| Agosto/2005
Revista Época
Beatriz Velloso
O canto da coerência
Aos 64 anos, Ney Matogrosso mantém
a coragem de arriscar, fala sobre Cazuza, Lula e preconceito.
CNey Matogrosso é um artista
que concentra altas doses de talento, personalidade, coragem e
coerência. Diz o que pensa e age de acordo, é fiel
a suas idéias e a seu constante desejo de renovação.
Foi assim desde 1973, quando surgiu, desafiando censores e moralistas
em geral, dançando sensual e quase nu na banda Secos &
Molhados, em plena ditadura militar. O cantor nunca embarcou nessa
conversa de 'crise na música brasileira' e diz que há,
sim, novos compositores talentosos no horizonte - tanto que seu
CD anterior, Vagabundo, foi uma parceria com a jovem banda Pedro
Luís e a Parede. Na primeira semana de setembro, Ney lança
Canto em Qualquer Canto, gravado ao vivo, no qual clássicos
de seu repertório como 'Tanto Amar' e 'Bandolero' surgem
em arranjos bonitos e originalíssimos, executados por quatro
violonistas (Pedro Jóia, Zé Paulo Becker, Marcello
Gonçalves e Ricardo Silveira). Nesta entrevista, Ney fala
sobre indústria cultural, preconceito, Lula e Cazuza.
NEY MATOGROSSO
Dados pessoais
Nasceu em 1º de agosto de 1941 em Bela Vista, Mato Grosso
do Sul. Vive no Rio de Janeiro desde 1966
Profissões
Serviu na Aeronáutica e trabalhou no laboratório
de um hospital em Brasília
Vida de artista
Surgiu em 1973, com o Secos & Molhados. Canto em Qualquer
Canto é seu 30º disco
ÉPOCA - Em uma entrevista recente, Chico Buarque disse
que a canção é um fenômeno do século
XX e pode estar desaparecendo. Você concorda?
Ney Matogrosso - Acho que não é por aí. Não
vejo crise de criação. Há crise no atravessador,
a mídia, que está viciada em fórmulas, repetidas
à exaustão. A gente percebe isso nessa música
da Bahia. Tem a Daniela Mercury e a Ivete Sangalo, tem as cópias
delas, as cópias das cópias... A gente nem sabe
mais quem é quem, todo mundo canta igual. Mas existem bons
artistas novos, sim. Só que o Chico é especialérrimo.
Não nasce gente igual a ele todos os dias. Não dá
para querer que todo ano surja uma leva de Chicos, Caetanos e
Miltons. Esse pessoal surgiu num momento de ditadura, quando a
repressão era um estímulo para a música,
para a transgressão inteligente.
ÉPOCA - O Secos & Molhados seria transgressor hoje?
Ney - Provavelmente não. O Secos & Molhados tinha uma
carga de sexo que era uma bomba. Hoje o sexo está banalizado,
é esfregado na cara da gente como se fosse propaganda de
pasta de dentes. Quando comecei, fui muito influenciado pelo tropicalismo.
A primeira vez que vi Caetano eu era funcionário público
em Brasília, no fim dos anos 60. Ele apareceu vestido de
cor-de-rosa, dos pés à cabeça. Naquele tempo,
homem não usava nem meia cor-de-rosa. Imagina o choque:
ditadura, você encontra Caetano Veloso, todo de rosa, em
Brasília! Pensei: 'Se um dia eu for artista, quero causar
nas pessoas o que ele causa em mim'. Aí surgiram aqueles
malucos (Secos & Molhados). Em pleno governo Médici
(1969-1974), eu dançava quase nu. Chupava uma rosa e jogava
para a platéia, sentava em cima de chifre. A ditadura me
agredia, e eu agredia de volta.
Arquivo/Ag O Globo
O Secos & Molhados tinha uma carga de sexo que era uma bomba,
mas hoje não seria transgressor. Agora o sexo é
esfregado na cara da gente como se fosse propaganda de
pasta de dentes''
ÉPOCA - Quando Cazuza - O Tempo Não Pára
foi lançado, você evitou comentários. Ficou
chateado com o fato de ter ficado fora do filme?
Ney - Se o filme pretendia contar a história do Cazuza,
está errado. Faltam duas informações. A primeira
é que abri caminho para o Barão Vermelho quando
gravei Pro Dia Nascer Feliz. Até então eles nunca
tinham tocado no rádio, só depois disso começaram
a fazer sucesso. E a segunda é que dirigi o último
show do Cazuza, quando ele já estava muito doentinho. Convenci
o Cazuza a terminar com O Tempo Não Pára. Ele não
queria, dizia que a música era para baixo, e eu dizia:
'Não tem de ser para cima'. Não estou falando de
amorzinho, não. Estou falando do trabalho dele. Será
que isso não interessa, não significa nada na história
do Cazuza?
ÉPOCA - Você acha que o preconceito contra gays diminuiu
no Brasil?
Ney - Houve melhora, o gay é mais bem-aceito. Mas tudo
tem dois lados. Descobriu-se que os gays são consumidores
maravilhosos, em geral bem empregados, sem filhos, com boa renda...
O mercado está aproveitando esse filão. Tem até
cruzeiro marítimo gay. Deus me livre de um cruzeiro gay!
Defendo o direito das pessoas, mas defendo meu direito de não
ir a um cruzeiro gay.
ÉPOCA - E você contribuiu para diminuir o preconceito?
Ney - Acho que sim. Antes de mim não se tocava nesse assunto.
E olha que não vim carregando a bandeira da defesa dos
direitos gays. Até tentaram colocá-la na minha mão,
porque era conveniente. E eu disse: não, não, não.
Muitas outras coisas me interessam, não quero ficar restrito
a isso. Tirem essa bandeira da minha mão, não aceito,
nunca aceitei. Limita a liberdade. Defendo outros parâmetros
de direitos: ser feliz, coerente, decente, honesto.
ÉPOCA - Por falar em decência: você está
acompanhando a crise política?
Ney - Sim, e a cada dia que passa fico mais perplexo. É
triste saber que depositei minha crença nessas pessoas.
Votei no Lula, sempre votei no PT. Eu acreditava que este governo
ia mudar o Brasil, dar outra direção, ter o social
realmente como prioridade, fazer escola e hospital funcionar.
Dá vergonha. Mas é muita hipocrisia apontar para
o governo e dizer 'o PT está fazendo isso ou aquilo'. Todos
fazem, sempre fizeram. Não é 'história',
como o Fernando Henrique falou. Ninguém pode tirar da reta.
A gente só não imaginava que o PT iria se submeter
a isso.
ÉPOCA - O PT perdeu seu voto?
Ney - Ainda não sei. Estamos diante de uma oportunidade
de fazer uma verdadeira reforma política no país,
de acabar com essa nojeira. Há uma possibilidade de mudança,
de algo profundo acontecer, para melhor. E a reforma seria uma
maneira de ver quem realmente está com vontade de mudar.
Todos esses que estão acusando o PT e se dizendo sérios
terão de provar que são sérios mesmo. Então
eu torço para que o Lula proponha essa reforma. O PT errou,
se promiscuiu, mas há uma luz no fim do túnel. Se
essa reforma política acontecer, aí, sim, eu posso
continuar acreditando no Lula, votando nele. Ou seja: a resposta
para essa pergunta não cabe a mim. Cabe a ele.
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