| 13/09/2005
Jornal O Globo
Hugo Sukman
"Não há mais critério
a ser seguido"
Cantor diz que liberdade criativa foi definitiva
para gravar CD e DVD acompanhado de quatro violonistas.
Ney Matogrosso abre seu novo disco,
e daí tira seu título, “Canto em qualquer
canto” (Universal), da canção de Ná
Ozzetti e Itamar Assumpção sobre a arte de cantar:
“Gorjearei pela terra/Para dar e ter alívio/Gorjeando
eu fico nu/Entre o choro e o riso”. É cantar com
a maior liberdade possível a sua intenção
no CD e no DVD que nasceram da encomenda do Canal Brasil de um
especial de fim de ano.
- Não há mais critério a ser seguido, então
só faço o que quero mesmo — diz Ney ao GLOBO,
referindo-se evidentemente à perda de poder da indústria.
O que quis, em gravação em São Paulo no último
8 de dezembro, foi rever seu repertório (como “Bandolero”)
e cantar coisas inéditas (como “Duas nuvens”,
de Pedro Jóia) acompanhado por quatro violonistas virtuoses.
Ney sobre a variedade de seus trabalhos: “Há tanta
coisa interessante na música brasileira, por que não
desfrutar da maior variedade possível?”
O Globo: Por que quatro violonistas?
Ney Matogrosso: Eles me pediram um show de voz e um violão.
Mas eu trabalho com tantos violonistas tão bons que cheguei
a esse formato de quatro violões. São todos músicos
com quem já trabalhei, à exceção do
Zé Paulo Becker, que me foi indicado pelos outros três.
São todos virtuoses, cada qual no seu estilo. O Ricardo
Silveira é mais jazzístico, toca violão de
aço e guitarra elétrica. O Marcello Gonçalves,
com aquele baixo do violão de 7 cordas, é o meu
chão, é o que me deixa com o pé na terra,
é o que eu mais preciso ouvir já que não
há ritmo na formação. O Pedro Jóia,
com aquele violão flamenco dele, traz uma referência
importante, nova, ao trabalho. E tem o Zé Paulo, que além
de violão, toca viola. Na verdade, não é
um show de quatro violões, mas de quatro violonistas.
O Globo: Você já trabalhou com o Aquarela Carioca,
o Placa Luminosa, o Nó em Pingo d’Água, a
Parede, agora com um quarteto de violões. Isso é
nostalgia de ser parte de uma banda?
Ney: Não, acho que é um desejo de variar mesmo as
sonoridades. Na verdade eu procuro estímulos para mim.
Essa minha busca por repertório, por sonoridades novas
serve para manter tudo isso atraente antes de tudo para mim. Há
tanta coisa interessante na música brasileira, por que
não desfrutar da maior variedade possível?
O Globo: Alguns de seus últimos trabalhos, como “Vagabundo”
e “Olhos de farol”, têm sido radicais na busca
de sonoridades e repertórios novos. Isso significa um descompromisso
em relação ao mercado?
Ney: Descompromisso total. Agora eu me sinto mais seguro para
fazer só o que eu quero. Antes eu trabalhava com o Mazzola,
ele interferia muito e eu permitia. Talvez por não ter
tanta certeza do que eu queria. Eu sabia talvez o que eu não
quisesse, mas não sabia o que de fato queria. O “Homem
com H” gravei sob influência dele e até quase
o disco sair não sabia se ia deixar que saísse.
De um tempo para cá quis participar de tudo, até
dos arranjos. A partir dessa hora talvez eu tenha ficado mais
radical, fazendo só o que eu quero. Porque não há
mais critério a ser seguido. Como não há
nem mais compromisso com estação de rádio,
então só faço o que eu quero mesmo. A gravadora
só sabe o que eu fiz depois de pronto. Não é
arrogância, é certeza do que se quer.
O Globo: Por que misturar no repertório inéditas
e regravações de músicas de outros e do seu
próprio repertório?
Ney: Primeiro quis pegar músicas do meu repertório
e botá-las no novo formato, como fiz com “Ardente”,
que Joyce compôs para mim e sempre quis regravá-la,
por achá-la engraçada e sugestiva. Depois peguei
músicas de outros, como o “Já te falei”
(dos Tribalistas), gravada pela Rita Lee, que me disse que não
canta nos shows porque acha muito difícil. Aí apareceram
as inéditas do Pedro Jóia. Na verdade, busquei coisas
que me estimulassem.
O Globo: E o que mais o estimulou musicalmente?
Ney: “Oriente”, do Gil. O Marcello Gonçalves
trouxe um arranjo estimulante para quatro violões, progressivo,
que se transforma em tudo.
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