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imprensa

23/08/2005

Jornal do Brasil
João Bernardo Caldeira

Liberdade de voltar atrás e ir para a frente
Ney Matogrosso adia projeto de disco de canções em espanhol e lança CD com músicas que gosta de cantar ao vivo.

Canto em qualquer canto, mais novo disco de Ney Matogrosso, não estava nos planos do cantor. Ele já reunia músicas para um novo trabalho quando foi convidado para fazer um show para o Canal Brasil, emissora de TV por assinatura, no Teatro Sesc Pinheiros, em São Paulo, em dezembro. Selecionado o repertório, foi decidido que o material seria lançado em CD e DVD pela Universal Music. Está adiado, portanto, o projeto idealizado anteriormente, que reúne músicas de nomes como Fred Martins e Jorge Drexler.

- Foi inesperado para mim. Eu já estava com a cabeça em outras músicas. Perguntei, então, o que eles queriam que eu cantasse. ''O que você quiser'', responderam. Então fui pensar no repertório e propus que usássemos quatro violões - diz Ney.

Foram escalados Marcelo Gonçalves (violão de sete cordas), Ricardo Silveira (guitarra e violão), Zé Paulo Becker (viola caipira e violão) e Pedro Jóia (alaúde e violão). O único que não tinha trabalhado com Ney era Zé Paulo, integrante do Trio Madeira Brasil. O cantor diz que, ao escolher os músicos, sabia que estava acentuando o caráter ibérico dos arranjos, que foram elaborados pelos violonistas. A presença do português Pedro Jóia enfatizou ainda mais a vertente.

- Quando o Pedro toca, essa influência fica muito evidente. Ele acabou me puxando para esse lado, e eu não fiz corpo mole. Já fiz trabalhos muito latinos. Eu gosto disso. E escolhi agora músicas que acabaram propiciando essa sonoridade. O doce e o amargo, por exemplo, gravada no segundo disco do Secos & Molhados, em 1974, já tinha esse sotaque ibérico - avalia Ney.

A faixa chegou a tocar nas rádios nos anos 70, mas não chegou a virar hit, já que o grupo foi extinto antes mesmo que ela fosse apresentada nos palcos. Ney diz que jamais a incluiu em seus shows solo porque ''achava que ela contrariava uma realidade''. Ele se refere aos versos finais: ''Dessa terra morta/ Desse povo triste''. Hoje, no entanto, sua visão mudou:

- Ela não contraria mais nossa realidade. Eu achava que os brasileiros já tinham dado sua cota de penúria. Talvez eu acreditasse no Brasil alegre...

A diversidade de autores e estilos das canções do novo CD mostra que Ney não procurou amarrar as canções numa unidade conceitual, como costuma ser o hábito do cantor. À faixa-título (de Itamar Assumpção e Ná Ozzetti) foram unidas, por exemplo, Ardente (Joyce), Bamboleo (N.Reyes, J.Bouchiki, T.Baliardo e S.Dias), Dos cruces (Carmelo Larrea), Lábios de mel (Waldir Rocha), Tanto amar (Chico Buarque). Grande parte das 14 faixas já tinha sido gravada por Ney, com exceção de músicas como Oriente (Gilberto Gil), e as duas assinadas por Pedro Jóia (que mantém carreira solo e lançou discos) e Tiago Torres: Uma canção por acaso e Duas nuvens.

- Não houve a busca de unidade, nem me preocupei em ter músicas inéditas. Como me deram liberdade total, eu pensei: ''Vou cantar tudo o que me der vontade''. Escolhi canções que já tinha gravado, mas que nunca mais botei em show nenhum, e também algumas que outros cantores já gravaram, como Já te falei (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte), que a Rita Lee gravou. Sou livre como um passarinho.

Segundo ele, as músicas já visitadas por ele tiveram a maneira de cantar alteradas:

- Não é que eu esteja oprimido pelos violões, mas canto de uma maneira mais harmoniosa e adequada com o formato. Por exemplo: antigamente, eu cantava Retrato marrom gritando e me jogando. Agora é diferente.

Os arranjos é que dão conjunto ao disco, explica ele:

- Toda a sonoridade passa pelo filtro dos quatro violões. Vou do pop ao tango sem problema. É um disco atípico, mas ele de uma certa forma é previsível na minha vida. Já cantei com muitos violonistas que admiro muito, como o Raphael Rabello. Seria inevitável um dia voltar a esse assunto.

O último trabalho do cantor, o premiado, aclamado e excelente Vagabundo (2004), foi feito ao lado do grupo Pedro Luís e A Parede. Ney garante que continuará fazendo apresentações do álbum anterior, mas manterá também uma agenda de shows para promover Canto em qualquer canto.

O projeto no qual Ney estava trabalhando até o final do ano passado ficou adiado para 2006. Boa parte do repertório já está montada:

- Estou quase no final da seleção. Estou reassumindo o meu lado de cantar em espanhol. Além do Martins e do Drexler, teremos também compositores pouco conhecidos, como um rapaz de São Paulo, Dan Nagal, e outro do Rio, Monjope, que fazem música eletrônica. Isso não significa que será um disco de eletrônica, já fiz isso no passado, mas por que não passar de raspão? Eu não trabalho com liberdade sempre?