrela e as pessoas: é um grande prazer desfrutar da companhia do artista, no auge de sua articulação e poder criativo.
Ney é uma festa serena, uma pororoca pós-revolução, correndo apaziguada rumo ao oceano. Até as cortina abrirem. Aí ninguém segura a entidade, aí a explosão se personifica.
Tem medo das críticas, Ney? “A abandonei em 75. Desde lá não perco tempo com as maldades. Eu e meu público, minha gente e eu. Isso é o que interessa, o que importa”.
Fonte: Jornal O Dia
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