| Agosto / 2005
Jornal O Dia
Pela voz e pelo repertório, Ney se
salva na roda-viva dos projetos ao vivo.
Está difícil escapar da dobradinha DVD / CD ao vivo
que domina o mercado. Nem artistas com liberdade artística,
como Ney Matogrosso, conseguem ficar imunes aos projetos do gênero.
Tanto que chega às lojas na próxima semana o CD
Canto em Qualquer Canto, gravado em dezembro de 2004, em São
Paulo (o DVD sairá em setembro). O que era um simples show
para comemorar o aniversário do Canal Brasil acabou ganhando
registro que se incorpora à discografia do cantor. Pelo
habitual apuro na realização de seus espetáculos,
Ney se salva - e o que poderia soar como uma gravação
banal acaba se impondo na digna obra do artista.
O diferencial do show é o luxuoso quarteto de cordas formado
por Pedro Jóia (alaúde e violão), Ricardo
Silveira (guitarra e violão), Marcelo Gonçalves
(violão de sete cordas) e Zé Paulo Becker (viola
e violão). Pontuada por este afiado naipe de cordas, a
gravação (de excepcional qualidade técnica)
ganha sonoridade forte que arma a cama para que Ney, em grande
forma vocal, refine um repertório que foge do óbvio.
As nuances dos arranjos e das interpretações do
cantor valorizam o disco. Seja pela sutil ironia de Já
te Falei (pérola da lavra dos Tribalistas, lançada
por Rita Lee), pelo suingue de Oriente (Gilberto Gil), pelo tom
dengoso de Lábios de Mel (do repertório de Ângela
Maria) ou pelo vigoroso toque flamenco de O Doce e o Amargo (da
obra dos Secos & Molhados), vale ter este Canto em Qualquer
Canto. Inclusive para ouvir Ney cantar a bela faixa-título,
de Itamar Assumpção e Ná Ozzetti. Entre lados
B de sua discografia (Ardente, de Joyce, vem do disco Seu Tipo,
de 1979) e hits como Tanto Amar (Chico Buarque, gravada pelo cantor
nos anos 80, em sua fase de maior sucesso comercial na carreira
solo), Ney Matogrosso reafirma sua categoria de grande intérprete.
Ele ainda canta muito bem em qualquer canto.
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