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imprensa

23/08/2005

Jornal O Estado de São Paulo
Lauro Lisboa Garcia

Ney revê canções com toque latino
Gravado ao vivo, o CD Canto em Qualquer Canto traz sucessos de 1974 a 2001 com arranjos de cordas.

Enquanto fazia a turnê de Vagabundo, com Pedro Luís e a Parede, e já planejava o próximo disco, Ney Matogrosso foi convidado a realizar um show de voz e violão para comemorar o aniversário do Canal Brasil. A partir de duas apresentações no Sesc Pinheiros, o projeto Canto em Qualquer Canto tomou corpo, provocou sensação em Portugal, agora ganha versão em CD ao vivo (Universal) e sai em DVD em setembro.

Ele nem tinha a intenção de registrar o show, mas o Canal Brasil acabou substituindo o pagamento do cachê pela gravação do CD e do DVD. O fabuloso quarteto de cordas que o acompanha é formado por Ricardo Silveira (violão elétrico e guitarra), Zé Paulo Becker (violão e viola caipira), Pedro Jóia (violão e alaúde) e Marcello Gonçalves (violão 7 cordas). Ney pinçou canções de seu repertório de 1974 a 2001, como Bandolero (Luli/Lucina), Dos Cruces (Carmelo Larrea), Retrato Marrom (Rodger Rogério/Fausto Nilo) e Amendoim Torradinho (Henrique Beltrão).
A elas juntou outras conhecidas, mas que nunca tinha gravado. São Oriente (Gilberto Gil), a faixa-título de Itamar Assumpção e Ná Ozzetti, e Já te Falei, dos tribalistas Arnaldo Antunes, Marisa Monte, Carlinhos Brown e Dadi Carvalho, lançada por Rita Lee em 2003.

Além disso, incluiu duas belas canções de Pedro Jóia em parceria com Tiago Torres: Canção por Acaso e Duas Nuvens. A primeira já havia sido registrada por Mônica Salmaso, a segunda, Ney cantou num disco de Jóia. Ao que parece, a sonoridade do disco, fortemente marcada por acento rítmico latino vindo de flamenco, tango, bolero e mambo, se deve à presença do violonista português. "Não tinha me dado conta desse lado latino. Falando até inconscientemente, acho que talvez esses arranjos tenham ficado assim para valorizar melhor o violão de Pedro, mas não tinha realizado isso na minha cabeça", diz Ney, que quase incluiu El Dia Que me Quieras no repertório.

"O formato intimista me fez modificar o canto. Não que eu me sinta reprimido, mas o show já está diferente do que foi registrado no disco. Depois que fizemos para mais de mil pessoas no Porto, em Portugal, percebi que pode ser outra coisa, porque tive mais espaço para minha voz ressoar. É mais arriscado testar lá fora o que não tinha sido testado aqui e a conseqüência disso me fez me sentir mais seguro." Vai daí que pretende levar o show para outros teatros brasileiros.

Embora o resultado seja satisfatório, o cantor não estava nas melhores condições quando gravou o disco - no segundo dos dois shows no Sesc, em dezembro de 2004. "No dia eu estava uma pilha, me pediram uma passagem de som enorme, à noite já estava com a voz cansada. Acabei corrigindo duas ou três coisas da voz na pós-produção, porque sou pentelho, mas interferi minimamente. Se fosse em estúdio, gravaria com mais tranqüilidade."
Com isso também evitaria os irritantes aplausos que se seguem a cada música. Se bem que o público desta vez até que não interrompe muito, esperando as execuções terminarem. Daí que, com um programa básico de edição de áudio, é possível eliminar no computador quase todas as interferências da platéia e o CD soa bem melhor. Só não dá para cortar palmas e uivos que entram no meio da canção, como em Lábios de Mel (Waldir Rocha) e Tanto Amar (Chico Buarque), mas no caso é passável. "Eu também acho chato ouvir aplausos entre as músicas, mas quando argumento isso com as pessoas, não deixam cortar porque o disco é ao vivo.
Alguns sucessos de Canto em Qualquer Canto Ney já regravou até três vezes. É o caso de Bandolero, um dos clássicos 'matogrossenses', que ressurge com o frescor de quando foi registrado pela primeira vez em 1978. Além de constar de outro disco ao vivo, de 1989, Ney a regravou em Vinte e Cinco (1996). "Ali refiz tudo o que achei que estava prejudicado na minha voz. Concordo que o som de muitos discos dos anos 80 ficaram datados, mas no meu caso o problema nem eram os arranjos. Às vezes tínhamos três meses para gravar um disco e três dias para colocar a voz. Depois de passar tantas horas dentro do estúdio debaixo do ar-condicionado, eu já estava cansado, gripado."
Retomar evidências do próprio repertório, no caso de Ney, não soa repetitivo, por conta de sua constante capacidade de renovação. "As canções voltam porque sempre são citadas pelas pessoas. E não são só coisas antigas: vivem me pedindo para cantar Poema (Cazuza/Frejat). Tenho de considerar isso e botar na roda mesmo", defende.

Apesar do desgastado formato de disco ao vivo, as versões atuais de outras canções de Canto... são tão expressivas quanto as originais (algumas talvez melhores), caso da salerosa Bamboleô (André Filho), que Ney trouxe de Batuque (2001). Outros achados são Ardente (Joyce), do álbum Seu Tipo (1979) e O Doce e o Amargo (1974), de João Ricardo e Paulinho Mendonça, mais uma significativa investida de Ney no acervo dos Secos & Molhados.
Os mesmos valores de restauro valem para o repertório alheio. A belíssima canção-título de Canto em Qualquer Canto joga mais brilho sobre o legado de Itamar Assumpção, sobre quem Ney se equipara a Zélia Duncan em nível de admiração e 'prestação de serviço' dentro do mainstream.
Arranjos e solos instrumentais contribuem para a qualidade atemporal do CD. Nesse aspecto o momento de pico é em Oriente, com uma longa introdução, solos e duelos virtuosos das cordas em quase 10 minutos de duração. Ney impressiona não só pela exuberância e o apelo encantador das interpretações como pela alteração mínima do timbre na maturidade, que só ganhou um pouco mais de grave, especialmente nesse projeto. Aos 63 anos, ele canta com o mesmo registro de voz colorido de 30 anos atrás, quando abalou as gerais à frente dos Secos & Molhados. Cantar bem em qualquer canto, com personalidade, é para poucos hoje.